quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Crebilidade ou descrédito

Para que possamos crer em um determinado acontecimento, é fundamental que haja motivos de credibilidade que assegurem alguma razoabilidade na crença. Por exemplo, se um professor ensina ao aluno que 1 + 1 = 2 ele acreditará, afinal o professor tem autoridade e domínio sobre o assunto. E a credibilidade aumentará ainda mais, na visão da criança, quando ela perceber que os coleguinhas que estudam em outros colégios aprenderam justamente a mesma coisa.

A história de Noé encontra similares em várias tradições culturais diferentes: uma enchente, que dizimou várias vidas e teve um alcance gigantesco. Há notícias de histórias assim na Índia e inclusive em alguns povos da América. Os céticos vêem nisso um claro indício de que se trata apenas de um mito presente em várias culturas. Não há dúvida que nem a história do Gênese nem a de nenhum similar seja exatamente literal. Quem sustenta isso? Agora, a conclusão a que eu chego é diversa: isso é um forte argumento de credibilidade. A meu ver, demonstra que houve um fato em algum momento da história humana, uma grande enchente, cuja notícia espalhou-se conforme a humanidade se espalhava.

Esse consenso dá credibilidade, portanto, ao fato de que houve um dilúvio em algum momento na história humana. Já li até sobre argumentos arqueológicos e geológicos que dão credibilidade a esta hipótese. Pior do que achar a Arca de Noé um mero conto de fadas é considerar que um consenso tão grande entre várias culturas distintas seja mera coincidência. Tenho a impressão de não ser esse o caminho mais razoável a seguir ao interpretar o significo de um mito, ainda mais com evidências de ter ocorrido de fato.

4 comentários:

Andrea disse...

Exatamente! Povos diversos transmitiram relatos sobre um dilúvio universal. Isso só leva a crer que houve realmente um dilúvio.

E mito é realidade contada de forma simbólica. Claro que estou excluindo aqui as distorções que fizeram de certas narrativas míticas.

Adoro observar como que culturas diferentes atestam a realidade de um mesmo fato. :)

Abraço!

Tanja Kraemer disse...

Paul Johnson, História dos judeus, 2a. ed, pp 20-21:

Não pode haver agora qualquer dúvida de que alguma espécie de enorme inundação ocorreu na Mesopotâmia. A primeira corroboração do relato bíblico sucedeu em 1872, quando George Smith descobriu uma versão do Dilúvio em tabuinhas cuneiformes encontradas no Palácio de Assurbanipal. Isso era, de fato, uma versão assíria tardia, interpolada no fim de um poema épico muito anterior, conhecido como Gilgamesh, que trata de um antigo governante sumério de Uruk, no quarto milênio a.C. Antes dos assírios, tanto os babilônios como os distantes sumérios guardavam lembranças de uma grande inundação. Na década de 1920, Sir Leonard Woolley encontrou e escavou Ur, uma cidade suméria importante do quarto e terceiro milênio a.C., que é mencionada na Bíblia bem no fim de sua seção pré-histórica. Enquanto investigava os níveis arqueológicos mais antigos em Ur, Woolley fez esforços prolongados para desenterrar evidência física de uma inundação dramática. Encontrou um depósito aluvial de 8 pés, a que ele atribuiu a dada de entre 4000 a 3500 a.C. Em Shurupaq, ele deparou com outro impressionante depósito aluvial. E com um de dezoito polegadas num estrato semelhante em Kish. Mas as datas desses e a de Ur não se enquadravam umas com as outras. Investigando os vários sítios que haviam sido explorados na altura do início da década de 1960, Sir Max Mallowan concluiu que houvera, de fato, uma gigantesca inundação. Então, em 1965, o Museu Britânico fez uma descoberta em seus depósitos: duas tabuinhas, que se referem ao Dilúvio, escritas na cidade babilônica de Sippar, no reino do rei Amisaduca, 1646-1626.

R. B. Canônico disse...

Tanja, obrigado por trazer essa excelente contribuição.

Alexandre M. F. Silva disse...

De fato, existe um texto babilônico, a "Epopéia de Gilgamesh", contendo uma descrição do dilúvio, com muitos pontos de contato com a narrativa bíblica. Quase todos os povos da terra devem conhecer a força trágica das grandes inundações. Mas penso que a novidade do relato bíblico é a presença de um único Deus, ao mesmo tempo vigilante e misericordioso em relação ao homem que criou.