terça-feira, 13 de maio de 2008

O segredo do Pe. Brown

A ocorrência de crimes bárbaros é razoavelmente freqüente. Dentre os casos recentes e chocantes há o assassinato da menina Isabela Nardoni e aquele austríaco, provavelmente maluco, Josef Frtizl. Nota-se que a população fica terrivelmente chocada diante de atos tão vis como esses, o que é indicativo de que ainda há uma sensibilidade quanto aos direitos humanos e, indo mais além, quanto ao que é certo e errado. Vemos os autores de crimes como esses sofrerem ameaças até de linchamento, mostrando uma recusa da sociedade em assimilar indivíduos com comportamento tão intolerável. Mas o que leva uma pessoa a cometer atrocidades como essa?

O Pe. Brown, uma das ilustres criações de Chesterton, comenta que o seu segredo para desvendar os crimes é saber-se capaz de cometê-los. A princípio tal afirmação pode parecer superficial, afinal esse personagem é protagonista de contos policiais, que não costumam fazer uma análise muito profunda de seus personagens. Porém está cheia da compreensão cristã sobre o mal. Pe. Brown sabe que possui uma inclinação para o mal e que é preciso um esforço para fazer o bem.

Essa concepção é radicalmente contrária ao bom selvagem de Rousseau. Aliás, a maneira como o filósofo educou seus filhos demonstra claramente que ele não compreendia muito bem a formação do caráter humano. O bom selvagem americano, por exemplo, jamais existiu: perdura até hoje o infanticídio entre algumas etnias indígenas no Brasil. Não que deva ser admitido o outro extremo, que o homem é intrinsecamente mau. O fato é que há uma desordem na natureza humana e isso leva a uma dificuldade do homem em escolher o fim para o qual orienta os seus atos. Essa é a concepção adotada pelo cristianismo e que, a meu ver, explica com mais propriedade o mal no mundo.

Não é difícil verificar que em momentos de descontrole agimos como não gostaríamos. É justamente aí que fica claro o quanto é fácil agir mal e que é preciso esforço para praticar atos bons. O perdão, que é algo profundamente humano, requer muitas vezes essa grande vitória sobre nossas piores inclinações. Vencer o orgulho, a cólera e os demais vícios não é tarefa simples. É necessário praticar as virtudes humanas, assunto em baixa em tempos de “liberar geral” para “curtir a vida”.

Reconhecer essa desordem em nossas inclinações não é assumir uma postura pessimista sobre o ser humano. Muito pelo contrário, é o caminho mais seguro para um conhecimento próprio e para um aperfeiçoamento da pessoa através do desenvolvimento das virtudes humanas. Pe. Brown não cometeu nenhum crime pelo fato de saber-se capaz de realizá-los e lutar contra suas más inclinações.

4 comentários:

Ren disse...

Gostei muito do texto. Todo cristão não deve temer enfrentar o seu "Lado B", afinal se focamos a Cristo, Ele apara e remodela ambos os lados.

Andrea disse...

Exatamente, Rodolfo! O Pe. Brown é sábio quando percebe que pode errar, que pode cometer crimes. Hoje os homens vivem por aí confiantes ou querendo confiar em si mesmos como se fossem criaturas puras, livres de toda influência maléfica. Mais um engano de nossa modernidade viciada no relativismo e na falta de fé em Deus verdadeiro (tem gente por aí que tem fé em um deus energia, cósmico, etc).

Li o primeiro desta série do Chesterton, “A Inocência do Pe. Brown” e comecei a ler “A Sabedoria do Pe. Brown”, mas ainda não terminei, volto a ler depois. São muito bons mesmo!

Abraço!

Rodrigo disse...

Olá amigo!
Ando tão sem tempo, por isso minha pequena presença aqui nos seus posts.
Bem, vejo a teoria do bom selvagem de Rousseau como um dos grandes males que nos aconteceram: retirou do homem sua responsabilidade pessoal frente aos seus atos e, além do mais, instalou o orgulho frente a humildade e busca de santificação.
Livro bom sobre o tema é o chamado "Democracia e liderança", de Irving Babbit

disse...

Poxa ! Seu blog é muito legal.
Você é muito inteligente ! Parabéns =)

Abraços.