sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Estado educador

Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação. Sendo as famílias a célula básica da sociedade, uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos. Ainda mais no contexto moderno, no qual o trabalho profissional muitas vezes exige dos pais um razoável distanciamento do lar.

O problema é quando o Estado pretende ir além do auxílio devido às famílias e passa a querer agir como formador principal das pessoas. Esse procedimento foi muito comum nos Estados totalitários, no século XX. A formação dos jovens era dada pelo Estado com o intuito de assegurar sua doutrinação de modo totalmente alheio ao interesse familiar. Desse modo, uma família de crentes teria muita dificuldade de transmitir a fé a seus filhos, posto que os colégios do Estado ensinavam justamente o contrário. Isso explica, em parte, a enorme proporção de ateus nos países que foram comunistas. A liberdade dos pais na educação dos filhos foi completamente destruída.

Em nosso Brasil, apesar da solidez de muitas instituições democráticas, há alguns aspectos que merecem atenção. O primeiro é com relação à falta de liberdade que os pais possuem para educar seus filhos. Não é possível, por exemplo, que uma família eduque completamente seus próprios filhos – sistema chamado “homeschooling”, inexistente por aqui. Não venho aqui defender tal método, o qual não analisei com profundidade, mas questiono a sua inexistência por aqui.

Sendo mais específico, preocupa-me muitíssimo, por exemplo, a tal “educação sexual” oferecida nas escolas por aí. Recentemente o assunto foi tratado de forma terrivelmente banal com a idéia de máquinas de distribuição de camisinhas nas escolas, similares às de refrigerantes. Isso para crianças de 13 anos. Se há quem ache que pessoas de 13 anos podem sair por aí mantendo relações sexuais, possuindo maturidade suficiente para relação tão íntima, tudo bem. As pessoas possuem liberdade para acreditar no que quiserem, por mais imbecil que seja a idéia. Com 13 anos, eu jogava futebol todos os dias e brincava de polícia-e-ladrão, atividades nada condizentes com alguém que pode vir a ser um pai (fato incluso para alguém com vida sexual ativa). Mas aí çequissólogos brilhantes “matam a charada”: com a máquina de camisinha as crianças mantém a relação sexual, mas não haverá geração de filhos. E há quem considere essa solução brilhante. Repito: se essas crianças possuem maturidade para relações sexuais, por que então não possuem maturidade para maternidade/paternidade? Afinal, um fato é conseqüência do outro. Ah, se as pessoas fossem coerentes...

E os pais que não quiserem submeter seus filhos a esse tipo de “aprendizagem” e não possuem dinheiro para pagar um bom colégio particular, desses que ensinam valores, o que irão fazer? Na verdade, eles não possuem saída, e terão que ensinar o contrário do que o Estado quer ensinar. A questão é que mais de 90% dos brasileiros dizem-se cristãos, e a moral cristã é clara com relação à relação sexual: é digna e santa, e possui seu lugar próprio dentro do matrimônio. A partir do momento que o Estado interfere em questões morais de foro íntimo, fere ou pelo menos dificulta a liberdade das famílias em transmitir os valores que achar convenientes para seus filhos.

Essa educação sexual centrada em métodos contraceptivos, “planejamento” familiar e apologia ao “sexo livre” é perniciosa, e agride frontalmente valores que muitas famílias professam. Além do mais, há outros absurdos que já foram ou ainda são ensinados na rede pública. Por exemplo, aquele livro denunciado recentemente por Ali Kamel por fazer apologia ao comunismo. Havia até o descalabro de dizer que o “Grande Salto para a Frente” ter sido algo positivo para a China – omitindo as 40 milhões de mortes por fome neste incidente. Ou então o que poderíamos chamar de “educação física com Marx”, no Paraná. Isso até me faz lembrar o futebol filosófico, de Monty Python, no hilário momento “Karl Marx no aquecimento”. Só que isso perde a graça ao saber que crianças estão sendo doutrinadas em plena aula de educação física!

Enfim, o Estado não pode querer ocupar o lugar dos pais na educação dos filhos, antes deve ser um sadio colaborador. É, portanto, necessário que os pais estejam atentos ao que seus filhos aprendem nas escolas, de modo a corrigir os absurdos ensinados por lá. E muitas vezes uma pressão pode funcionar: o livro denunciado por Ali Kamel foi retirado das escolas. Ainda há tempo para agir aqui no Brasil.

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Consulta interessante sobre homeschooling:http://apache.camara.gov.br/portal/arquivos/Camara/internet/publicacoes/estnottec/pdf/100157.pdf

7 comentários:

André Luís Brandão disse...

Belo texto Rodolfo!
Interessante como os governantes pensam que todo mundo é idiota.

Querem incutir em nossas cabeças a idéia de que os jovens não têm estrutura para serem pais e mães, mas tem toda estrutura para a relação sexual e para, no caso de uma gravidez indesejada, cometerem um aborto com a ajuda do governo.

Aliás o aborto é um sinal claro de que o governo sabe quem tem que destruir para obter seus "êxitos educacionais": a família.

Andrea disse...

Exatamente, a educação dos filhos deve ser responsabilidade dos pais, da família e não uma obrigação do Estado. É problemático como vemos cada vez mais o Estado se imiscuindo na vida dos cidadãos. Olha, estou lendo um livro muito interessante da graqnde historiadora Régine Pernoud. Chama-se “As origens da Burguesia”. Comprei no sebo, na Estante Virtual. O livro trata um pouco dessa questão de como o Estado foi ficando forte a partir do desenvolvimento da burguesia e como isso foi se enfraquecendo o poder espiritual e da família.

Estamos vivendo uma época de plena decadência, em todas as áreas. E o pior é que quem tem filhos não pode nem mesmo ensiná-los em casa (homeschooling).

Abraço!

+Casal+ disse...

Belo texto...

A escola hoje em dia tem sido um instrumento mantenedor da ideologia vigente.... Uma pena.
Agora nós católicos devemos sim, cuidar para que nossos filhos tenham uma boa educação a nível de conteúdo, mas o mais importante é ensiná-los à amar à Deus.

Chris

R. B. Canônico disse...

O link exato para o texto sobre homeschollin no Brasil é: http://apache.camara.gov.br/portal/arquivos/Camara/internet/publicacoes/estnottec/pdf/100157.pdf

No texto acabou saindo não muito bem.

André: sem dúvida, a família é o grande alvo dos que querem, de algum modo, 'revolucionar' a sociedade; a saber, desruí-la em sua base mais cara.

Andrea: Regine Pernoud é realmente excelente. Eu sou a favor da possibilidade do homeschooling, mas não usaria tal método com meus filhos não. De todo modo, no Brasi há um caso emblemático: o grande poeta Bruno Tolentino foi educado por preceptoras, em casa - obviamente ele era de família rica - e enquanto vivo foi uma das mais brilhantes mentes brasileiras.

Casal e demais: penso que iniciativas de pais, buscando fundar colégios que além de um nível de ensino bom ofereçam valores às crianças, são louváveis. Já há vários colégios assim no Brasil, que ensinam virtudes, e que haja muitos mais!

Um bom exemplo de colégio, aliás, é o São Bento, no Rio.

Emanuel Jr. disse...

Rodolfo, como sempre muito bom o seu texto. Isso já virou jargão. Vamos então a outra questão: sugiro que você escreva um puco sobre a homeschooling, já que é uma método que sempre tive em mente como excepcional para pais que se interessam pela educação dos filhos mas que nunca me apronfundei nesse tema. Outro motivo é que, pelo que vejo, não sou só eu que tenho interesse nesse tema e concordo com esse sistema.

R. B. Canônico disse...

Emanuel, primeiramente agradeço o comentário.

No momento não tenho condições de escrever algo consistente sobre homeschooling, por isso apenas usei tal método como um exemplo em meu texto. O link que eu postei é uma consulta intenressantíssima sobre o tema no Brasil.

Mas, a impressão que tenho é que homeschooling é coisa para famílias com mais condições financeiras. Vide o caso de Bruno Tolentino, um excepcional poeta e intelectual brilhante, educada por preceptoras em casa. Mas, uma questão que me vem: não seria pior para a criança ter uma menor convivência com os demais? Gostaria de investigar isso.

No mais, o que sou totalmente favorável e ai conheço um pouco é a educação com separação dos sexos, a partir de certa idade. Do ponto de vista pedagógico, há muitas vantagens. No site www.portaldafamilia.org há algo sobre, e recomendo a vc a leitura, afinal vc é pai!

Um grande abraço!

Emanuel Jr. disse...

Rodolfo, justamente por ser pai é que isso me interessa tanto, afinal além do que, já tenho vem vindo outro(a) ai.

Mas a questão do homeshooling é a seguinte: existe, a meu ver, um lado ruim que é a desconexão da criança com a sociedade, podendo torná-la antisocial em alguns casos pela falta de contato direto com outras crianças. Por outro lado, vejo essa concepção como mau menor frente ao que pode acontecer quando em contato com certos professores e teses as quais ainda não as considero preparadas para rebater e, por isso, simplesmente aceitam. O caso dos da maioria dos professores de história de viés marxista é o que mais me assusta.

Claro que aqui estamos no campo das possibilidades já que posso até ser processado por abandono intelectual se eu resolver educar meu filho em casa. Ele pode ser a pessoa mais culta e socialmente adequada mas, o fato de não ir para uma escola regular me fará um criminoso. Não questiono a atual posição do do Estado, questiono a atual posição do ensino que nos leva a crer que é melhor uma criança com um círculo social mais restrito e correndo o risco de se tornar mais fechada para relações sociais do que enviá-la para um mundo sem fronteiras em que sua formação e valores fujam do controle dos pais.