sexta-feira, 25 de julho de 2008

Syrinx

... the massive grey walls of the temples rise from the
Heart of every federation city. I have always been awed
By them, to think that every single facet of every life is
Regulated and directed from within! our books, our music,
Our work and play are all looked after by the benevolent
Wisdom of the priests...

We’ve taken care of everything
The words you hear the songs you sing
The pictures that give pleasure to your eyes
Its one for all and all for one
We work together common sons
Never need to wonder how or why

Alguns amigos meus relataram uma palestra assistida por eles e que usarei como base para fazer alguns comentários. A palestra foi proferida por um doutor em educação física, que trabalhou em um grande time de futebol; o doutoramento dele foi obtido em Moscou, em plena era soviética. É fato que os russos ainda são uma grande potência no esporte, e isso justifica a ida desse profissional à URSS. Alguns incidentes contados por ele, sobre lá, são impressionantes.

Não quero saturar o amigo leitor com fatos de amplo conhecimento, como por exemplo a distribuição de comida e a impressionante falta de variedade de produtos, sendo que todos consumiam as mesmas coisas, sem muita chance de escolha – repare que os russos circulavam de Lada por aí, e quem em sã consciência escolheria um Lada para dirigir? As escolhas, obviamente, eram feitas pelo Partido – afinal, em um mundo onde as liberdades dos cidadãos são restringidas em nome da Revolução, e no qual não há competição, que diferença faz você ter um ou dois pãezinhos, ora bolas... O mais interessante dessa palestra, pelo que me foi relatado, foi a experiência de dois acadêmicos soviéticos que tiveram a oportunidade de conhecer o Brasil devido à participação em um congresso.

O brasileiro quis então, após anos morando na URSS, mostrar aos colegas russos algumas coisas que não havia por lá. Estando em pleno Rio de Janeiro, levou-os a um supermercado; assim que chegaram lá, os soviéticos entraram em verdadeiro estado de choque, ou algo muito próximo disso. Ao ver as pessoas entrando e saindo, as cores, os produtos, eles não acreditavam nos próprios olhos: era um mundo diferente daquele em que viviam, na URSS. Logo o amigo brasileiro entrou, pegou um cesto para as compras e explicou-lhes que ali eles poderiam escolher os produtos que quisessem, sendo que o pagamento seria efetuado na saída. Imagino o choque dos russos, acostumados a simplesmente receberem do Estado sua ‘ração’: os brasileiros escolhiam o que queriam comer, eram livres para isso!

Tanto que, a certa altura, pegando os produtos na mão para escolher, ou talvez apenas para vê-los, um dos russos não pôde conter as lágrimas. Lágrimas de alguém que foi enganado pela máquina de propaganda soviética: afinal, como o ‘mundo capitalista’ poderia ser tão ruim, se as pessoas podiam escolher o que comer? Ele percebeu que em Moscou não era livre, pois a liberdade – em algo que muitas vezes consideramos banal, – causou-lhe esse choque.

O brasileiro, porém, quis mostrar que nem tudo era tão belo assim, e levou os colegas a uma favela. Eles, contudo, não ficaram tão chocados com o que viram; logo repararam em algumas antenas parabólicas e afirmaram que não estava tão mal assim, não. Curioso. Talvez tivessem descoberto o valor da liberdade e, mesmo na pobreza, reconheceram que possuir esse bem é muito precioso. Sei lá, ou talvez já tivessem visto mais miséria na URSS, não tanto material, mas espiritual, uma miséria interior. Quem sabe?

Look around this world we made
Equality our stock in trade
Come and join the brotherhood of man
Oh what a nice contented world
Let the banners be unfurled
Hold the red star proudly high in hand

Por acaso é bom que eu abra mão de minha liberdade de escolher, seja lá o que for, em nome de um suposto bem comum? Pois se eu quero jantar pizza ou arroz e feijão, a decisão é minha, dentro de minhas possibilidades. Do mesmo modo eu escolho onde vou morar, que roupa vestir, o que escutar, o que escrever aqui, ou o que ler; o que vou estudar... enfim, a partir do momento em que abrimos mão de uma dessas liberdades, e depois de outra, e depois de outra... para que alguém – o Estado – decida o que devemos fazer, ou então o que podemos fazer, em nome do suposto ‘bem comum’, entramos em um caminho que conduz, certamente, ao totalitarismo. Hayek comenta isso muito melhor do que eu, não tenham dúvida.

No mais, eu pego essa estrela vermelha que alguns erguem orgulhosamente e jogo no lixo. Aqui, pelo menos, eu posso fazer isso sem o risco de ir para algum campo de reeducação...

Let them all make their own music
(…)
Listen to my music
And hear what it can do
There’s something here as strong as life
I know that it will reach you

*****

Os versos que acompanham meu texto são de autoria de Neil Peart, líder da banda Rush e maior letrista da história do Rock. São pedaços da música '2112', que poderia muito bem ser chamada de '1984'.




8 comentários:

Alexandre M. F. Silva disse...

Rodolfo, é interessante o choque que provoca uma liberdade desconhecida, ou que se julgava impossível. Mas no nosso mundo ocidental e liberal existe também uma forma mais sutil de escravidão, a negação da possibilidade de se amar, de se entregar a um ideal maior, seja o casamento, o celibato pelo amor do Reino de Deus, a abertura à vida.

Pessoas que vivem o vazio e a solidão de nossa sociedade muitas vezes experimentam uma reação semelhante à desses dois russos, ao se defrontarem, por exemplo, com uma família cristã, numerosa e solidamente constituída.

R. B. Canônico disse...

Alexandre, concordo integralmente com seus comentários.

E o grande drama da nossa sociedade é que as pessoas privam-se da liberdade, em nome de uma suosta 'liberdade'. No fundo, é o egoísmo que leva a pessoa a uma grande infelicidade.

Rafael disse...

Grande Rodolfo,
Primeiro parabéns pelo blog!

A questão levantada pelo Alexandre pode ser solucianada ao desfazermos um engano comum nos dias de hoje que é opor liberalismo (liberal mesmo hehehe) e socialismo. Na realidade são ideologias irmãs, resultado do mesmo iluminismo.

E para desfazer esse engano acho que um dos caminhos é entendermos melhor o que é bem comum. Geralmente acham que essas ideologias são opostas só pq pra uma o bem comum está acima de tudo e pra outra a liberdade individual está acima de tudo, inclusive do bem comum. No entanto ambos têm a mesma idéia (deformada) de bem comum. Esse pseudo bem comum pode ser definido como "a simples soma dos bens particulares de cada sujeito do corpo social" (DSI: 164). Enquanto na realidade o bem comum é "o conjunto de condições da vida social que permitem, tanto aos grupos, como a cada um dos seus membros, atingir mais plena e facilmente a própria PERFEIÇÃO".

Esse bem comum sim está acima de qualquer "direito individual". Só assim evitaremos as barbáries comunistas e a loucura liberal.

Andrea disse...

Rodolfo, eu também já ouvi esta história! Pois é, os socialistas adoram encher a boca para falar em liberdade, mas todos aqueles que sabem o que é o socialismo na prática devem ficar com o pé atrás cada vez que ouvir esta palavra saída de boca de um “cumpanhêro”...afinal, Orwell nos adverte sobre os perigos da novilíngua, não é? ;)

Daniel Souza disse...

Muito bom Rodolfo. Gostei bastante.

Se você fosse jogador de futebol, eu ia querer comprar o seu passe. rsrsrs

Abraços,

Daniel Souza

Wagner disse...

Paz e bem! Neste mês de agosto estamos intercedendo pela conversão da cantora Ana Paula Valadão ao catolicismo. Ela tem se aproximado dos católicos e quebrado muitos paradigmas, especialmente no que diz respeito ao uso de imagens no cristianismo. Conheça nossa campanha de oração:

http://diasimdiatambem.wordpress.com/2008/08/02/pela-conversao-de-ana-paula-valadao/

Rodrigo disse...

Rodolfo!
Mais um humilde texto saiu sobre a continuidade e descontinuidade no Vaticano II. Postei o link no blog.
Abs

L. G. Dias disse...

Ótimo texto!

Acho que o grande erro do socialismo é eles se acharem parte da solução, e não parte do problema... Fora o ateísmo militante, outro absurdo... Acabam por destruir por completo os seres humanos... Ou o que sobrou deles.

Abraços!