domingo, 24 de fevereiro de 2008

"Liberdade" sexual?

Nossos tempos são verdadeiramente paradoxais. As pessoas gritam aos quatro cantos que lutam pela liberdade, porém quando aparece alguém agindo de modo distinto, são rapidamente acusados de reacionários e retrógados. Quer dizer, as pessoas têm plena liberdade, desde que se concorde com as opiniões impostas por certos grupos. Essa hipocrisia é bastante curiosa, mas muito presente. Uma pessoa, de acordo com a mentalidade dita “moderna”, tem todo o direito de acabar com quantos casamentos quiser. Agora, o Papa considerar o divórcio como uma verdadeira praga de nossos tempos, ah isso não, é opinião anacrônica de um cara que deveria ter nascido na Idade Média. E, em nome da liberdade de expressão, tentam usurpar o direito do Papa - e, junto dele, de um bilhão de católicos - de expressar-se.

Essa mentalidade reflete-se em comportamentos também. O caso mais gritante é, sem dúvida alguma, o tema da “liberdade sexual”. Com o advento das pílulas anticoncepcionais, o homem conseguiu separar o fim reprodutivo do fim unitivo da relação. Ou, sendo mais simples, agora é possível manter uma relação sexual sem o menor “risco” de geração de uma nova vida – há pessoas que consideram filhos como sendo um flagelo pior do que uma doença. Isso causou uma grande mudança de comportamento: agora, as pessoas não querem mais compromissos, como o matrimônio, pois podem satisfazer seus desejos sem maiores conseqüências. E ainda dizem que isso é o supra-sumo da liberdade – e ai de quem diga o contrário. Por isso que eu digo que essa tal “revolução sexual” acabou trazendo tanta “liberdade” como outras revoluções, vide o caso russo. Acusam grupos religiosos de impor comportamentos no campo da afetividade, mas os próprios libertinos acabam fazendo isso!

Mas essa tal de liberdade é outra coisa, muito distinta de satisfazer instintos. Um cachorro, por exemplo, relaciona-se com uma fêmea apenas por estímulos físicos – o cio. Não há escolha para ele: ele simplesmente responde aos impulsos. Um ser humano que escolhe parceiros assim, apenas devido à atração física e para uma satisfação egoísta de seus próprios desejos, talvez esteja comportando-se mais como animal, e menos como humano. Nós buscamos incessantemente a felicidade, e temos plena liberdade de agir para alcançá-la. Será que a busca de satisfação é o caminho de liberdade e felicidade, como pregam muitos?

A simples escolha de um caminho implica a renúncia de todos os outros. Pregam por aí que devemos fazer tudo quanto queiramos, inclusive com relação à sexualidade, mas isso é impossível. A renúncia é parceira da escolha, e se temos liberdade para escolher, muito mais para renunciar. Assim, um cristão é tão livre – ou muito mais – do que um hippie. A escolha de um companheiro para toda a vida é resultado de uma liberdade madura. Muito mais do que mera satisfação sensível, mas uma completa realização afetiva. Além disso, há a compreensão de que um filho é, sempre, um presente, e não um “peso”, um “custo” a mais. Dizem que criar filho é caro. Eu digo que filhos trazem mais felicidade do que o dinheiro – e quem aí vai falar que uma nota de cem é melhor do que o sorriso de uma criança?

Para mim, a verdadeira liberdade sexual foi conquistada séculos atrás, e não com os anticoncepcionais. A pessoa que, em nome de um fim elevado – nesse caso, o amor à família, a uma pessoa e a seus princípios – consegue dominar seus impulsos, essa pessoa sim é verdadeiramente livre. Porque é capaz de tomar decisões definitivas, decisões que fazem a diferença na vida. E se renunciam a muitas coisas é justamente para poder escolher outras que são muito melhores. Isso é, sem dúvida alguma, ser muito mais livre do que ser escravo de si mesmo e de seus desejos.

9 comentários:

Anônimo disse...

O Papa foi mal-interpretado em seu discurso por um erro do tradutor (que tornou piaga em praga, quando o correto é chaga) e poucos na imprensa indicaram o erro. Mas jamais vi aí desejo de censura por parte da imprensa, apenas ignorância. E cuidado com o argumento de "um bilhão de católicos", ou você se verá obrigado a ter que escutar e sentir o peso de outro bilhão de muçulmanos com princípios conflitantes aos seus, inclusive na questão do casamento. Vai encarar?


Ainda que eu concorde com a idéia de que só é livre o sujeito que é capaz de fazer uma escolha e é capaz de lidar com todas as consequências, não há nenhuma base - exceto a cultural - para a monogamia. O problema do "free love" dos hippies não estava na ausência de renúncia e consequente libertinagem. Estava na falta de escolha. Se fosse de comum acordo, ótimo para eles. Sabemos que isso é impossível, mas os hippies (eternos adolescentes que se recusavam a aceitar a maturidade) tiveram que sentir isso na pele ao ver o amor de uma pessoa ser dividido com outra, quando queria que fosse só dela. Diz aí: ciúme é uma coisa "humana" ou "animal"?

Só pra encerrar: quão livre é o casal que teve que se casar por imposição de suas famílias, ao descobrir que os dois não "resistiram aos seus impulsos" e a mocinha embuchou? Quando é que há, verdadeiramente, a elevação do espírito: na jornada, ou no destino? What I want to say is, a liberdade se mostra no indivíduo que escolheu o amor como príncipio maior, não no sujeito que casou pois fora forçado a isso. Ainda que tenha passado a amar o outro depois, isso se deu pela doutrina e pelo costume, não por sua própria vontade.

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Uau!

Realmente não há liberdade onde tem escravidão. E esta liberdade sexual nada mais é que escravidão sexual. É dizer: "transem, mesmo sem vontade!"

EU costumo dizer que o Reino animal é mais organizado e civilizado que a gente, porque eles não agem fora dos seus ditames, e por isso eles estão sempre em harmonia. Quiçá o homem também agisse assim. Certamente não ouviríamos coisas do tipo: "Se Deus existe, porque permite isto?"

Ótimo texto =)

R. B. Canônico disse...

Caríssimo Anônimo, agradeço seus comentários, mesmo discordantes. Mesmo trocando o termo praga, por chaga, a idéia do Papa é a mesma: o divórcio é um mal, na visão dele (com a qual concordo). Essa opinião não é tolerada mesmo, afinal - dizem - as pessoas tem mais é que buscar a felicidade, seja no primeiro ou no décimo casamento. E a visão cristã é distinta desse senso. Quanto ao bilhão de muçulmanos, além de serem um grupo heterogêneo (ao contrário da Igreja, homogênea em sua doutrina e assumindo uma unidade de ortodoxia inexistente no Islã, pautada em sua autoridade) eles têm sim o direito de terem suas opiniões. A questão é que estão no erro - a verdade não é decidida pela maioria, mas é imposta pela realidade.

Sobre a questão monogâmica, G. K. Chesterton trata com grande elegância do tema em "Ortodoxia" - e muito bom humor também. Leitura recomendada.

Quanto aos comentários finais, em linhas gerais tendo a concordar. Devemos saber que o amor é, essencialmente, um ato da VONTADE,e não um sentimento vago. As pessoas confundem AMOR com ATRAÇÃO, e aqui entra minha crítica. O amor é algo muito mais profundo, até misterioso eu diria. Dependendo de atração, nao haveria um só casamento em pé no mundo. E, para mim, o amor vai muito além do mero subjetivismo, das inclinações momentâneas do indivíduo... eu acredito naquela história de 'amar os inimigos'. E, para conseguir fazer isso, é preciso de muita, mas muita liberdade.

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Capaz! Eu amo o Shakespeare, mas não posso negar que ele força e muito a amizade =D

Obrigada por participar! Bjocas minhas e do Bernardo (que tá crescendo... tão lindo...)

Cris disse...

Como sempre gostei muito do texto Rodolfo, parabéns.

Andrea disse...

Concordo contigo, meu caro colega! O interessante, para não dizer triste, é que realmente esse pessoal acha que tem o direito de dizer tudo o que pensa (ou o que copiad dos outros) e que quem ouve tem que concordar ou ficar calado...é liberdade de via única; só pode para eles. É tão patético isso!

A verdadeira liberdade é essa mesmo, a que vence os instintos, ou ao menos busca vencê-los!

Abraço!

Ecclesiae Dei disse...

Como sempre, excelente postagem! Concordo totalmente com tudo o que disse.

Anônimo disse...

Fantástico Texto! Parabéns.

Arlene Mulatinho disse...

Concordo plenamente.

As pessoas estão mais vazias, filhos sem pai.

O sexo se tornou banal.