domingo, 9 de março de 2008

Uma questão de princípios

Para podermos viver normalmente é necessário que assumamos a existência de uma série de princípios. Eles são como que impostos pela realidade, de modo que cabe a nós identificá-los e assumi-los como verdadeiros. O grande empecilho para o homem moderno compreender isso é a mentalidade relativista, que prega a inexistência os mesmos. Esses seriam, na verdade, meras convenções, diferentes aqui ou ali. Assim, por exemplo, se em um país a vida humana é reconhecida desde a sua concepção e em outro apenas a partir do terceiro mês da gestação, isso não teria problema algum. Mas será que as coisas são assim mesmo?

Se eu pego uma pedra e atiro para cima, necessariamente ela cairá. Caso queira viver acreditando o contrário disso, estaria alienando-me da realidade. Também acredito que, nesse momento, é melhor viver do que morrer, e assumo isso como princípio. Caso contrário, o suicídio seria inevitável. Outro: sei que não vivemos um sonho, que esse mundo é real, e não uma espécie de “Matrix”. Temos como provar isso, científica ou filosoficamente? Não. Mas assumimos como princípio, ou então teríamos uma existência inútil. Negar alguns desses princípios pode tornar simplesmente inviável a própria existência ou então o convívio humano – além de ser um delírio.

O problema é que vivemos em uma época meio maluca. Querem que tudo seja uma mera questão de convenções. Dessa forma, se eu caso e constituo uma família, é por convenção social; se sou educado pela minha família, e não pelo vizinho, isso é uma questão de convenção. Se eu acredito em Deus e tenho uma religião é porque, além de “supersticioso”, eu aceito as convenções impostas pela sociedade. Claro que esse pensamento soa estranho ao considerar sacrifícios humanos: caso eles sejam mera convenção social, como poderíamos julgar a civilização asteca? Sob esta perspectiva, os sacrifícios humanos seriam plenamente legítimos, desde que inseridos em determinado contexto histórico-social. E aí nota-se a que ponto a loucura relativista pode chegar.

O respeito à dignidade da pessoa humana jamais pode ser encarado como uma mera convenção social, mas sim assumido como um princípio. Ou então vamos aceitar sacrifícios humanos como uma legítima manifestação cultural? Essa é a importância de assumir a existência de princípios: assegurar a dignidade da pessoa humana e o convívio social. E, nesses tempos confusos, colocar em evidência determinados princípios é como iluminar uma sociedade que quer colocar-se em meio a trevas – em nome de uma suposta “liberdade” e de um certo “progresso”.

***

Assim, é fundamental saber que o direito à propriedade é necessário para a manutenção da liberdade individual; que o homem deve ter sua consciência respeitada em plenitude; que o Estado deve atuar apenas onde o indivíduo não é capaz de chegar; que a vida humana deve ter sua dignidade respeitada em todas as suas fases. Esses são exemplos de princípios que, caso sejam negados, acabam desembocando inevitavelmente no totalitarismo. E a história tem vários exemplos desse fenômeno, representado especialmente por nazismo e comunismo.

5 comentários:

Ecclesiae Dei disse...

O pior é que muitos desses "maus" exemplos hoje são aplaudidos... realmente é uma época meio maluca que vivemos... é triste que a sociedade não perceba que a cada dia, atira mais pedras para cima, e que vão cair sobre ela...

lpereira disse...

Caríssimo,

Recomendo o artigo de um amigo:
http://www.ige.unicamp.br/pangeo/2008/primeira-edicao/etica-e-relativismo-cultural/

que tem muito a ver com o que você escreveu, aliás, excelente.

Abraço!

Evelyn Mayer de Almeida disse...

O tal do princípio... da liberdade...

onde é que os "progressistas", "racionalistas" e todos os "istas" de plantão foram colocar, né?

Excelente texto!!

R. B. Canônico disse...

Agradeço aos comentários.

E, Luis, muito orbigado pelo link do texto. De fato, o autor trata do mesma tema, mas dicrodo da abordagem dele. Ele não toco no ponto essencial, que é a existencia de verdades absolutas, que implicam o reconhecimento de princípios universais. Ele analisa apenas o absurdo do relativismo, mas não aponta a solução.

Mesmo assim, ótimo texto.

Andrea disse...

Muito bom esse texto! Vivemos tempos tão loucos, que sinto mesmo que estou nadando contra a corrente...pois é, a corrente que está aí quer nos arrastar para abismo, com todo esse relativismo e outros "ismos" imbecilizantes.

Abraço!