sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uma idéia sobre felicidade

A vida humana é uma contínua busca pela felicidade. Pelo menos é o que diziam os gregos, e acho que é difícil discordar de tal proposição. Há, porém, algumas dificuldades nessa busca: muitas vezes as pessoas confundem felicidade com comodidade, ou então com frivolidades. Há também aqueles que erram grosseiramente, e assim que atingem a meta traçada descobrem a profunda infelicidade em que passaram a viver. O homem sabe de uma coisa: nesta terra não alcançará a felicidade em absoluto, por mais que a busque.

É interessante notar que sempre que traçamos uma meta, algo que desejamos muito, procuramos nisso alguma felicidade. Assim, um diploma universitário, uma viagem de férias ou um carro novo convertem-se em objetos desejados pela pessoa que, assim que os obtém, alcança um certo grau de felicidade. Mas nessa vida tudo se corrompe: o carro, que hoje é novo, amanhã estará velho e desprezível; a viagem terminará e isso traz um sentimento de melancolia; a carreira profissional pode tornar-se motivo de frustração. Um cara que quer se alegrar em uma bebedeira terá que suportar a ressaca do dia seguinte. Por que raios sempre que a pessoa busca a felicidade acaba encontrando traços de sofrimento?

A dor é, sem dúvida, a grande contradição da vida humana. É possível ser feliz sofrendo? Se por um lado a vida é a busca pela felicidade, e por outro não podemos escapar do sofrimento... então o homem será necessariamente frustrado? Acredito que a pessoa que foge à essas questões esteja sendo covarde. Há algumas respostas coerentes; dessas, há aquelas que são inaceitáveis.

A primeira tentação é cair em uma espécie de niilismo, uma indiferença perante a vida. E curtir as sensações do momento: a idéia é sentir-se bem, já que não é possível estar bem. Eu não posso concordar com tamanha leviandade: levar essa posição às últimas conseqüências seria ou cair em um hedonismo ridículo, ou suicidar-se. Ambas as posições são covardes, em minha opinião.

Mas então como conciliar a felicidade com o sofrimento? Não há aí uma contradição? Quase. O homem moderno tem um afã de querer dominar a vida, mas isso não é possível. Há algo de misterioso aqui. E é justamente essa a saída para o dilema aqui proposto: a vida é um grande mistério. Não adianta fazer birra, e querer uma explicação científica, precisa, para o que vivemos; simplesmente não há. Hoje está tudo uma maravilha, mas amanhã perde-se uma fortuna na bolsa de valores e a pessoa cai na miséria. O que ela fez para merecer isso? Nada. O que dizer então dos doentes, ou dos que são vítimas de crimes. Eles mereciam isso? Não! Como explicar isso? Não sei, é um mistério: esse é o grande ponto.

E aqui está um dos paradoxos de Chesterton. Enquanto o materialista, o niilista e sei-lá-mais-o-quê-ista se descabelam tentando explicar o insondável – ou simplesmente ignorando essas questões -, o místico sabe que pouco pode para explicar sua própria existência, e tampouco tem condições de ser o senhor da sua vida. Admitindo esse grande mistério, o que é contraditório torna-se simplesmente paradoxal. Mas um paradoxo verdadeiro. A única explicação convincente para o dilema estaria em uma realidade onde não houvesse mais esse sofrimento. Basta aceitá-la e é possível encontrar sentido em todas as realidades da vida, especialmente aquelas que parecem incompreensíveis. Se é verdade que o sofrimento é inevitável, também é verdade que buscamos a felicidade e teremos que encontrá-la. Mas também é preciso admitir a transcendência da vida. Mesmo que não seja uma resposta ‘científica’, talvez seja a única satisfatória.

5 comentários:

Andrea disse...

Rodolfo, realmente o problema é como buscar a felicidade. Sabemos que A Felicidade (completa) não dá para ser vivida aqui neste mundo, pois por mais que consigamos ter as coisas e pessoas que queremos, não poderemos ser plenamente felizes sabendo que há sofredores à nossa volta. Agora, viver em busca do prazer e correndo da dor, também não dá. Hedonismo é feio! rsrsrs

Sinto-me mais feliz quanto mais eu me encontro perto de Deus. Mas nem sempre eu me sinto perto Dele, e a dor da separação somado ao medo de perdê-lO é algo assustador...bom, mas aí é outra história!

Abraço!

Marie Tourvel disse...

Eu até me contento com momentos felizes, Rodolfo. O que me dói é a saudade que sinto em busca desses momentos...
Belo post, querido.
Um beijo!

R. B. Canônico disse...

Olá, Andrea! O que pode nos fazer ser felizes é a esperança. E só tem esperança quem tem fé. Afinal, é virtude teologal. Os sofredores somos todos nós, mas há um significado para esse sofrimento. Dê uma olhada para um crucifixo e você compreenderá, na hora. Para quem não acredita nisso, a dor é algo inexplicável, e a pessoa tentará fugir dela a todo custo... o encontro é inevitável.

Marie, é justamente disso que estou falando! Acredita que há pessoas cômodas ao ponto de negarem essa realidade? Tem gente muito acomodada, que infelizmente vai sofrer em virtude dessa ilusão. Devemos sim, buscar a felicidade, mas sabendo exatamente qual o destino do caminho que escolhemos! Isso tudo é uma questão muito séria, e tenho certeza que você sabe o quanto!

Mas até mesmo uma festa tem seu momento melanc´lico:há quem se sinta muito triste em um fim de festa.

Alexandre M. F. Silva disse...

O cristão vê a vida como um combate, uma luta cheíssima de sentido, por uma meta que realmente vale a pena ser buscada. Penso em Santa Teresa de Lisieux, em seus últimos momentos, acossada por provações interiores e exteriores, mas ao mesmo tempo movida por uma incrível esperança.

Luh Lena disse...

Eu considero que o que faz as pessoas infelizes é justamente essa busca da felicidade nas coisas onde não se pode encontrá-la. Ser feliz não é algo que esteja em uma situação ou em alguma coisa. É aquilo o que nos deixa plenos e plenos só estaremos quando cumprirmos o sentido da nossa vida. Considerando que fomos feitos para conhecer, amar e servir a Deus, então não precisamos associar a felicidade a este mundo. Se pararmos de buscar a felicidade e fazer aquilo o que temos de fazer, teremos menos frustrações e muitos momentos de alegria. Então, quando estivermos junto dEle, poderemos ser plenamente felizes.
bjs!