quinta-feira, 29 de maio de 2008

Três Gê

É comum nos últimos anos encontrarmos termos como “era da informação”, “revolução da informação” e “acesso à informação”. O incrível avanço das comunicações desde o século XIX, com o telégrafo, é um fenômeno tecnológico que atinge proporções sociais gigantescas. Houve uma mudança radical no padrão de vida do homem médio de dois séculos para cá, e isso graças à tecnologia. Esse processo foi acelerado nas últimas décadas com o advento das comunicações móveis e a popularização da internet. Mas, como tudo isso se relaciona comigo? Agora tenho um blog, um celular... e é só isso?

Uma conseqüência muito importante do uso de todas essas tecnologias está na maneira com a qual nos comunicamos. Em primeiro lugar, muda-se a velocidade com a qual uma informação de alastra: desde a invenção do telégrafo, isso é feito de modo praticamente instantâneo, mesmo entre continentes distintos. Atualmente é possível comunicar-se com astronautas na Lua, se for necessário. O outro aspecto importante refere-se à facilidade em acessar essas informações todas: o Brasil possui dezenas de milhões de celulares e de computadores com acesso à internet. É muita gente acessando muita informação. Antes, uma notícia como um terremoto na China poderia demorar meses para chegar ao Brasil; agora, em segundos os brasileiros conhecem de perto o drama chinês. Há toda uma alteração na maneira com a qual nos comunicamos e buscamos conhecimento.

Mas toda essa informação tem seu aspecto negativo. As pessoas sabem que um panda cruzou com uma fêmea em um zoológico na Conchinchina, mas não sabem se a Arca era de Noé ou de Moisés (já esclareci essa dúvida a alguém). Sabemos o placar de todos os jogos da liga javanesa de handebol, mas deixamos Gustavo Corção cair no esquecimento. É como se conhecêssemos muito sobre nada. Um conhecimento amplo, quase “enciclopédico”, mas sobre coisas inúteis. Não é por acaso que a Wikipedia tornou-se referência para muitas pessoas. Ela talvez seja o reflexo do que falo, desse saber superficial, como um verniz. Se alguém chega e diz que aprendeu sobre determinado tema nessa enciclopédia livre, logo concluo que a pessoa não sabe muito do assunto. No máximo, tem uma idéia do que se trata – e acho que essa é a função da Wikipedia.

Claro que é bom ter um celular e poder ser avisado sobre qualquer emergência rapidamente. Mas tem horas que a vontade mesmo é de mantê-lo desligado. Também não acho muito útil ler nas notícias de última hora que um cara ficou preso no bueiro (isso é real), ou que o pneu do carro do Lula estourou. Mas futilidades como essas são todos os dias lançadas goela abaixo, pela mídia. Fora a desinformação canalha em muitos casos, como as mentiras propagadas sobre as células-tronco embrionárias. Tem muita gente “perita” no assunto por aí, com informação consolidada, e que mal sabe dizer o que é um embrião. De que vale um conhecimento assim?

Pior é que as comunicações – ainda mais com a era 3G dos celulares – muitas vezes afastam mais do que aproximam as pessoas. Há a possibilidade de eu conversar todo dia com um esquimó do Alaska, mas não saber o nome do filho do meu vizinho. Há quem se maravilhe com isso; eu não considero um avanço da comunicação, mas um retrocesso bizarro. É muito mais importante saber do problema do meu vizinho do que das contrariedades dos esquimós. Não que eu seja indiferente aos problemas polares, mas é que concretamente há um dever em preocupar-se com as pessoas mais próximas de nós. Aliás, é aqui que surge o patriotismo. Convém que não criemos uma bolha de relacionamentos, pois precisamos estar sensíveis à realidade das pessoas próximas a nós.

Todas essas maravilhas tecnológicas já mudaram bastante o mundo, e tem potencial para mudar muito mais. Como estudante de engenharia afirmo, com segurança, que estamos ainda em uma era de transição, e que muitas aplicações fantásticas estão por surgir. É inevitável que a forma com a qual as pessoas se relacionam ainda modificar-se-á de modo intenso, mas que isso não seja pretexto para destruir relacionamentos tão preciosos como a amizade e a família. É importantíssimo que a próxima etapa de toda essa revolução seja que o mundo virtual torne-se cada vez mais real: que os amigos sejam amigos como sempre foram e os esposos casados como em qualquer casamento nos últimos milênios. Que sejam relacionamentos reais, e não meramente virtuais.

6 comentários:

disse...

Oi amigo,
Post excelente, como sempre !!
Obrigado pela visita, vou linkar seu Blog lá no meu !

Até mais !

Andrea disse...

Olha Rodolfo, você tocou num ponto importante. Toda essa parafernália tecnológica não nos comunica o que é mais importante: A Transcendência. As coisas de Deus estão distantes da mente do homem moderno.

Podemos fazer bom uso dessas tecnologias, afinal ela não é má em si. O problema é que há muita quantidade e pouca qualidade, em tudo, nos dias de hoje.

Abraço!

R. B. Canônico disse...

Andrea, muito bem lembrado. O homem tende a achar-se auto-suficiente com a tecnologia, e isso faz com que muitos pensem que não há necessidade de algo transcedente. Deixa o cara ficar doente pra valer para ver se um Blackberry vai ajudar ele a ficar bem.

No mais, como complemento do meu texto, há uma dimensão humana fundamental: uma vídeo chamada de celular jamais vai substituir um abraço. Aliás, nenhuma parafernália tecnológica vai.

André Luís Brandão disse...

Muito providencial esse texto Rodolfo!
Sábado estava no barbeiro e, como de costume, sempre levo um livro pra esperar a minha vez.

Quando fui cortar o cabelo deixei o livro sobre o banco e um rapaz - muito curioso por sinal - começou a folhear o livro - As Confissões de Santo Agostinho - e perguntou ao barbeiro: "-É você que está lendo?"

O barbeiro - fazendo cara de desprezo - respondeu: "- Eu é que não perco meu tempo com isso. Prefiro assistir TV."

E o Brasil continua não sabendo ler...

Chris disse...

Rodolfo

Muito bom seu texto!Adorei. Como sempre você está de parabéns!

Devemos também ter cuidado para não fazer também o oposto e só ficar preso na tecnologia e esquecer o "humano", muitos com o intuito de fazer "apostolado virtual" acaba-se esquecendo do vizinho e de todos aqueles que vivem e estão ao nosso redor....Foi até o que disse nada substitui um abraço!

André Luis- Morri de rir com seu comentário também...

Andréa concordo tb com o que disse... Vivemos na era da eficiência, porém não pensamos na qualidade e sim na quantidade...

Abraço à todos! parbéns Rodolfo!

Chris

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Oi, RÔ!

Gostei do texto porque ele fala do que todo mundo sabe, mas finge não ver.

Estes dias na aula de Literatura Infantil, minha Professora dizia sobre a importância do silêncio interior e exterior para entedermos mais sobre o que lemos, vivemos, sentimos. Ela falou sobre como o homem hoje está sempre fazendo milhões de coisas ao mesmo tempo. Até citou o fato dos casais fazerem amor sem estarem concentrados naquilo (pensando em quanto fazem no que tem que pagar, na hora que tem que levantar amanhã...)E ela não mentiu em nada. A gente tá "vivendo sem viver".

Aí ela usou um exemplo que me deixou mto feliz. Ela disse: "Eu não sou Cristã, mas quando a gente vai fazer alguma coisa, temos que ser como os católicos na hora da consagração na Missa. Eles param tudo e olham para Hóstia Consagrada. A mesma atração que eles sentem por ela vocês devem sentir por tudo o que fazem, dedicando-se inteiramente por aquilo".

Fantástico, não?