domingo, 28 de setembro de 2008

Sobre cães e mendigos

No campus da universidade na qual estudo há vários cachorros abandonados. São vira-latas legítimos, sujos e pulguentos, mas muito obesos. É que as cozinheiras do restaurante universitário dão boa quantidade de sobras aos cães, e eles acabam tendo uma vida de rei por lá. É muito comum também encontrar mulheres dando carinho aos cães (imundos e alguns sarnentos), com muita valentia para dar carinho aos animaizinhos. Também diria que é comum encontrar pessoas que, ao toparem com um filhote de cachorro abandonado, levam-no para casa, dão comida e até mesmo adotam a ferinha. A mentalidade politicamente correta exige que tornemos a vida dos animais mais humana (sic).

O mesmo carinho não existe quando um mendigo é avistado. Ao contrário dos cães abandonados, que viram centro de atenção e carinho, o mendigo é uma figura que incomoda. As pessoas fingem que ele não está ali, e são pouquíssimos os que têm coragem de encarar um morador de rua nos olhos. As desculpas são várias: medo de assalto, pressa... a mesma coragem para acariciar um cachorro sarnento não existe no momento de dar atenção ao mendigo. Eu posso citar vários conhecidos que acolheram cães abandonados em suas casas; quantos conhecidos que levaram um mendigo em casa, que não seja para acolhê-lo, mas para permitir um banho, ou uma refeição?

Essa realidade é arrasadora, é um claríssimo sintoma de algum problema muito grave em nossa sociedade. Os cães que moram na rua são tratados muito melhor do que os homens moradores de rua – o que já é, “de per si”, uma clara violação da dignidade dessas pessoas. A mentalidade politicamente correta domina a sociedade, e torna os homens menos humanos. As preocupações estão perdendo completamente o sentido: enquanto há homens dormindo no chão frio e duro das ruas, muitas pessoas gastam muito dinheiro e energia em campanhas para achar lar para cães. Os embriões de tartaruga marinha são mais protegidos do que os embriões humanos. As árvores da Amazônia são mais lembradas, na mídia, do que as crianças órfãs. A morte de ursos polares causa mais comoção do que os centenas de milhares de mortos no genocídio sudanês – fato sistematicamente ignorado pela mídia e vergonhosamente encoberto pela diplomacia brasileira.

O politicamente correto é fruto da incompreensão de vários princípios que regeram as relações humanas por séculos, causando freqüentemente uma bizarra inversão de valores. O valor da dignidade humana depende, necessariamente, da aceitação e conhecimento da natureza humana. O problema é que a modernidade quer negar que haja tal natureza, e aí o ser humano fica a mercê do que for mais popular no momento. E com certeza é mais agradável dar atenção a um cachorro do que a um mendigo. Sem dúvida, nossa consciência não sente culpa alguma com um cachorro ali, mas um outro ser humano estar em condições sub-humanas é fato terrivelmente perturbador. E por isso eles costumam ser ignorados. E a sociedade do politicamente correto, ao invés de encarar essa triste realidade de frente, prefere gastar suas forças em conseguir lares para cachorros e árvores para a Amazônia. Os mendigos? Enquanto eles não incomodarem pedindo dinheiro para comer, ou seja lá o que for, as pessoas vão continuar iludindo suas consciências tratando cãezinhos e lutando pelas baleias do Pacífico Sul. E com ar triunfalista por estarem contribuindo de modo significativo para o progresso humano rumo ao novo Éden na Terra – pelo menos para os cães.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A sociedade da ciência

Enquanto alguns aguardam o fim do mundo devido ao acelerador de partículas LHC, a única preocupação que me passa com relação a esse assunto é sobre o modo adequado de se acender charuto: com fósforos ou com um bom zipo? O detalhe é que nem fumante eu sou, mas creio que essa questão do charuto seja mais importante para mim do que a possibilidade de o fim do mundo começar na Suíça. Está certo que Hans Kung é de lá, mas ele pode a qualquer momento abdicar de suas heresias...

Antes que algum apressadinho venha me acusar de, sei lá, ‘obscurantista religioso’, ‘inguinorante’ (sic), desejar a minha morte (como alguns fazem nos comentários) ou considerar-me um anti-anti-tabagista delinqüente, explico-me. Há toda uma celeuma criada em torno desse LHC que imagino que ele, sozinho, possa ganhar o Oscar, o Prêmio Nobel e ser capa da próxima revista ‘Caras’ como personalidade do ano. Os meios de comunicação já estão falando mais nesta máquina do que no último jogo da seleção brasileira. E olha que estamos no país do futebol! Olé!

Há ainda um fenômeno curioso, que poder-se-ia chamar ‘efeito LHC’: agora todos querem dar palpites sobre Física Quântica. O novo teor das conversas de bar, dessas de happy-hour, é o seguinte: primeiro fala-se do trabalho, depois de mulheres, depois de futebol, e depois, é claro, sobre o LHC e a Teoria de Hawking sobre os buracos negros. Tudo na maior naturalidade possível. Não importa se o cara não saiba absolutamente nada sequer sobre Max Planck. O fato é que o sujeito sente-se na autoridade de decretar o apocalipse para breve. E há quem diga que isso tudo é resultado dos ‘divulgadores da ciência’ que apareceram por aí nos últimos anos, encarando esse fenômeno de modo positivo.

A ciência tem sim um papel fundamental em nosso mundo moderno, mas parece que a sociedade está colocando ciência e cientistas como uma espécie de messias redentor. Não dá, isso é ir além do próprio fim da ciência. Esse experimento realizado no LHC visa comprovar algumas teorias que, de fato, poderão ajudar a dar explicações para determinados fenômenos. Essa história dos buracos negros, por exemplo: se Hawking estiver correto, há a possibilidade de surgirem pequenos buracos negros que desapareceriam rapidamente. Ou seja, nada de Apocalipse. Também estão procurando uma partícula elementar, que é chamada de Bóson de Higgs. Dois comentários: jamais chamaria um filho meu de Bóson e; o próprio Stephen Hawking apostou cem libras, dizendo que não encontrarão a partícula. Claro que ele pode perder a aposta.

Se provarem que essas teorias estão corretas, ótimo! Que influência isso terá em minha vida prática em médio prazo? Nenhuma. Também é importante que as pessoas lembrem que são isso: teorias. São explicações de fenômenos naturais que, futuramente, podem ser suplantadas por explicações mais adequadas. Por exemplo, não é que a mecânica newtoniana esteja ultrapassada; pelo contrário, ela descreve de modo preciso fenômenos em nosso mundo macroscópico. Mas não funciona bem no mundo microscópico, e aí entra em cena a Física Quântica. Por isso que devemos ter em mente que a ciência não vem aí para buscar a Verdade (papel da filosofia), mas pode fornecer ferramentas muito úteis nessa busca. Espero que a sociedade saiba, enfim, dar a ciência seu verdadeiro valor, e que a mídia pare de noticiar o assunto da forma como vem sendo feita. Isso é péssimo para a própria ciência, pois ela frustrará os que esperam mais dela do que deveriam.