segunda-feira, 9 de junho de 2008

Luzes obscuras

Cegos enxergando, paraplégicos andando, surdos ouvindo. Uma cena dessas poderia fazer parte de alguma imagem surreal ou então miraculosa, como é o caso dos Evangelhos. Mas não, segundo alguns faz parte da ciência e tornar-se-á ordinária em breve. Como? Com as células-tronco embrionárias – que agora podem ser destruídas “à la carte”, graças ao STF. Prodígio da ciência, não a atual, mas daquela que há de vir (como que se algo que não existisse pudesse ser considerado ciência). Uma espécie de Parusia, tão verdadeira quanto uma nota de três reais.

Impressionante que na véspera do julgamento houve quem ainda defendesse, em rede nacional, que embriões congelados há mais de três anos são inviáveis. Inviáveis para quê? Para implantar no útero é que não, pois há inúmeros casos nos quais o período de congelamento foi muito maior do que isso e houve o normal desenvolvimento da pessoa humana. Inclusive um caso recente, aqui no Brasil, de um garoto que, quando era embrião, ficou oito anos congelado. Mas está aí, vivo. E há quem acredite que isso seja impossível; há quem negue os fatos para defender pontos-de-vista absurdos. E isso é desonesto.

Mais tragicômico foi o urro de vitória dos laicistas. “Acusando” o ministro Direito de ser católico fervoroso (como se fosse um crime, ou algo medonho, ser católico), não cessaram de reafirmar a laicidade do Estado brasileiro, alegando que princípios religiosos são questões de foro íntimo. Ao contrário do fervorosíssimo (sic) ministro Direito e do Sub-Procurador Geral da República, Cláudio Fontelles, os Mellos (Celso e Marco Aurélio) fizeram uma vasta explanação, beirando à teologia, sobre o tema. Uma completa contradição: os acusados de serem religiosos (uso a palavra acusados para realçar o clima de perseguição que há contra os fiéis) pautaram seus argumentos em uma lógica essencialmente filosófica e antropológica, assentado no Direito Natural; os laicistas atacaram argumentos religiosos que sequer foram levantados na discussão. Em resumo: “discordamos de vocês, não vamos contra-argumentar, afinal há várias verdades. Mas, só para constar, detestamos a religião”. E isso foi noticiado como a vitória da esperança, da liberdade.

Esperança como a do garoto de oito ou nove anos, que após o julgamento perguntou ao pai: “Quando sai o remédio?”. Ele é portador de uma distrofia musuclar, doença incurável. O que dizer a esse garoto? Não saberia lidar com um engano de tal magnitude. Mas aos cientistas que estão propagando essas lendas, fica aqui a recordação. Há mais de setenta tratamentos viáveis com células-tronco no mundo, todos eles desenvolvido a partir de células adultas. Todos. Aí eu tenho motivos de esperança. Ao contrário, células embrionárias geraram, até o momento, zero tratamentos. Zero pode ser popularmente entendido como nada. E por que não citam os casos dos japoneses, pioneiros em pesquisa com uso de embriões, que simplesmente abandonaram as pesquisas com células-tronco embrionárias justamente pelo fato de as adultas serem verdadeiramente promissoras para desenvolver tratamentos? Essas omissões causam muita desconfiança em mim; pelo menos porque o debate foi propositadamente deixado de lado por muitas pessoas, em prol de um sentimentalismo e de uma fé cega em algo que não existe.

Enfim, o Brasil anda mesmo na contramão do mundo. Se as pesquisas de ponta com células-tronco embrionárias são abandonadas, aqui querem começá-las julgando que entramos para a vanguarda científica, quando estamos novamente décadas atrasados. E, justamente no ano em que comemoramos os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que é, sim, legado das grandes tradições religiosas por conterem valores perenes e universais), abrimos em nosso país um precedente contra a vida humana. A bem da verdade é que essa discussão toda apenas mostra que muita gente esqueceu o que é o ser humano, e o pior é que não se importam muito em saber exatamente do que se trata.

9 comentários:

Rodrigo disse...

É, meu amigo, e isso, como sabemos, é apenas o início do processo para a permissão do aborto no Brasil. Uma lástima. Em relação aos meus escritos: concordo com vc plenamente. A questão é que estou sem tempo, sem inspiração e envolvido com outros projetos de artigos e afins, além da tese, lógico, que não posso ter gastar esse tempo com o blog. Mas digo: quando publicar algo te aviso.
Abraço amigo,
Rodrigo

André Luís Brandão disse...

Rodolfo, meus parabéns por mais esta bela reflexão.

Meu comentário é a pergunta do garoto: "Quando vem o remédio?"

Esperemos pelo pior.

Chris disse...

Rodrigo

Ainda hoje pensei nisso quando estava estudando metaf�sica...
Uma das grandes qust�es metaf�sicas de Santo Agostinho foi a respeito da origem da alma. O engra�ado � que isso � o grande problema de hoje tamb�m, como no caso das c�lulas troncos.
Ele adota o geracionismo (teoria) Da qual a alma � engendrada pelos pais. Ele a defende justamente para n�o ir contra o dogma do pecado original.
H� ainda a teoria criacionista que defende a cria�o particular de cada alma por Deus. Aqui s� se encontra a dificuldade porque vai contra o dogma do pecado original.
Por�m o mais incr�vel disso tudo � pensar que depois de escracharem a metaf�sica no iluminismo em diante, seus problemas ainda est�o muito, mas muito em voga hoje!
Precisamos filosofar mais... E Rezar muito mais, meus amigo...
Adorei o texto! Parab�ns.

Christiane

Renata disse...

Ei rapaz ! Obrigado pelo recado incentivador. Também sou dessa filosofia da labuta, rss ... Mas é que ficamos meio chateados quando rola uma frustraçãozinha. Mas elas fazem parte, né ?! =)
Obrigada pelo comentário.
Seu post, como sempre, excelente.

Abraços,

Renata

www.perfasetpernefas.blogspot.com disse...

Ah R.B.!
Desisti de minha desistência!
Continuo a escrever no Perfas...Não consigo me segurar!
Apareça!
Abs,
Rodrigo

R. B. Canônico disse...

É Rodrigo, e pensar que o Ministro Marco Aurélio Mello já avisou que vai desengavetar a questão do aborto de anencéfalos, pois disse que agora o STF está 'maduro' para votar a questão.

Trocando em miúdos: ele tinha medo do veto ao aborto de anencéfalos, mas agora, após uma manobra de caráter duvidoso, julga conseguir aprovar a questão. Lamentável.

E, Chris, talvez o grande problema disso tudo esteja justamente na falta da busca da Verdade, pela filosofia. Quando esta deixa de cumprir seu papel, não serve mais para muita coisa, a não ser que seja usado como instrumento ideológico.

É o que vemos atualmente.

Andrea disse...

E sabe o que é pior? É quando a gente tenta mostrar aos outros os resultados das pesquisas científicas, quando tenta explicar que o que a grande mídia coloca não está correto e ainda assim não ouvem, não querem ver, só crêem no que falam por aí, sem embasamento algum. É triste! Que época difícil! Quanta gente burra, maldosa! Aff!

Desculpe o desabafo.

Abraço!

Anônimo disse...

Acredito que há um desentendimento em relação ao papel da Justiça. Tem-se a falsa idéia de que os Ministros devam se distanciar ao máximo de seus valores e de suas crenças, em favor de um suposto racionalismo e objetividade. O que dizem é: "Não me venham falar de obscuridades como 'valor da vida', pois estas não passam de manifestações de sua subjetividade. O que queremos é a imparcialidade dos juízes!". Aí está o engano: acreditar que a questão nada tem a ver com a preservação de valores. A questão não se esbarra em alguns valores de vez em quando. Não, ela é inteiramente axiológica.

O que dizem é que está havendo um confronto entre os valores morais e a ciência. Será? Dizem que está havendo um confronto entre o sentimentalismo e o fundamentalismo de alguns com o progresso da ciência e da técnica. Ora, mas que termos mais impróprios de se usar!

O que ouço falar é que a postura pró-vida está recheada de sentimentalismos. Como as promessas de curas milagrosas são diferentes? Prove-me, sem evocar princípio algum, que fazer um paraplégico andar é um bem. Quem disse? Pois eu acho que não há nesse mundo melhor professor do que a deficiência. Ela nos faz indagar sobre o que realmente é essencial, universal, e digno no ser humano. Que tesouro! Tentar eliminá-la certamente seria um grande engano. Que estupidez tentar concertar o que não está quebrado!

O mais apropriado, então, seria dizer que está havendo um confronto entre dois valores. De um lado temos o valor da vida, e de outro o valor... da saúde, talvez? Se o valor da vida pode ser questionado, por que não o da saúde? Talvez porque esse valor, manifestação da subjetividade, está sendo revestido (ou, para melhor dizer, disfarçado) de uma pretensa cientificidade e racionalidade.

A discussão verdadeira está em como deve ser harmonizado esses dois princípios que aparentemente estão em conflito. Agora sim, a questão está exposta de uma maneira que me parece muito mais técnica! Não sou especialista na área, mas acredito que o termo técnico seria antinomia. Se não for o caso, então é o que Eros Grau chama de antinomia jurídica imprópria. Qualquer que seja, é uma situação na qual o Direito já está familiarizado.

Bom, acredito que cheguei aonde queria chegar, mas darei um pequeno chute. O valor que tanto se briga para defender, a saúde, não é um princípio primário. Ele é uma derivação, uma conclusão, uma consequência de um valor maior, a qual está subordinado. E, ironicamente, esse valor é a vida. Sacrificar um bem mais geral por um mais particular me parece um equívoco. Em todo caso, estou aberto para mais discussões.

Ah, sim, claro, parabéns e obrigado Rodolfo pelo seu artigo! Deus te abençoe!

R. B. Canônico disse...

Caríssimo "Anônimo",

Seu comentário é muito precioso para a discussão, para os leitores do blog e para mim também. Devo parabeniza-lo pela lucidez e profundidade das palavras, com as quais concordo completamente.

A sua conclusão, sobre não poder sacrificar algo bom em função de outro pode ser entendida como os fins NÃO justificam os meios: e é exatamente assim que deve ser. O valor da vida humana é intrínseco à nossa natureza, e inviolável. O grande problema é que ess eprincípio está sendo jogado para escanteio, e como vc bem disse, por uma questão que beira o sentimentalismo.

O uso do jargão "científico" chega a irritar. É consenso, atualmente, no campo da filosofia da ciência de que a mesma apresenta explicações para fenômenos que podem ser satisfatórias no momento, mas podem ser suplantadas no futuro. Assim, a física newtoniana é conveniente para explicar movimentos físicos de corpos extensos, mas não tem validade no mundo subatômico. Não é que ela esteja errada, mas é limitada ao mundo macroscópico. Assim é a ciência: não apresenta verdades absolutas. Portanto, estão querendo dar à ciência um valor que ela não tem, e isso é muito perigoso. A busca pela verdade é parte, ai sim, da (boa) Filosofia.

E, quanto a sua reflexão sobre o sofrimento, eu concordo. Aliás, sou portador de doença auto-imune (retocolite ulcerativa) e passo por muitas dificuldades. Quanto já aprendi com isso tudo! Mas, o fato é que é humano, é natural que desejemos ardentemente ficar bem de saúde. Isso também não é mal. O que me deixa revoltado são os pretensos cientistas iludirem os doentes e suas famílias com promessas de cura iminente e certa, e isso é falta de caráter.

Caso queira entrar em contato comigo, e identificar-se, meu email é rodolfocanonico@gmail.com e seria um prazer trocar idéias!

Um grande abraço!