terça-feira, 1 de abril de 2008

O paradoxo da globalização

O homem possui uma tendência interessante, intrínseca à própria natureza humana: a capacidade, ou melhor, a necessidade de viver em sociedade. Desde os primórdios da história humana o homem viveu em grupos, sempre organizados de uma forma ou outra. Com o tempo, essas organizações passaram a ser muito complexas, ocasionando o surgimento dos Estados. Historicamente, com o advento dos Estados Nacionais, os Estados passaram a ser instituições de países cuja população constituía nações, ou seja, grupo humano com as mesmas características étnicas e culturais. Falo de franceses, italianos, alemães e afins. E, efeito curioso, há uma tendência nas pessoas em valorizar o que é seu – ou consideram seu – em detrimento do que é alheio.

Assim, um brasileiro costuma ficar louco da vida quando uma empresa estrangeira vem e toma o lugar no mercado de alguma empresa nacional. Não importa que os estrangeiros sejam mais competitivos, muitos brasileiros, movidos por um tolo sentimento nacionalista, simplesmente tomam partido da empresa brasileira pelo fato de ser brasileira. Não discutirei aqui o erro do nacionalismo, mas este é originado por um sentimento “a priori” muito positivo: o amor pelo próximo. É verdade que o nacionalismo é um amor desordenado, mas o patriotismo é um sentimento bom e deve ser cultivado. É natural que eu veja mais traços em comum com um brasileiro do que com um moçambicano, por exemplo. Seja por fatores étnicos, seja por fatores culturais.

Atualmente, com a globalização, há os que querem acabar com as fronteiras para criar uma nova humanidade, mais fraterna, justa, e sei lá mais o quê. Não faço idéia se isso vai acontecer mesmo, ou se é apenas mais um delírio. O fato é que muitas fronteiras econômicas têm ruído, vejam o caso da União Européia. Mas, ao invés de haver um movimento também no sentido de acabar com as fronteiras dos Estados Nacionais, partindo para um governo único, há na Europa um movimento em sentido contrário: há, cada vez mais, uma forte tendência à fragmentação política! Os separatismos estão mais ativos do que nunca, talvez movidos por uma segurança assegurada pela integração econômica do continente europeu. Isso é um paradoxo.

Casos famosos são o separatismo dos bascos em relação à Espanha, por exemplo, e dos irlandeses do norte em relação ao Reino Unido (mesmo com a recente deposição de armas do IRA). Há o caso mais recente de separatismo na Bélgica: o pessoal da região de Flandres quer separar-se da região da Valônia. Até a língua falada em cada região é diferente (francês e holandês). Posso citar ainda a recente proclamação de independência de Kosovo. A velha tendência humana de agrupar-se com seus semelhantes mais próximos volta à tona, com toda a força. Em todos esses casos é muito comum o apoio massivo da população pelas causas nacionais.

Seria, portanto, essa tendência um movimento “reacionário” e nocivo à globalização? Seria essa última a grande saída para a humanidade, buscando uma integração cada vez maior buscando uma grande unidade entre as nações? Tenho a impressão de que esse dito movimento global, antes de ser uma natural comportamento humana, é uma imposição tremendamente artificial. A tendência humana de agregar-se a pessoas com características mais próximas parece ser muito forte e, até agora, a globalização não conseguiu vencer esse fenômeno. E isso não me parece de todo mal.

***

Não faço aqui apologia a nenhum nacionalismo estúpido, tampouco farei desse "globalismo" maluco. Ambas os posicionamentos acabam causando derramamento de sangue em muito lugar por aí. Novamente, reforço: um sadio patriotismo - que o brasileiro, em geral, não possui - pode ser uma excelente saída a esse paradoxo.

3 comentários:

Andrea disse...

Muito bom seu texto. Vejo que não adianta forçar a barra para o globalismo, pois há povos que querem manter sua cultura, preservar o que lhes resta, a memória de seus antepassados, suas conquistas linguísticas, artísticas, políticas...Não gosto desse movimento que quer abrir as fronteiras, já que isso acontece sempre às custas da perda de identidade dos povos. A Europa hoje é o quê? O que é a França? A Inglaterra ainda se mantém de pé porque não matou sua rainha...esquecer suas raízes, abrir mão do que há de melhor em sua cultura só vai enfraquecer o povo. E nacionalismo é uma bobagem, bom é a gente defender o que é certo e a maior prova de amor por um país é fazer a crítica necessária e buscar melhorar o que pode ser melhorado, pensando na vida da gente agora e nas gerações que virão.

Abraço!

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Ro,

Sinto mto, mas vc está se formando no curso errado. Larga tudo e vai tirar teu diploma em Filosofia, Ciências Sociais...
Adoro esta visão que tens de mundo. Não sabia que mexer em fios e cabos davam tanta asabedoria =D

É... uns querem separar, outros unir, mas também não sei ainda qual é a saída. Acho que nem eles. Quem sabe se começassem a cuidar dos bens essenciais de cada cidadão, fazendo cada um a sua parte, a gente nem precise pensar numa solução pra isso, mas ela, por causa da atitude de cada um em prol do outro, acabe acontecendo?

Pax =)

André Luís Brandão disse...

Penso que a globalização será um progresso se respeitar os povos, suas culturas, seus valores e sua história. Esses são os maiores bens que um povo pode possuir e não deve ser barganhado.

Sobre o patriotismo, deixo um pensamento de São Josemaria Escrivá, retirado do livro Sulco: "Ama a tua pátria: o patriotismo é uma virtude cristã. Mas se o patriotismo se converte num nacionalismo que leva a encarar com frieza, com desprezo - sem caridade cristã nem justiça -, outros povos, outras nações, é um pecado."

Não devemos nunca, nos esquecer que atravessando a fronteira encontraremos povos muitos diferentes, mas que em sua essencia são semelhantes a nós

Obrigado Rodolfo, por mais este belo texto!