terça-feira, 16 de setembro de 2008

A sociedade da ciência

Enquanto alguns aguardam o fim do mundo devido ao acelerador de partículas LHC, a única preocupação que me passa com relação a esse assunto é sobre o modo adequado de se acender charuto: com fósforos ou com um bom zipo? O detalhe é que nem fumante eu sou, mas creio que essa questão do charuto seja mais importante para mim do que a possibilidade de o fim do mundo começar na Suíça. Está certo que Hans Kung é de lá, mas ele pode a qualquer momento abdicar de suas heresias...

Antes que algum apressadinho venha me acusar de, sei lá, ‘obscurantista religioso’, ‘inguinorante’ (sic), desejar a minha morte (como alguns fazem nos comentários) ou considerar-me um anti-anti-tabagista delinqüente, explico-me. Há toda uma celeuma criada em torno desse LHC que imagino que ele, sozinho, possa ganhar o Oscar, o Prêmio Nobel e ser capa da próxima revista ‘Caras’ como personalidade do ano. Os meios de comunicação já estão falando mais nesta máquina do que no último jogo da seleção brasileira. E olha que estamos no país do futebol! Olé!

Há ainda um fenômeno curioso, que poder-se-ia chamar ‘efeito LHC’: agora todos querem dar palpites sobre Física Quântica. O novo teor das conversas de bar, dessas de happy-hour, é o seguinte: primeiro fala-se do trabalho, depois de mulheres, depois de futebol, e depois, é claro, sobre o LHC e a Teoria de Hawking sobre os buracos negros. Tudo na maior naturalidade possível. Não importa se o cara não saiba absolutamente nada sequer sobre Max Planck. O fato é que o sujeito sente-se na autoridade de decretar o apocalipse para breve. E há quem diga que isso tudo é resultado dos ‘divulgadores da ciência’ que apareceram por aí nos últimos anos, encarando esse fenômeno de modo positivo.

A ciência tem sim um papel fundamental em nosso mundo moderno, mas parece que a sociedade está colocando ciência e cientistas como uma espécie de messias redentor. Não dá, isso é ir além do próprio fim da ciência. Esse experimento realizado no LHC visa comprovar algumas teorias que, de fato, poderão ajudar a dar explicações para determinados fenômenos. Essa história dos buracos negros, por exemplo: se Hawking estiver correto, há a possibilidade de surgirem pequenos buracos negros que desapareceriam rapidamente. Ou seja, nada de Apocalipse. Também estão procurando uma partícula elementar, que é chamada de Bóson de Higgs. Dois comentários: jamais chamaria um filho meu de Bóson e; o próprio Stephen Hawking apostou cem libras, dizendo que não encontrarão a partícula. Claro que ele pode perder a aposta.

Se provarem que essas teorias estão corretas, ótimo! Que influência isso terá em minha vida prática em médio prazo? Nenhuma. Também é importante que as pessoas lembrem que são isso: teorias. São explicações de fenômenos naturais que, futuramente, podem ser suplantadas por explicações mais adequadas. Por exemplo, não é que a mecânica newtoniana esteja ultrapassada; pelo contrário, ela descreve de modo preciso fenômenos em nosso mundo macroscópico. Mas não funciona bem no mundo microscópico, e aí entra em cena a Física Quântica. Por isso que devemos ter em mente que a ciência não vem aí para buscar a Verdade (papel da filosofia), mas pode fornecer ferramentas muito úteis nessa busca. Espero que a sociedade saiba, enfim, dar a ciência seu verdadeiro valor, e que a mídia pare de noticiar o assunto da forma como vem sendo feita. Isso é péssimo para a própria ciência, pois ela frustrará os que esperam mais dela do que deveriam.

8 comentários:

Eduardo Araújo disse...

Muito bem, R. B.

Penso que não há espírito científico na sociedade hodierna, como pretendem os neo iluminados arrogantes e cegos para a própria imbecilidade.

Há, sim, um grande espírito cientificista, ou seja, de louvor exacerbado a tudo que se apresente como ciência. Já cheguei a ler em outros lugares pessoas dizendo asneiras impressionantes como "Deus não existe, porque não é passível de experimentação" (pasmem!)Quer dizer, o iluminado da nova era sustenta que só existe aquilo que o método científico conseguir abarcar.

Bom é quando pegamos essas bestas quadradas pretenciosas de calças curtas. No exemplo acima, bastaria perguntar ao sujeito se tudo já foi descoberto e analisado pela ciência. Com certeza, sua resposta será negativa. Então o que AINDA não foi descoberto não existe, posto não ser passível de experimentação.

Nesse momento, pode esperar que é quando vêm os famosos qualificativos tais como os citados - obscurantista, medieval, fanático religioso, inquisidor (até este, creia), inimigo da verdade, preguiçoso mental,etc. E tudo vindo de um pretenso ser racional (não deveria ser neutro?), eivado de ciência (não bastaria usá-la para argumentar? Para que os xingamentos?).

Na verdade, um tremendo estúpido anti-religioso, sumamente iludido com o que leu nessas revistas de banca tipo Galileu ou Superinteressante. Ou, então, com o que leu nos seus livros "ultra" avançados de ciência, nos quais - que pena - Deus não é deduzido pelo método científico.

Abraço

Andrea disse...

O problema hoje é que as pessoas estão "botando fé" na ciência como se fosse religião...os cientistas são vistos por muitos como pessoas que sabem tudo, enfim, estão tomando o lugar dos verdadeiros sábios. É a doença do homem moderno que troca o espiritual pelo material. Afinal de contas a importância da ciência se restringe apenas ao mundo material e por mais que isso tenha importância para nós, não é o essencial. Vejo que há pessoas (ateus principalmente) que colocam a ciência em um pedestal como se esta pudesse explicar tudo.

Abraço!

R. B. Canônico disse...

Eduardo, seu comentário está excelente, como já é de praxe. Acrescento que a nova superstição não é mais de cunho mitológico, mas científico! As crianças no futuro não vão mais acreditar em saci-pererê, mas sim em buracos negros na Suiça, em aleijados curados por cel. tronco embrinarias, em uma humanidade sem defeitos por ser geneticamente manipulada... Enfim, se dizem que essa era da ciencia iria trazer luzes contra o obscurantismo, eu me pergunto: que raio de luz é essa que cria uma superstição tão ingênua como o mito do progresso indefinido? Alias, quantas 'tragédias' esse progresso já não custou à humanidade? Precisamos refletir...

Andrea, eu me pergunto como que a ciência pode lá responder a tudo. que respostas ela pode dar a uma mãe que enterra seu filho?

Emanuel Jr. disse...

Rodolfo. Também estou tentando normatizar a minha atividade no blog mas o trabalho vem me sufocando. Vamos ver como será o mês de outubro.

Quanto ao "chavismo light" acho que não estamos caminhando não, já estamos nele sem perceber. Gramisci adoraria ver o seu discípulo Lula e PT. Nunca vi nada tão bem copiado. Bom... pelo menos alguma coisa boa conseguem fazer né. Copiar Gramisci.

Lelê Carabina disse...

Olá Canônico, com este sobrenome não será difícil te chamarem de 'obscurantista' rsrsrs
Acabei de acordar então meus pensamentos se voltam mais para um café do que para este tal de LHC... rsrs Quando ouvi categoricamente que vão descobrir "a partícula de Deus" comecei a rir, (humm agora há um Deus) pode até ser que descubram, mas menos né; é engraçado a tamanha fé que se coloca na ciência, mesmo sem que ela prove nada necessariamente: vem da ciência, logo é bom e certo. Obrigada pela visita, já cloquei link para teu blog. Abraço.

Marie Tourvel disse...

Ei, querido, cheguei aqui através da querida Lelê e... adorei. Beijos!

Tats disse...

Olá Rodolfo,

Sou nova por aqui, cheguei ao seu Blog através do Per fa et Per ne fas, outro excelente blog, mas adorei a forma como vc mescla ciência, filosofia e religião, é bastante interessante. Parabéns pelo Blog!

Abraço

R. B. Canônico disse...

Tats,

Obrigada pela visita e volte sempre. Seu perfil está bloqueado, por isso nao consigo acessá-lo. Qualquer coisa, é só entrar em contato!