quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vivendo a vida seriamente

Recentemente adquiri a primeira edição da revista “Dicta & Contradicta”, que é excelente. Um dos ensaios mais marcantes para mim é a transcrição da última aula de Bruno Tolentino. Não pretendo comentá-la, mas há uma passagem em que Tolentino cita uma idéia sensacional de D. Giussani: as pessoas levam muitas coisas de suas vidas a sério, tais como trabalho, família, estudos... mas é hora de começarem a levar a vida a sério. Confesso que essa passagem causou uma perturbação em mim, e passei um tempo refletindo sobre o assunto.

O mundo moderno oferece muitas facilidades para a vida das pessoas, que acabam criando um ambiente de comodismo impressionante. O sofrimento chegou a ser abolido da mentalidade moderna – muito embora na prática esteja tão presente como nunca, e sempre estará. O homem contemporâneo possui umas poucas preocupações, muitas vezes relacionadas à dinheiro e satisfação pessoal. Assim, surge uma preocupação desordenada, em muitos casos, com o trabalho. Recente pesquisa mostrou que mais da metade dos executivos brasileiros bem-sucedidos são frustrados em suas famílias. E por quê? Ora, por dar mais atenção ao trabalho do que à esposa(o) e aos filhos. Então aparece aquele empresário muito bem-sucedido, no seu terceiro casamento, e que não vê metade dos filhos crescerem. É feliz? Não sei, tenho lá minhas dúvidas... Mas penso que ninguém duvida que essa situação está longe do que muitos almejam por felicidade.

Assim é também com aquele estudante que tem muito tempo para estudar. E ele está certo em parte, afinal poucas coisas são tão importantes quanto o estudo na vida da pessoa. Mas, calma lá!, não é devido aos estudos que a pessoa vai excluir de sua vida outros aspectos importantes. Logo, é complicado acreditar que um estudante não tenha tempo para visitar um hospital, ou para ser voluntário em algum trabalho social, até mesmo para visitar sua avó doente. A verdade é que é muito mais cômodo ficar fazendo um relatório em casa, e além disso sobra muito tempo para coisas que ele talvez julgue mais importante do que ajudar os outros, como ficar no MSN, dormir ou até mesmo tomar uma cerveja.

Qual o problema com os dois exemplos acima: por acaso é ruim ser um profissional sucedido ou um bom estudante – com boas notas? Não, muito pelo contrário: devemos almejar por levar nossas potencialidades ao máximo, todo aquele papo de ser o melhor que pudermos. Mas nossas vidas não se resumem – não devem resumir-se! – em estudar muito para conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro para depois poder ligar para a mãe e dizer: “olha, mamãe, comprei um carro 0 km!”. A vida não é apenas isso: precisamos de tempo para os amigos, para a família, para quem precisa, para refletir, para rezar... E aí entra a idéia de D. Giussani: não é questão de “ah, agora é a hora do bom profissional entrar em ação”. Então, chega o bem-sucedido empresário em casa, fica na chapelaria, e dá lugar ao “paizão de família, amado e que dá muito amor”. Depois, entra em cena o “amigão do Chopp”, presença certa nos happy-hours. Não dá! Viver assim seria abdicar de nossa própria identidade, e ser como atores: ora interpretamos um papel, ora outro. Por melhor que seja a “interpretação”, não haverá a coesão necessária, a unidade de vida. É como em um teatro mesmo: o ator, por melhor que interprete determinado papel, jamais será o próprio personagem.

Levar a sério a vida talvez seja deixar de lado esse teatro, essa artificialidade, esse egoísmo. Já não é mais tempo de ser bom profissional, bom pai, bom aluno, bom amigo. Essa ladainha cansou. Seremos bons em cada aspecto da vida se buscarmos o bem, ou mais ainda, o Bem. Aí sim a pessoa pode melhorar, crescer em virtude, ser melhor, com um crescimento integral, homogêneo. No fundo, é preciso assumir um grande risco: sair dessa bolha de comodidade e fazer um acordo com a vida. Ela nos garante a felicidade, desde que saibamos assumir os riscos – contrariedades e sofrimentos – que ela nos oferecer. Ou isso, ou ficar nessa mesmice entediante do bom isso, bom aquilo... e nunca chegar a ser bom de verdade, no máximo bom nissou ou naquilo, mas medíocre de um modo geral...

6 comentários:

Alexandre M. F. Silva disse...

Estive lendo estes dias a "Veritatis Splendor" de João Paulo II. No início há uma impressionante catequese sobre a passagem evangélica do jovem rico. Parece que, no fundo, toda esta encíclica é um apelo para fugir da mediocridade, e buscar a Cristo, em quem se esclarece o mistério do homem.

Alexandre M. F. Silva disse...

Existe um conto longo ou novela de Tchekov, muito relacionado com o tema deste artigo. Chama-se "Uma história enfadonha", que, apesar do titulo, de enfadonha não tem nada. Está no volume dos Contos de Tchekov da coleção "Os Imortais", editada há alguns anos pela Editora Abri, com o apoio da fábrica de papel Suzano.

R. B. Canônico disse...

Alexandre, curioso que dos grandes autores russos o unico que não li foi Tchekov!

Vou anotar a dica!

Andrea disse...

Exatamente, meu caro Rodolfo! Devemos buscar O Bem, e o resto é lucro! :)

Abraçoe e fica com Deus!

Daniel Souza disse...

Oi Rodolfo,

Texto excelente! Gostei muito.

Me lembrou o seguinte trecho:

Mateus Capítulo 16:
24 Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;
25 Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.
26 Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?

Abraços,

Daniel

PS: Vou tomar posse do texto para o VIDE. Okay?

Rodrigo disse...

Oi Rodolfo!
Gostei muito desse texto. Você fala a língua comum dos jovens e isso é muito necessário no apostolado diário e contínuo. Bem, citei também esse trecho e Giussani em um texto pequeno que acabo de publicar e também postar no blog. Esse trecho do fundador do CL está no livro "É possível viver assim?" que o pessoal do movimento está lendo nesse momento. Chega lá no "per fas et..." e dê sua contribuição. Gosto muito de seus comentários. Ah! Adquiri aqueles três pequenos livrinhos, mas transbordantes de sabedoria, de Escrivá...Belíssimos! Gostaria de indicações de livros dele sobre viver a fé no trabalho...Sei que teme xperiência nisso! Ajude-me!
Abraço e continue firme!