segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ainda sobre moradores de rua

A postagem que fiz sobre moradores de rua rendeu alguns bons comentários. Ninguém nega que seja uma situação que ofende gravemente a dignidade da pessoa humana. Não é possível ver alguém dormindo na sarjeta e ficar indiferente, por mais alienada que seja a pessoa.

Mas há um ponto interessante. Alguém comentou que muitos dos moradores de rua estão lá por certa omissão, por não querer reagir ao drama de suas vidas. Isso pode ser verdade em alguns casos. Eu, mesmo que perdesse tudo, iria lutar com todas as minhas forças e com todos os meios possíveis para não chegar àquela condição.

A questão toda se resume a um ponto simples: eu não estou propondo que nos unamos todos, abracemo-nos e cantemos por aí 'Hakuna Matata', salvando todas as pessoas da miséria. Eu não tenho esta utopia. Mas sei que algo pode ser feito por aquelas pessoas, mesmo que seja um pouco de atenção. O morador de rua precisa ser lembrado de que ele possue uma dignidade altíssima que o impele a sair dali, a fazer algo por ele e para a sociedade. Para isso, o primeiro passo é respeitarmos a história de cada uma dessas pessoas.

Além disso, uma conclusão importante. A mudança não pode ser extrínseca à pessoa. Isso é utopia. Para ocorrer uma verdadeira mudança é preciso em primeiro lugar haver uma transformação interna, no íntimo da consciência. Isso é o qie impelirá a pessoa a buscar a mudança de condição. Após isso, aí sim é fundamental condições justas que permitam as pessoas a viverem com o mínimo de dignidade.

Primeiro, paz nas consciências. Depois, paz no mundo.

4 comentários:

Andrea disse...

Rodolfo, indiquei seu blog para o prêmio "Blog de Ouro".

Para participar, entre: http://borboletasaoluar.blogspot.com/

Suzana Jones disse...

Oi Rodolfo,
Quem colocou o comentário sobre o morador de rua não querer se ajudar fui eu, Suzana. Infelizmente não saiu meu nome, cliquei em publicar e só depois vi que ficou Anonimo.
Sua visão do morador de rua é poética. Bonita, mas irreal.
Espero mesmo que você se envolva um pouco mais com a vida. Vá para a rua e tente participar de um programa de ajuda para estas pessoas. Você disse que elas precisam de atenção... dê então essa atenção a elas. E não adianta ser um fim-de-semana, ou um mutirão. Vá mesmo a fundo e participe de uma ong por vários anos como eu fiz. É muito construtivo e serve para que a gente acorde para a realidade. Passados uns cinco anos, você pensa... tudo o que estas pessoas têm, eu que fiz (a ong fez, o governo fez). Elas, por si mesmas não fazem nada. São uns aproveitadores. Só falar não adianta nada. Ficar na poesia de que tem que "respeitar" um ser humano que não respeita a si, ao próximo, à sociedade, não respeita nada, não vai te ensinar a realidade da vida. Hoje em dia está muito na moda ficar passando a mão na cabeça de gente que, ao invés de usar a cabeça, fica fazendo filho que não tem como sustentar. As favelas estão cheias de gente que ganham tanto quanto você, mas não pagam água, luz, moradia. Sabia que um mendigo, se fizer o seu "serviço" direitinho, tira uns 2 mil reais de esmola por mês, na média? Livres de impostos, sem chefe para aturar, sem ajudar em nada a sociedade que sustenta ele. Tem uma india no bairro onde moro que vive na rua. Ela tem 5 filhos e todo ano faz mais um. E o povo ajudando. Ela pões os filhos para pedir mais dinheiro e dá pra mais alguém. Nove meses depois, tem mais um pedinte a caminho. Quantos filhos você tem? Quantos acha que poderá sustentar? Eles não fazem esta conta. Sabe porque? POrque é VOCÊ que vai sustentar o filho deles. Com bolsa familia, auxilio maternidade, leite de graça e outros benefícios. Porque você não ganha isso? Porque um padeiro que trabalha o mês todo pra ganhar menos de 2 mil reais não ganha bolsa família? Porque ele é honesto, trabalha, paga por TUDO que ele tem. E o mendigo lá... usufruindo. Sério mesmo... essa opinião que você sustenta é absolutamente irreal. Foi vendida para você pelos meios de comunicação para que você não perceba que sustenta, automaticamente, pelo menos uma meia dúzia de filhos de gente irresponsável. Você é um cara inteligente, eloquente e que parece ter um bom coração. Só que vai acabar influenciando mal as pessoas com quem tem contato. Vai ajudar ainda mais a piorar a situação para todo mundo. Se, de um dia para outro, ninguém mais desse ajuda nenhuma a mendigo nenhum, nem às pessoas supostamente pobres, vai ver quanta gente ia se levantar e trabalhar. Vai ver quanta gente ia ficar tendo filho se soubesse que teria que dar duro pra sustentá-lo.
Por que você tem tanta pena de gente de rua? O que você acha que tem que eles não tem? Porque acha que eles tem menos condição do que você? Por que acha que eles são piores que você? Por que você se acha tão melhor do que eles?
E se você estiver tentado a responder que você não se acha melhor do que eles, porque está sentindo pena de uma pessoa igual a você que apenas vive de outro jeito?

R. B. Canônico disse...

Olá, Suzana.

Respeito profundamente a sua experiência. Contudo, conheço pessoas que entregaram a vida inteira - e não apenas o final de semana... - a fazer isso que vc fez, e a experiência de muitos deles é distinta da sua. Loucura? Eu não tenho dúvidas de que seja. Mas que é admirável, ainda mais para alguém que tem vocação para seguir por esse caminho, como eu.

Agora, uma diferenciação deve ser feita: eu é que nao sou a favor de bolsa esmola, bolsa não sei mais o que! De jeito nenhum! Sou contra isso, em absoluto. Pagamos uma carga tributária altíssima para sustentar:

a) uma multidão de burocratas

b) Gente que não precisa disso para sobreviver.

Esse assistencialismo não passa da maior compra de votos já feita na história do país, e não melhora a vida de ninguém.

Posto isso, no caso dos moradores de rua, simplesmente não há solução. É evidente, como vc diz, e eu disse no meu texto, que só sai da rua quem em primeiro lugar querer. Disso dá para depreender que esse problema talvez jamais tenha fim. Repare que não fui eu que disse que isso se resolveria assim, e que talevz jamais se resolva.

E quanto a me achar melhor do que eles, eu não me acho. Agora, que eu e vc - que temos, por exemplo, acesso a internet - vivemos mais confortavelmente do que eles, disso não tenha dúvidas. E é evidente que eu acredito que haja um modelo de vida ao qual almejamos viver, e é a partir desse modelo que podemos exercer comparações - e, acredite, não sou eu o modelo. Claro que isso abrange vários caminhos distintos, mas enfim, o fim almejado é o mesmo. E tem mais, um morador de rua não tem acesso aos tesouros da nossa cultura. eles podem até não querer isso, mas enfim, o fato é que eles têm muito menor condição de acesso a isso do que nós, que estamos aqui online. E dificilmente podem produzir algo de construtivo para a sociedade, a não ser que tomem uma atitude e queiram mudar de vida. Eu sei que não é a minha atitude ou a sua que vai mudar isso: é a deles.

De todo modo, vai ser realmente dificil me convencer de que alguém goste ou deseje dormir na rua. Pq eu sei bem o quão o chão é duro para se deitar...

Enfim, também tenho a plena consciência de que não vou ser eu a resolver todos os problemas do mundo. Pior, talvez venha apenas acrescentar mais um ou dois à confusão por aí. Acredite, não é por mal. Talvez eu passe a minha vida inteira sem ter feito uma pessoa sair da rua, isso é o mais provável que ocorra. Sei que outras pessoas terão experiencias distintas.

Por fim, reforço que não pretendo ficar expondo todos os meus projetos pessoais aqui. E, acredite, se vc me acha louco ou utópico lendo o que escrevo, talvez quisesse me internar num hospício logo de uma vez ao saber o que tenho feito ew pretendo fazer ainda hehehehe.

Encerrando, debo dizer que concordo sim com boa parte do que vc diz. Quase tudo, mesmo. Só não compartilho do seu ceticismo.

Um grande abraço

Suzana Jones disse...

Oi Rodolfo,
faz tempo que não visitava o seu blog. Mas acabei lembrando hoje e passei por aqui.
Obrigada pela sua resposta. Foi bacana conhecer o seu ponto de vista mais a fundo.
Gostaria de dizer que não acho você louco e nunca iria querer internar você num hospício :), o que eu penso é que você é uma pessoa de muitíssimo bom coração. Como tal sente um desconforto emocional enorme ao presenciar a pobreza e o desalento. Porém essa pobreza e desalento são presentes para todas as pessoas, inclusive para você, que tem internet e tudo o mais ou pra mim. Não é a mesma pobreza, não é o mesmo desalento. Mas você ou eu não poderíamos nos compadecer da pobreza ou desalento de outros, se não soubessemos o que é sentir-se assim. E é isso, somente isso, que eu quis estabelecer nos meus comentários. Você focou a pobreza e o desalento do OUTRO. E de um outro muito específico. Ajudar o outro é muito mais fácil do que ajudar a gente mesmo. Você vai ajudar o pobre, o mendigo, não porque você quer diminuir o sofrimento dele, mas sim porque você quer diminuir o SEU sofrimento. Porque você sofre ao se deparar com a situação do outro. Você pode ajudar, se quiser. Mas para que você se sinta melhor a ajuda tem que dar certo, o cara tem que sair da pobreza e melhorar de vida. Daí, você vai achar outro pobre e vai se sentir mal de novo e vai se lançar a ajudar novamente. Você vai poder fazer isso o resto da vida e nunca vai resolver o SEU sofrimento. A não ser que você olhe profundamente para dentro de si mesmo e identifique as causas que te levam a querer ajudar, jamais será uma ajuda real para o outro. Será somente uma reação à dor que você sente quando vê uma pessoa pobre. E é pra diminuir ou pra escapar dessa dor - a sua dor - que você está querendo ajudar. O sofrimento - o seu - vai impedir você de ver as coisas objetivamente e até mesmo de tomar boas decisões na hora de resolver quem vai ajudar ou como. Para você eu pareci cética. Ok. Reli meu texto e dá essa impressão mesmo. Foi uma observação muito boa da sua parte porque me fez pensar sobre a forma que eu escrevi.
Mas veja, eu sei o que te move para querer ajudar essas pessoas, eu sei o que é ter esse tipo de compaixão, eu sou uma pessoa exatamente igual a você. Esse tipo de dor interna não desaparece ajudando os outros... ela desaparece quando você dá atenção pra própria dor e tenta entender porque ela está lá. O mendigo na rua é só um lembrete... ele está te mostrando uma dor que você tem dentro de você e não deu atenção. Cuida de você primeiro. Daí, quando você puder olhar para o mendigo sem sentir dor, poderá decidir ajudá-lo... ou não. E se o fizer, será uma doação genuína, porque aquilo não significa mais nada pra você, não é algo que você faz para diminuir a SUA dor, mas sim para diminuir a dor do outro, só do outro.
Um grande abraço e desculpe por estar interferindo na sua vida desse jeito. Mas tive uma chance de te ajudar e eu o fiz, te dei uma parte do meu aprendizado e se te ajudar a sofrer menos ficarei feliz. Se não fizer diferença, ou se você achar que eu só sou uma pessoa dura e cética..ou sei lá o quê.. está tudo bem também, eu entendo daonde vem essa conclusão e pra mim, que sei como sou realmente, não interfere em nada. Mas eu preferiria que você pensasse no porque de estar me dando esse rótulo ao invés de considerar que eu sou igual a você. Uma pessoa igual a você com os mesmos ideais e desejos para um mundo melhor, só que eu não preciso mais aliviar meu sofrimento ajudando os outros - (o que não quer dizer que eu não o faça, só é completamente diferente de uma ajuda apaixonada... é uma ajuda objetiva onde eu acho que realmente o outro vai poder usar a ajuda para começar a diminuir seu próprio sofrimento). Eu sei onde o sofrimento está e cuido primeiro de eliminá-lo em mim. E então estou pronta para ajudar o outro a eliminar o sofrimento em si mesmo. Nâo sou EU que ajudo o outro. Eu não tenho essa pretensão. No máximo posso apontar o caminho. Mas o outro tem que fazer o trabalho.