sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Educação Transcendental

Chesterton dizia que quando o homem deixa de acreditar em Deus passa a acreditar em qualquer coisa. Talvez o mesmo valha para o Estado: quando este deixa de professar algo, pode professar de tudo. A onda da vez é o laicismo radical, que não passa de um ateísmo militante descarado que quer extirpar o elemento religioso, intrínseco a qualquer sociedade, da vida pública. Há, por outro lado, em boa parte da população, uma tendência a um misticismo sem fundamento algum, muitas vezes com matizes supersticiosos. O problema é que tem governo por aí entrando nessa Nova Era de ações.

O governo do Estado do Rio de Janeiro anunciou uma parceria com a ‘David Lynch Foundation’ para incluir a meditação (sic!) na grade curricular das escolas públicas. Segundo o próprio David Lynch, isso “acabaria com o estresse entre os jovens e livraria o país da violência”. Caramba, David!, por que você não disse isso antes? Se soubéssemos que para acabar com os 50 mil homicídios anuais no país fosse necessário apenas fazer uns minutinhos de meditação diários, o Brasil já poderia ser o Novo Éden ou a Nova Jerusalém. Calma, comunistas: poderia ser Cuba também – afinal, lá não é um paraíso?

O site da fundação explica alguns pontos, como por exemplo o que é mantra. E afirma que isso é capaz de melhorar o desempenho dos estudantes. Explica que não é uma prática religiosa – é o que, então? Científico-filosófico-excêntrica? – e que faz bem a todos. Tudo muito bom, muito lindo. E mais: Lynch está investindo muito dinheiro com esse projeto e deseja construir uma Universidade de Meditação aqui no Brasil.

A picaretagem da idéia já fica evidente ao propor que isso resolveria o problema da violência. Tá, do mesmo jeito que a revolução socialista resolve o problema das injustiças sociais... quer dizer, qualquer solução mágica que apareça para os problemas humanos não passa, para mim, de farsa. Eu tenho profunda convicção de que o mundo andaria melhor se as pessoas fossem melhores, mas realmente essa história de ‘esvaziar a mente’ para relaxar não convence e não mudaria muita coisa na vida de ninguém. Isso não fornece projeto de vida, não dá novas perspectivas, não cria sonhos na juventude, enfim, não acrescenta nada na vida de ninguém. Só relaxa. E se é pra relaxar, simplesmente, prefiro tomar uma dose de um bom scotch, com todo o respeito.

Apesar de haver a afirmação, no site da fundação, de que essa ‘meditação transcendental’ não seja uma prática religiosa, é evidente que ela é originária de tradições religiosas orientais. Ou seja, é uma prática religiosa disfarçada. Eu não tenho nada contra práticas religiosas em colégios, muito pelo contrário. Mas e se, ao invés dessa tal meditação transcendental, as escolas resolvessem colocar um sacerdote católico para pregar uma meditação, a reação da opinião pública seria a mesma? Garanto que os frutos de uma pregação com um bom sacerdote seriam muito melhores do que ficar ali repetindo mantras.

Mas é aquele negócio: acreditar em duendes, vá lá. Acreditar em Paixão e Ressurreição, aí já é demais.

4 comentários:

Alexandre M. F. Silva disse...

Como diz minha irmã, que foi professora e desistiu da carreira: quando se fala em educação aqui no Brasil, é demagogia na certa.

Wagner Moura disse...

Canônico, pra você o Prêmio Blog de Ouro! Satisfação. http://diasimdiatambem.wordpress.com/2009/02/22/meus-blogs-de-ouro/

Julie Maria disse...

Belíssimo artigo!! Estamos frente a um Estado que além de não educar ainda deforma as consiências. Você disse tudo: se fosse um padre... ia aparecer no jornal em rede naciobal como fanatismo (sic).

Julie Maria

Alexandre M. F. Silva disse...

"Isso não fornece projeto de vida, não dá novas perspectivas, não cria sonhos na juventude, enfim, não acrescenta nada na vida de ninguém. Só relaxa."

Vivemos numa sociedade sem ideais, nem princípios, e que acha possível continuar assim e chegar assim a algum lugar. E propões pseudo-soluções para os problemas que a ameaçam.