terça-feira, 25 de março de 2008

A semente que germina

Algumas pessoas pediram que eu escrevesse algo sobre a questão das células-tronco embrionárias. Relutei um pouco, pois há artigos excelentes sobre o tema escritos por pessoas muito mais capacitadas do que eu. Acabei cedendo, porém, para passar uma idéia muito simples e lógica sobre o tema, usando um raciocínio ainda não muito explorado – pelo menos nos artigos que li na imprensa.

A teoria da geração espontânea foi devidamente rechaçada há séculos. Hoje ninguém acredita que um pedaço de madeira possa gerar um cachorro, ou que trapos velhos gerem ratos. Sabemos que a vida é transmitida, ou seja, um ser vivo gera outro semelhante a si, da mesma espécie. Não há nenhuma lacuna na cadeia vital; caso houvesse, então a hipótese da geração espontânea deveria ser aceita. Assim, um cão é gerado por outro cão; e uma semente de laranja só pode gerar uma laranjeira, jamais uma macieira. Qualquer criança já sabe essas verdades elementares.

Porém, quando o assunto são embriões humanos, muitos dizem ter suas dúvidas sobre a humanidade do mesmo. Apliquemos aqui o raciocínio do parágrafo anterior: se a vida é transmitida, então seres humanos só podem ser gerados por seres humanos – jamais por cegonhas ou pés de repolho. Como o ciclo vital é ininterrupto, a seqüência (fecundação -> zigoto -> embrião -> feto -> nascimento) não pode apresentar lacunas, e cada uma daquelas etapas contém um ser vivo. Felizmente isso ninguém contesta. A fecundação gera um novo ser, com DNA próprio, distinto do pai e da mãe. A dúvida que se levanta é se o embrião já é vida humana ou não, pois vivo é, indiscutivelmente.

Ora, um ser vivo é capaz de gerar outro de sua espécie, apenas. Como o embrião é, com certeza, um ente vivo e distinto da mãe, logicamente ele só pode ser vida humana. Pensar o contrário seria criar uma lacuna no ciclo vital da espécie humana, o que implicaria em aceitar o fato de que o homem “surge” em determinado momento, e isso é absurdo do ponto vista lógico e científico (afinal, a geração espontânea não existe).

A última objeção contra esse argumento foi levantada pelo Ministro Ayres Britto, que fez uma tremenda confusão com o conceito de pessoa humana, e com certeza será contestado pelos demais ministros – assim o esperamos. Enfim, gostaria apenas de destacar que sou portador de uma doença crônica que possui esperanças de tratamento com células-tronco. Mesmo assim, sou amplamente contra a destruição de embriões humanos: é anti-ético, pois contraria princípios que considero fundamentais.

domingo, 16 de março de 2008

A Idade das Mulheres

Muito se diz por aí sobre a Idade Média, mas pouco do que é falado coincide com a realidade. O próprio termo “Idade Média” remonta ao período do Iluminismo, e carrega consigo uma boa dose de preconceito. Seriam mil anos entre duas eras consideradas “clássicas” – a Antiguidade e o Renascimento -, e nada mais do que isso. Essa postura explicita claramente o desprezo pelo período. E um dos ataques mais freqüentes diz respeito a uma suposta submissão das mulheres nessa época.

É evidente que ataques ao medievo têm por alvo, na verdade, a Igreja e seu “machismo” – outra invenção. Mas alguns fatos contam mais do que muitos argumentos, portanto vamos a eles. A verdade é que durante a Idade Média algumas mulheres alcançaram posições de liderança e influência jamais imaginada por qualquer uma dessas feministas contemporâneas.

Santa Hildegard, que viveu no século XII, possuía grande prestígio entre diversas autoridades. Escrevia a Papas e Bispos em termos muito duros. Chegou a manter correspondência, inclusive, com os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico Conrado III e Frederico Barbaruiva. Poucas mulheres hoje, que não ocupem algum cargo de autoridade, têm liberdade para tanto. Além disso, ela é autora do manual de medicina que vigorou durante todo o período medieval. É verdade que é um estudo puramente empírico, mas alguém aí tem notícias de algum trabalho científico relevante, escrito por mulheres, anterior à Marie Curie (fim do séc. XIX)? Eu não.

O que falar então de Santa Catarina de Sena? Essa grande mulher viveu no século XIV, era analfabeta e sequer pertencia a alguma ordem religiosa – era terciária dominicana, ou seja, leiga. Mesmo assim, foi uma das pessoas mais influentes de seu tempo. Ela conseguiu fazer com que o Papa (a maior autoridade temporal, além de espiritual, da época) voltasse a Roma. Fazendo uma analogia, alguma mulher analfabeta faria com que o Presidente dos Estados Unidos mudasse a capital de seu país? Parece-me improvável. (Lembremos que qualquer analogia é imperfeita).

Outra mulher influente do período foi uma camponesa e também analfabeta: a heroína e santa francesa Joana D’Arc. Comandou exércitos em vitórias decisivas contra os ingleses, na Guerra dos Cem Anos; levou o rei Carlos VII a ser coroado; e foi condenada em um tribunal fraudulento – tendo sido reconhecida como inocente ainda no século XV. Há alguma outra heroína desse porte, em algum outro período histórico fora da Idade Média? Sem dúvida, mas muito poucas.

Após o término da Idade Média, com raríssimas exceções (Elizabeth I, mas ela pertencia à família nobre), as mulheres ficaram submissas aos homens por séculos. Afinal, o Renascimento pretendia trazer de volta valores da Antiguidade Clássica, e assim o fez. Um desses valores é a total submissão das mulheres aos homens, e a sua marginalização na sociedade. Mesmo na democrática Atenas, as mulheres não eram consideradas sequer cidadãs. Que mudança ocorreu a partir do momento no qual o cristianismo influenciou o Ocidente! Como demonstrei, até mesmo camponesas analfabetas tiveram possibilidade de influenciar enormemente a sociedade medieval, coisa inimaginável para uma romana ou grega, mesmo que fosse pessoa de família distinta. O declínio da influência da Igreja coincidiu com a marginalização do papel da mulher na sociedade. Esse papel só voltou a tornar-se relevante no século XX, apesar dos movimentos feministas, que pretendem criar machos de saias, e não mulheres de fato.

domingo, 9 de março de 2008

Uma questão de princípios

Para podermos viver normalmente é necessário que assumamos a existência de uma série de princípios. Eles são como que impostos pela realidade, de modo que cabe a nós identificá-los e assumi-los como verdadeiros. O grande empecilho para o homem moderno compreender isso é a mentalidade relativista, que prega a inexistência os mesmos. Esses seriam, na verdade, meras convenções, diferentes aqui ou ali. Assim, por exemplo, se em um país a vida humana é reconhecida desde a sua concepção e em outro apenas a partir do terceiro mês da gestação, isso não teria problema algum. Mas será que as coisas são assim mesmo?

Se eu pego uma pedra e atiro para cima, necessariamente ela cairá. Caso queira viver acreditando o contrário disso, estaria alienando-me da realidade. Também acredito que, nesse momento, é melhor viver do que morrer, e assumo isso como princípio. Caso contrário, o suicídio seria inevitável. Outro: sei que não vivemos um sonho, que esse mundo é real, e não uma espécie de “Matrix”. Temos como provar isso, científica ou filosoficamente? Não. Mas assumimos como princípio, ou então teríamos uma existência inútil. Negar alguns desses princípios pode tornar simplesmente inviável a própria existência ou então o convívio humano – além de ser um delírio.

O problema é que vivemos em uma época meio maluca. Querem que tudo seja uma mera questão de convenções. Dessa forma, se eu caso e constituo uma família, é por convenção social; se sou educado pela minha família, e não pelo vizinho, isso é uma questão de convenção. Se eu acredito em Deus e tenho uma religião é porque, além de “supersticioso”, eu aceito as convenções impostas pela sociedade. Claro que esse pensamento soa estranho ao considerar sacrifícios humanos: caso eles sejam mera convenção social, como poderíamos julgar a civilização asteca? Sob esta perspectiva, os sacrifícios humanos seriam plenamente legítimos, desde que inseridos em determinado contexto histórico-social. E aí nota-se a que ponto a loucura relativista pode chegar.

O respeito à dignidade da pessoa humana jamais pode ser encarado como uma mera convenção social, mas sim assumido como um princípio. Ou então vamos aceitar sacrifícios humanos como uma legítima manifestação cultural? Essa é a importância de assumir a existência de princípios: assegurar a dignidade da pessoa humana e o convívio social. E, nesses tempos confusos, colocar em evidência determinados princípios é como iluminar uma sociedade que quer colocar-se em meio a trevas – em nome de uma suposta “liberdade” e de um certo “progresso”.

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Assim, é fundamental saber que o direito à propriedade é necessário para a manutenção da liberdade individual; que o homem deve ter sua consciência respeitada em plenitude; que o Estado deve atuar apenas onde o indivíduo não é capaz de chegar; que a vida humana deve ter sua dignidade respeitada em todas as suas fases. Esses são exemplos de princípios que, caso sejam negados, acabam desembocando inevitavelmente no totalitarismo. E a história tem vários exemplos desse fenômeno, representado especialmente por nazismo e comunismo.