domingo, 22 de junho de 2008

Alguma Estética

Não tenho pretensão de tratar de Estética, mesmo porque não tenho conhecimento para tanto. Ocorre que recentemente tive algumas conversas interessantes com amigos, e refleti um pouco sobre uma questão em específico: o nu nas obras de arte. Tal assunto surgiu em decorrência de um festival de teatro que está sendo realizado em minha região, e comentaram que havia peças nas quais havia cenas de nudez e até mesmo sexo explícito. E alguns – não sem certa malícia – perguntaram a mim o que eu pensava sobre isso. Segue abaixo o desenvolvimento da resposta dada a eles.

O corpo humano é capaz de expressar os sentimentos de forma interessante. É comum encontrarmos um amigo e já perguntarmos: “o que houve com você?”. Isso porque conhecemos as feições daquela pessoa, e por meio desse expressar-se é possível captar o “estado de espírito” dela. Mas há uma parte do corpo que desempenha o papel essencial em nossa expressividade: o rosto. Em nossa memória podemos encontrar feições de alegria, tristeza, sofrimento, angústia... nossas experiências permitem o acúmulo também desse tipo de conhecimento – que é essencial nos relacionamentos. É inconcebível chegar a uma pessoa que visivelmente passa por um momento de dor – dessa dor que fica estampada no rosto da pessoa – e contar uma piada sobre, sei lá, o português da padaria. A necessidade de comunicar nossos sentimentos faz com que assumamos, involuntariamente, essas feições específicas para cada situação, sejam elas de dor ou de alegria.

Creio que seja senso comum a importância central do rosto na comunicação dos sentimentos. Imagine, por exemplo, alguém tentando expressar-se através de seu joelho, exclusivamente. Não existe um joelho característico para o sofrimento, outro para a alegria e outro para não sei mais o quê. Se fotografarmos o joelho de uma pessoa em um momento de alegria e, depois, em um dia triste, não será possível fazer uma distinção entre os sentimentos. Porém, com uma imagem do rosto da pessoa é muito fácil distinguir esses estados da alma.

Não que o rosto assuma um papel exclusivo em nossa capacidade de expressão; na verdade, ocupa um lugar de destaque. É inegável a importância das mãos, por exemplo, na comunicação. Qualquer pessoa que tenha a mínima noção sobre o modo adequado de falar em público sabe que a postura, inclusive das mãos, assume papel importantíssimo. Basta recordar as imagens de Hitler discursando: tanto seu tom de voz quanto seus movimentos de braços enérgicos foram fundamentais para causar a catarse que seus discursos tinham o poder de criar nas platéias. Assim, é possível dizer que o corpo é capaz de comunicar nossos sentimentos tanto quanto ou em complemento às palavras.

Na Arte também aparece toda essa expressividade do corpo humano. Quem nunca ouviu falar do sorriso da Mona Lisa? É no teatro, porém, que essa capacidade humana é explorada ao máximo. E um bom ator sabe usar cada movimento para transmitir emoções ao público. E aqui volto à questão do joelho: certas partes do corpo, em si, possuem um papel irrelevante na missão de expressar-se. Outras podem, por vezes, desvirtuar completamente o sentimento a ser demonstrado; este é o caso do nu mal colocado. A tendência de uma cena de nudez, seja em filmes, seja em teatro, é causar uma excitação em seus espectadores. Momentos como esse costumam ou ser irrelevantes na obra, ou então atrapalhar o andamento da mesma. Uma cena de amor pode perder sua transcendência caso avance para uma cena de sexo; aí acaba por haver excitação sexual, pura e simplesmente. E toda a riqueza da obra pode ser trocada por algo que se apresenta como apelativo, muitas vezes. Há realmente necessidade de falar em sexo explícito para descrever o amor humano? Buscando nos clássicos da literatura e do teatro a resposta parece ser um “não” contundente. A própria sexualidade humana vai muito além dessa genitalidade com a qual somos massacrados – inclusive nas escolas -; o nu acaba sendo uma forma de artistas medíocres expressarem (ou tentarem, pelo menos) aquilo que outros fizeram de modo mais profundo e menos apelativo.

Não prego aqui um puritanismo barato. É possível sim que um artista use de nudez de forma a não causar em seu público uma excitação sexual, apenas. O sublime teto da Capela Sistina, por exemplo, contém várias imagens com nudez, e é sem dúvida um dos locais onde a arte auxilia de modo espetacular a transcendência. O problema está no momento em que o artista não consegue expressar-se com palavras ou com imagens mais sutis, e aí precisa usar do recurso da nudez e conseqüente excitação sexual para “expressar-se”. O que para muitos é algo arrojado, fruto da liberdade de nossos tempos, para mim não passa, na maioria das vezes, de um recurso medíocre e apelativo.

6 comentários:

Ademilson R Ferreira disse...

Grande Rodolfo Canônico! Texto excelente! De fato, a arte de qualidade explora os sentimentos através de expressões mais nobres, utilizando o rosto, as mãos, a voz, os movimentos corporais, enfim, toda uma gama de recursos que provocam no espectador a bela sensação de relação com o artista e suas emoções. Concordo: menos mediocridade e apelação e mais profundidade e qualidade em todas formas de Arte! Forte abraço, até logo

Daniel Souza disse...

Ótimo texto Rodolfo!

Já foi devidamente escalado para o VIDE! rsrs

Rodrigo disse...

Assino embaixo?
Quer coisa mais tosca que um bando de peladões andando de bicicleta na Paulista em nome da arte? Essa pós-modernidade suicida e vazia usa simbolos sagrados e cheios de beleza ao avesso...o avesso do avesso do avesso....
Abração

Pastel de Vento disse...

Cara, parabéns!
Antes eu tinha dúvidas sobre este tema... Agora tudo faz sentido... E realmente... Triste realidade que vivemos, não são só as bancas de jornal que são açougues...

Andrea disse...

Ah, muito bem, meu caro! A nudez pode ser belíssima, o problema são os abusos desses artistas(artistas?) desesperados para aparecer.

Abraço!

Anônimo disse...

Para se transmitir as emoções do sexo não é exigido nenhum talento artistico, e se houver, não poderá ser avaliado - já que os animais irracionais o fazem muito bem.
É pra aparecer mesmo!!