quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cemitérios já!

Um dos grandes desejos do homem moderno é abolir completamente a morte da sociedade. O exemplo máximo do absurdo a que isso pode chegar foi a proibição dos sepultamentos públicos na Holanda. Merece também menção honrosa a eliminação dos cemitérios humanos em San Francisco. Lá só existem cemitérios de animais de estimação e talvez de veteranos de guerra. Há um verdadeiro horror em lembrar, de alguma forma, a morte das pessoas com as quais convivemos. Talvez seja por isso que a nova moda seja a cremação, mas explico isso adiante.

Desde pequeno meu pai levava eu e meus irmãos ao cemitério para visitar os túmulos de alguns parentes, especialmente meu querido avô paterno. O fato de sair de casa e ir até o cemitério é uma demonstração inequívoca de amor. Ir lá, acender uma vela e rezar pelos meus antepassados, além de garantir uma sepultura digna a eles, bem cuidada, e com flores, mostra que veneramos a sua memória. E, acreditem ou não, a sociedade humana está baseada, em boa parte, na memória.

Uma diferença significativa entre o ser humano e os demais animais é que fazemos história e os bichos não. E a História é, basicamente, memória. Esta traz consigo a morte, inexoravelmente. Só existem heróis porque eles morrem, e assim não estão mais passíveis de erros. A morte é o único marco definitivo da vida humana, aquele que crava os atos da pessoa na história, sem retorno. Querer esquecer a morte daqueles que amamos é profunda falta de amor. Já esquecer a morte daqueles que admiramos é esquecer a própria humanidade.

E os cemitérios são o símbolo humano mais significativo para a morte. Ali o presente se encontra com o passado, por meio de nossas memórias: seja para venerar nossos heróis ou nossos amores que não voltam mais. Querem abolir os cemitérios por questões de saúde pública, dizem. Afinal, pode poluir os lençóis freáticos. Concordo. E por acaso, em nome da natureza, vamos abolir uma parcela significativa da memória da humanidade? A memória familiar depende, e muito, dos cemitérios. A memória nacional, por assim dizer, também. Funerais são marcos da civilização humana. Não podemos deixar um marco fundamental da sociedade humana e de várias religiões ser renegado dessa forma: cemitérios já!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os novos sacerdotes

Um amigo meu, astrônomo, estava comentando recentemente sobre um documentário chamado “O Universo de Stephen Hawking”. Não há dúvidas de que o conteúdo do mesmo, do ponto de vista científico, é impressionante. O que dá pena é a pretensão de alguns cientistas chegaram à alçada de verdadeiros deuses, quando muito poderão ser sacerdotes de uma velha nova religião, que coloca o homem e seu conhecimento no centro do universo.

Na mentalidade contemporânea, um ‘fato cientificamente comprovado’ é incontestável. Se for anunciado na televisão algo do tipo “cientistas descobrem que cafeína faz mal por isso, aquilo e assado”, no dia seguinte uma verdadeira multidão deixa de lado o seu cafezinho. Caso um outro grupo de pesquisadores descubra, no mês seguinte, que a cafeína é responsável por vários benefícios à saúde, nova legião de viciados em café surge. E vai alguém dizer que cafeína faz mal: “não faz não, é cientificamente comprovado”. Nem o fato de que na semana passada fosse cientificamente comprovado o contrário, a fé do homem moderno na redenção pela ciência é irredutível!

É claro que todos esses avanços científicos trazem enormes benefícios à humanidade. Mas a mentalidade cientificista, supervalorizando a ciência ao ponto de uma crença religiosa, extrapola o limiar do bom senso. Que bem moral, imediato, por assim dizer, a Teoria das Cordas traz para a vida de um homem? E a Relatividade Geral? Por acaso alguém torna-se melhor por saber Cálculo Diferencial e Integral?

A ciência não pode ser comparada a qualquer tradição religiosa. Essas sim incitam o homem a praticar virtudes, a viver retamente e a buscar o bem comum. O papel da ciência está em outro âmbito, e sua função é, a grosso modo, trazer explicações para fenômenos observados no Universo, e não decretar dogmas como querem alguns. Assim, não é que a mecânica newtoniana esteja errada. Ela apenas funciona bem para alguns fenômenos. No mundo microscópico suas equações perdem validade e a Mecânica Quântica traz uma outra explicação, adequada a essa realidade. E assim é com toda teoria científica: não busca verdades, mas explicações que sejam verdadeiras e adequadas dentro de um contexto.

A busca da Verdade é papel da Filosofia. Uma das catástrofes do pensamento moderno é o fato de muitos cientistas assumirem o papel de filósofos, deixando de lado a busca da Verdade e dizendo bobagens inconcebíveis. Pascal e Leibniz devem pular em seus túmulos a cada sentença dogmática de um Dawkins. Se ele não acredita na liberdade humana e em outras verdades elementares, isso é um dogma para ele e seus fiéis, não para mim. Eu é que não vou fazer sacrifícios para a Deusa Razão, como queriam os iluministas, pois o grande problema disso é que a vítima a ser imolada é o bom senso.