sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O conto materialista

Nos últimos anos voltou à moda a onda cientificista anti-teísta. Personalidades como Richard Dawkins ganham grande destaque na mídia destilando seu ódio contra a religião e praticando ateísmo militante. A religião, aliás, é apresentada como o grande mal da humanidade, devendo ser combatida em nome de várias coisas: liberdade, igualdade, fraternidade e sei lá mais o quê. Tudo em nome da ciência, é claro – como se fossem incompatíveis. Não importa que as maiores mazelas da história (duas guerras mundiais, Nazismo e Comunismo) não tenham relação alguma com Deus - muito pelo contrário - os bravos cruzados sem cruz consideram a religião intrinsecamente má. Por outro lado Stalin “was a very, very bad man”, no dizer de Dawkins em um debate. Vê-se que a explicação dele para a maldade do facínora soviético beira à genialidade.

Todo esse ódio contra a religião, considerada simplesmente como uma invenção do homem para explicar o inexplicável, deveria recair em um desdém contra qualquer forma de mitologia, fantasia, ou congênere. Como a ciência basta para explicar a realidade (sério, tem gente que acredita nisso ainda hoje!), talvez seja o caso de, ao invés de criar contos fantásticos para as crianças, criar contos científicos! Afinal, confundir os jovenzinhos com “coisas que não existem” certamente pode abalar a correta noção da realidade, dada definitivamente pela ciência.

Assim, por exemplo, talvez seja o caso de acabar com esse lenga-lenga de amor nas histórias. Pois, segundo os materialistas, o “amor” não passaria de uma reação hormonal, química, sendo assim cientificamente explicado. Vejamos se consigo fazer um maravilhoso conto de amor materialista:

João deparou-se com Ana, ao sair do café. Naquele instante, a visão de um ser do sexo oposto causou estímulos sensíveis em João, cujo cérebro ordenou a produção de determinadas substâncias químicas e impulsos que se traduzem no que os tolos místicos chamam “amor”. Essa atração, meramente física, fez com que João desejasse falar com Ana, em cujo corpo ocorria fenômeno semelhante. Movidos por hormônios, os dois pupilos entregaram-se a seus impulsos, em uma relação que os espirituais chamariam amorosa, porém sabe-se que não é nada mais do que um mecanismo evolutivo desenvolvido pela espécie humana para perpetuar-se, da mesma forma como em determinadas espécies de animais há o cio, por exemplo.

Comovente. Se Shakespeare soubesse disso, ao escrever “Romeu e Julieta”, talvez a obra ganhasse um brilho e um realismo a mais. Fico imaginando a aceitação que esse tipo de conto teria entre os jovens e crianças, talvez ficassem encantados com o “profundo” humanismo materialista. Não que iniciativas assim sejam inéditas. Certa vez assisti no colégio o filme “Osmose Jones”, que conta de forma divertida (bom, pelo menos deveria ser...) algo sobre a osmose. Não sei se esse filme teve a intenção que expus acima (afinal, pode muito bem ser usado, e bem usado, por um professor de biologia), mas a chatice do mesmo é impressionante. Os jovens não querem um herói que atravesse membranas citoplasmáticas por meio de diferenças de gradientes. Um Frodo, de “O Senhor dos Anéis”, é um personagem muito mais cativante. Tenho um priminho fascinado pelo Homem-Aranha, embora seja cientificamente impossível fazer o que ele faça. Mas quem disse que fantasia faz mal?

Chesterton diz, em sua obra-prima “Ortodoxia”, que o misticismo é que mantém o homem são. Não é a fantasia que traz a loucura, mas a razão (isso não é uma crítica à razão, por isso recomendo uma leitura do livro). Os loucos apresentam, sempre, argumentos racionais, quase irrefutáveis, porém limitados, longe de ser suficientes para explicar a realidade. Os cientificistas fazem o mesmo, por meio da ciência. Querem dar a ela um valor muito maior do que realmente possui. Por isso que Chesterton diz que “os loucos e os materialistas nunca têm dúvidas”. A explicação dada por eles da realidade é, muitas vezes, medíocre, como esse meu conto de João e Ana é medíocre. Platão perguntaria: “Por que Sócrates está preso?” e o materialista responde: “as grades o mantém preso”. Sócrates não estaria preso por amor à verdade, por suas convicções, muito mais do que pelas grades?

A verdade é que se o materialista leva a sério seu materialismo, a vida perde a graça. Tudo pode ser explicado de modo determinístico, e perdem-se dois elementos fundamentais para o homem: o mistério e a surpresa. A principal questão aqui é, na verdade, o que é verdadeiro e o que não é. É a busca da Verdade, papel essencial da filosofia. Como não sou filósofo, deixo essa questão para lá, muito embora eu acredite piamente que conheça a Verdade, tanto pela razão como pela fé. O que quero destacar é que para o pobre materialista a vida acaba perdendo o sentido, cedo ou tarde, e ele pode tornar-se um Kirilov [1] qualquer. Um conto como aquele escrito ali em cima jamais tomará o lugar de uma bela história de amor (que é, sim, algo misterioso), da mesma forma que Dostoievski compreende muito melhor o ser humano do que Zola.

***

[1] Kirilov é um personagem do romance "Os Demônios", de Dostoievski. Ele é um ateu que encontrou o supremo sentido de sua vida, sua liberdade, no suicídio.

7 comentários:

Aline disse...

Primeira.. eeee..
huahuahuhua
Bom, esse texto que você exemplificou como seria um romance descrito ciêntificamente me lembrou dos poemas de Augusto dos Anjos, os quais não me agradam muito, mas ele conseguiu colocar termos ciêntíficos brilhantemente em seus poemas. Mas minha opinião é a de que a ficção é extremamente necessária para a humanidade.
Eu com 18 anos de idade as vezes passo horas assistindo animes (desenhos japoneses) apenas para tirar meus pensamentos da realidade um pouco e descansá-los. A mesma coisa acontece quando leio livros ou assisto filmes, além da informação adquirida, nada mais é do que um meio de se retirar da realidade por algum tempo e reorganizar as idéias. Porém, a religião, ou melhor, a fé é o que nos suporta quando voltamos a essa realidade fria e dura, o que mostra que a vida não é apenas uma passagem e que não será mais nada, que você não é apenas mais um, que é único, especial, criado por Deus com todo amor.
Assim concluo como quem não julga os erros da ciência e ama com todo coração as maravilhas que Deus nos deu.
bjox

Andrea disse...

O mistério, a imaginação, os contos de fadas, tudo isso é necessário ao homem, faz parte da vida da gente. Isso e a espiritualidade, a religião. Bem como a ciência. Ora viver apenas um aspecto da realidade é muito chato! Como é que esses cientificistas radicais aguentam?

Alguns não suportam viver a radicalidade dessa crença e terminam por crer em pseudo-doutrinas como espiritismo e teosofismo (sim, é verdade!) ou por acalentar uma "religiosidade" própria, daquelas do tipo orkutianas "tenho um lado espiritual independente de religiões"...E a verdade onde fica nessa história toda?

O que me parece às vezes é que tais tipos tem medo da realidade e passam a criar um mundinho onde somente suas regras são válidas e os de fora são vistos como "primitivos", "atrasados", burros ou algo assim...bem, há aí bastante evolucionismo, não é mesmo? Eu disse evolucionismo, não falei de teoria da evolução, que é outra coisa, antes que apareça alguém aqui me chamando de detratora de Darwin ou algo que o valha *rs*.

Ótimo post!

Abraço!

R. B. Canônico disse...

Realmente, as pessoas não querem levar a sério mais a busca da verdade, tanto que o Papa tem falado muito disso. Mas a verdade é que Chesterton explicou com brilhantismo como funciona esse pensamento materialista: é como um círculo, do qual eles não conseguem sair. OU talvez não queiram...

Rodrigo disse...

Olá, amigo!!!
Bem, o ateísmo militante está em alta. Quando vejo meus alunos dos cursos de Humanas repetindo chavões do senso mais que comum, entro em desespero. O processo de lecionar uma disciplina que trabalha com a questão religiosa é um compromisso sério com a verdade e com a "desconstrução". Passo o semestre todo numa luta contínua a fim de desconstruir todo uma bobajada que eles têm na cabeça, e que repetem, repetem e repetem. O ódio pela Igreja Católica é patente. Ela aparece em suas falas como uma instituição negadora...Que fala sempre "não". A verborragia ateista militante não leva a lugar nenhum, mas só piora as coisas. Coloca a ciência contra a fé e pessoas contra pessoas, claro. Uma lástima! O pior é que eles, os militantes ateus, se acham livres de qualquer cadinho de religiosidade. Esse Dawkins, para mim, usa como que um discurso religioso em seus textos...Ele prega! Ele quer discípulos! Ele é um profeta! Pena que tudo o que diz não tem anda de novo...Aff pra ele!
Bom final de semana!

R. B. Canônico disse...

Realmente, Rodrigo, é uma situação complicada. O problema é que hoje em dia as pessoas não querem pensar, então são inseridas em formas e pensam do jeito que outros querem. Aí nasce o preconceito, da ignorância. Aliado ao trabalho de péssimos professores de história (humanas em geral), os alunos são praticamente doutrinadas com um refinado trabalho de desinformação, aliado a uma ausência impressionante de senso crítico.

O resultado está aí, tem gente que parece papagaio repetindo clichê de séculos atrás. Dawkins, pelo menos, faz isso.

david disse...

a paz para todos!

a minha cabecinha limitada ainda não está preparada para reagir aos combates ateístas que cá entre nós, é de sentir pena, vejo que é muito mais trabalhoso ser ateu do quer cristão, fugir do cristianismo que está nas escolas, no trabalho,adesivos no carro,camisas,enfim, no dia a dia (falo por nós, presentes).
sobre a questão da fantasia, é pura forçação de barra viver só no realismo, ao longo da história podemos ver claramente a presença da arte( que também não deixa de ser uma "fuga" da realidade)cito por exemplo a arte barroca.
uma irmã acima citou que 'Eu disse evolucionismo, não falei de teoria da evolução, que é outra coisa'

gostaria de saber qual é a diferença de ambos.

um forte abraço!

Anônimo disse...

Discordo, o materialismo também tem sua beleza...

"I don't believe in destiny
Or the guiding hand of fate
I don't believe in forever
Or love as a mystical state
I don't believe in the stars or the planets
Or angels watching from above
But I believe there's a ghost of a chance we can find someone to love
And make it last..."
Rush, Ghost Of A Chance

Daniel