sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os novos sacerdotes

Um amigo meu, astrônomo, estava comentando recentemente sobre um documentário chamado “O Universo de Stephen Hawking”. Não há dúvidas de que o conteúdo do mesmo, do ponto de vista científico, é impressionante. O que dá pena é a pretensão de alguns cientistas chegaram à alçada de verdadeiros deuses, quando muito poderão ser sacerdotes de uma velha nova religião, que coloca o homem e seu conhecimento no centro do universo.

Na mentalidade contemporânea, um ‘fato cientificamente comprovado’ é incontestável. Se for anunciado na televisão algo do tipo “cientistas descobrem que cafeína faz mal por isso, aquilo e assado”, no dia seguinte uma verdadeira multidão deixa de lado o seu cafezinho. Caso um outro grupo de pesquisadores descubra, no mês seguinte, que a cafeína é responsável por vários benefícios à saúde, nova legião de viciados em café surge. E vai alguém dizer que cafeína faz mal: “não faz não, é cientificamente comprovado”. Nem o fato de que na semana passada fosse cientificamente comprovado o contrário, a fé do homem moderno na redenção pela ciência é irredutível!

É claro que todos esses avanços científicos trazem enormes benefícios à humanidade. Mas a mentalidade cientificista, supervalorizando a ciência ao ponto de uma crença religiosa, extrapola o limiar do bom senso. Que bem moral, imediato, por assim dizer, a Teoria das Cordas traz para a vida de um homem? E a Relatividade Geral? Por acaso alguém torna-se melhor por saber Cálculo Diferencial e Integral?

A ciência não pode ser comparada a qualquer tradição religiosa. Essas sim incitam o homem a praticar virtudes, a viver retamente e a buscar o bem comum. O papel da ciência está em outro âmbito, e sua função é, a grosso modo, trazer explicações para fenômenos observados no Universo, e não decretar dogmas como querem alguns. Assim, não é que a mecânica newtoniana esteja errada. Ela apenas funciona bem para alguns fenômenos. No mundo microscópico suas equações perdem validade e a Mecânica Quântica traz uma outra explicação, adequada a essa realidade. E assim é com toda teoria científica: não busca verdades, mas explicações que sejam verdadeiras e adequadas dentro de um contexto.

A busca da Verdade é papel da Filosofia. Uma das catástrofes do pensamento moderno é o fato de muitos cientistas assumirem o papel de filósofos, deixando de lado a busca da Verdade e dizendo bobagens inconcebíveis. Pascal e Leibniz devem pular em seus túmulos a cada sentença dogmática de um Dawkins. Se ele não acredita na liberdade humana e em outras verdades elementares, isso é um dogma para ele e seus fiéis, não para mim. Eu é que não vou fazer sacrifícios para a Deusa Razão, como queriam os iluministas, pois o grande problema disso é que a vítima a ser imolada é o bom senso.

4 comentários:

Alexandre M. F. Silva disse...

Se formos levar em conta as dificuldades da Teoria da Relatividade e da Mecânica Quântica, além das infindáveis reviravoltas das teorias cosmológicas, o que podemos dizer é que pelo menos a física dos séculos XX e XXI é antes um convite à humildade do que à arrogância.

Eduardo Araújo disse...

Concordo com o Alexandre. E acrescentaria que além das mencionadas dificuldades teóricas e das reviravoltas, há um bom volume de especulação na ciência que muitos, no afã de responder a tudo, tratam como verdade incontestável.

É o caso da própria teoria de universo inflacionário, da qual Hawking mostra-se adepto (pelo menos o faz no livro Uma Breve História do Tempo). Essa teoria tem no seu bojo uma idéia absurda de um universo físico reciclável e que segundo o cientista, no livro citado, dispensaria a noção de Deus! Pensem numa pretensão.

O que mais lastimo é uma sentença dessas vir de um cientista que sabe inexistir linhas de contorno que o permitam limitar toda a existência temporal e espacial para então concluir pela impossibilidade de existir Deus.

Infelizmente, Hawking e muitos outros cientistas e divulgadores de ciência (este os piores) rasgaram o convite à humildade e abraçaram alegremente a auto-exaltação e a arrogância.

R. B. Canônico disse...

Um amigo meu comentou que conhece um matemático brasileiro que chorou quando soube que Carl Sagan morreriam.

Talvez os católicos tenham o mesmo sentimento ao saber que o Papa esteja prestes a morrer.

Mas, duvido que algum cientista admitiria isso.

André Luís Brandão disse...

Tenho a impressão de que está cientificamente comprovado que a ciência não é capaz de provar que Deus não existe.