domingo, 16 de março de 2008

A Idade das Mulheres

Muito se diz por aí sobre a Idade Média, mas pouco do que é falado coincide com a realidade. O próprio termo “Idade Média” remonta ao período do Iluminismo, e carrega consigo uma boa dose de preconceito. Seriam mil anos entre duas eras consideradas “clássicas” – a Antiguidade e o Renascimento -, e nada mais do que isso. Essa postura explicita claramente o desprezo pelo período. E um dos ataques mais freqüentes diz respeito a uma suposta submissão das mulheres nessa época.

É evidente que ataques ao medievo têm por alvo, na verdade, a Igreja e seu “machismo” – outra invenção. Mas alguns fatos contam mais do que muitos argumentos, portanto vamos a eles. A verdade é que durante a Idade Média algumas mulheres alcançaram posições de liderança e influência jamais imaginada por qualquer uma dessas feministas contemporâneas.

Santa Hildegard, que viveu no século XII, possuía grande prestígio entre diversas autoridades. Escrevia a Papas e Bispos em termos muito duros. Chegou a manter correspondência, inclusive, com os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico Conrado III e Frederico Barbaruiva. Poucas mulheres hoje, que não ocupem algum cargo de autoridade, têm liberdade para tanto. Além disso, ela é autora do manual de medicina que vigorou durante todo o período medieval. É verdade que é um estudo puramente empírico, mas alguém aí tem notícias de algum trabalho científico relevante, escrito por mulheres, anterior à Marie Curie (fim do séc. XIX)? Eu não.

O que falar então de Santa Catarina de Sena? Essa grande mulher viveu no século XIV, era analfabeta e sequer pertencia a alguma ordem religiosa – era terciária dominicana, ou seja, leiga. Mesmo assim, foi uma das pessoas mais influentes de seu tempo. Ela conseguiu fazer com que o Papa (a maior autoridade temporal, além de espiritual, da época) voltasse a Roma. Fazendo uma analogia, alguma mulher analfabeta faria com que o Presidente dos Estados Unidos mudasse a capital de seu país? Parece-me improvável. (Lembremos que qualquer analogia é imperfeita).

Outra mulher influente do período foi uma camponesa e também analfabeta: a heroína e santa francesa Joana D’Arc. Comandou exércitos em vitórias decisivas contra os ingleses, na Guerra dos Cem Anos; levou o rei Carlos VII a ser coroado; e foi condenada em um tribunal fraudulento – tendo sido reconhecida como inocente ainda no século XV. Há alguma outra heroína desse porte, em algum outro período histórico fora da Idade Média? Sem dúvida, mas muito poucas.

Após o término da Idade Média, com raríssimas exceções (Elizabeth I, mas ela pertencia à família nobre), as mulheres ficaram submissas aos homens por séculos. Afinal, o Renascimento pretendia trazer de volta valores da Antiguidade Clássica, e assim o fez. Um desses valores é a total submissão das mulheres aos homens, e a sua marginalização na sociedade. Mesmo na democrática Atenas, as mulheres não eram consideradas sequer cidadãs. Que mudança ocorreu a partir do momento no qual o cristianismo influenciou o Ocidente! Como demonstrei, até mesmo camponesas analfabetas tiveram possibilidade de influenciar enormemente a sociedade medieval, coisa inimaginável para uma romana ou grega, mesmo que fosse pessoa de família distinta. O declínio da influência da Igreja coincidiu com a marginalização do papel da mulher na sociedade. Esse papel só voltou a tornar-se relevante no século XX, apesar dos movimentos feministas, que pretendem criar machos de saias, e não mulheres de fato.

4 comentários:

Professora Maluquinha disse...

Muito bem colocado, Rodolfo...
Aliás, a historiadora francesa Régine Pernoud tem exatamente um livro chamado "A Mulher na Idade Mádia".
Nunca li, mas agora q lembrei disso, vou até procurar...

Eduardo Araújo disse...

Caro R. B.,

Saindo do âmbito religioso, encontraremos, na Alta Idade Média, uma das figuras femininas mais fortes de toda a história - Eleanor de Aquitânia, rainha da Inglaterra sob o rei Henrique II (corrija-me se estiver errado) e mãe dos reis John, alcunhado "João Sem Terra" e Ricardo, dito "Coração de Leão". Essa mulher, provavelmente foi o ser humano com maior poder político e econômico na Europa de seu tempo (fins do século XII).

Abordando, agora , a questão do período conhecido por Idade Média, ele vem de uma preliminar divisão da história por pensadores italianos da segunda metade do século XVI, que dividiram a história humana em três partes, tomando como centro a renascença italiana. Admitindo, então, que esta era a reedição do classicismo romano, definiram as partes da história como Idade Antiga (o classicismo antigo) e a Idade Moderna (o classicismo moderno, de então), separadas por uma Idade Média, sem classicismo.

Já na época em que isso foi proposto, muitas críticas sobrevieram, face ao indisfarçável e muito questionável preconceito regionalista, além da já presente ignorância sobre o período medieval, que embora não reproduzisse na íntegra a era clássica romana, não se caracterizou pela ausência de grandes realizações do espírito humano.

Coube, então, aos iluministas instituirem o quadripartismo, ou seja, mantiveram a divisão tripartite preconceituoso e adicionaram o quarto período, a Idade Contemporânea, nascida da Revolução Francesa, a chegada das "luzes" ao poder político. Novamente, a carga preconceituosa, regionalista e sumamente presunçosa.

Mais ainda foram os iluministas e depois os marxistas que forjaram o mito da "Idade das Trevas", aproveitando assim o relativo domínio eclesiástico e a ciência e tecnologia ainda incipientes da época medieval para associar atraso e poder feudal à Igreja Católica. Uma farsa e das grandes, ainda hoje presente nos presumidos iluminados que vivem a atacar a Igreja quando esta se manifesta em defesa da vida. Faz um par, inclusive, com outra farsa anticatólica gigantesca, o caso Galileu.

Mas já me estendi demais.

Abraços

R. B. Canônico disse...

Clarinha, é isso mesmo. Li um trecho desse livro antes de escrever isso (pela internet mesmo). Regine Pernoud é, sem dúvida, uma das grandes referencias no estudo da Idade Média.

Eduardo, sua contribuição, com esse comentário, foi imensa! Detalho de modo excelente o modo pelo qual o preconceito com o Medievo surgiu. A lembrança sobre os historiadores marxistas foi muito importante, deveria ter comentado algo sobre eles.

No mais, fazendo apenas um acréscimo, tempos atrás vi uma lista de avanços tecnológicos da Idade Média, muitíssimo interessante - especialmente nos instrumentos agrícolas, o que aumentou a produtividade rural. Caso ache, posto aqui.

Por fim, reforço que gostei muito de seu comentário! Se possível, entre em contato, via e-mail, para trocarmos algumas idéias! Abraço!

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Oi, Ro!

O Professor Felipe Aquino lançou agora um livro chamado "A história que não é contada". É baratinho, R$22, e todo universitário TEM que ter, porque ele conta justamente a atribuição da Igreja para o mundo, em especial nesta Idade Média e agora na era 'moderna'.

Seu texto foi brilhante! Exemplo de feminismo temos aos montes! Basta as pessoas serem menos preguiçosas e mais sinceras para perceber o bem que a Igreja é para a Sociedade.

Adorei o texto =)