sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Começar e recomeçar

Um dos fatos mais impressionantes que notei ao observar o mar, após um afastamento de três anos, foi o incansável vai-e-vem das ondas. Elas insistem em quebrar na praia, sem maiores motivos, sem cessar e sem pedir licença para os banhistas. Para alguns, esse movimento pode ser considerado monótono, chato; para outros, é fonte de admiração e contemplação incessantes. Encaixo-me nesse segundo grupo.

O que explica esses sentimentos tão diversos causados por uma paisagem? Afinal, esta é a mesma para todos que a observam. O que mudam são as disposições interiores de seu observador. Dessa forma uma criança, por mais feia que seja, será lindíssima aos olhos da mãe. É que o olhar dela passou pelas lentes do amor, antes de chegar à compreensão. E esse sentimento dá novos tons a tudo que vemos. Fazendo uma analogia com uma paisagem, podemos imaginá-la pela noite, na escuridão, e iluminada pela luz da aurora. A mudança não é no ambiente em si, mas na maneira como o enxergamos. E o amor tem esse poder de iluminar não apenas nossa compreensão, mas também todas as nossas atividades.

Pensando novamente nas incansáveis ondas do mar, podemos lembrar que a maior parte de nossa vida consiste em repetições. A vida em família, o trabalho profissional, o estudo, o relacionamento com os amigos... enfim, tudo consiste em uma grande rotina. Seríamos então seres condenados à mesmice, à uma vida monótona e enfadonha? A escolha é nossa. Assim como o mar: ele é belo ou feio? Depende dos olhos do observador. E o que pode tornar a nossa vida bela ou enfadonha é o amor.
Muito além de fazer com que a mãe ache o filho feio bonito (isso soou estranho, mas é assim mesmo), o amor pode transformar todas as realidades humanas. Com que amor a mãe não faz trabalhos chatíssimos, como lavar a roupa ou os banheiros da casa. O que a motiva não é uma obsessão por limpeza, ou o simples cumprimento do dever: o zelo por sua família a consome, e ela faz tudo aquilo com muito alegria. Assim deve ser em todas as nossas atividades: colocar detalhes de amor faz com que tudo assuma novas cores, assim como a paisagem iluminada pela aurora. Estudar com amor, trabalhar com amor, ajudar a lavar a louça com amor... percebendo o quanto tudo isso é bom, para mim e para meu semelhante.

Uma existência pode se resumir a um monótono quebrar de ondas na praia. Ou então a um maravilhoso movimento das águas, responsável pelas mais belas paisagens do planeta. Acho bom que aproveitemos o ano ainda em seu início para investigarmos com quanto amor temos agido, para saber se nossa vida é uma paisagem na escuridão ou se é iluminada por essa realidade maravilhosa.

6 comentários:

david disse...

Bom dia! escrevo neste exato momento ás 09:24 da manhã.
Gostei da parte em que se foi citado que a mãe através de sua lente de amor consegue ver sempre o seu filho que embora seja "feio" sempre haverá um beleza explêndida a raiar sobre ele. Isso me faz até lembrar daquela passagem bíblica onde se diz que os olhos são a candeia do corpo, interessante de como nós como seres humanos somos limitados a apenas ter uma visão sadia e valorosa daquilo que só nos interessa, talvez seja por isso que existem divisões no mundo por se achar que apenas o meu entendimento e razão sobre os fatos seja ortodoxa.
De fato, o Amor tem que estar sempre no topo em qualquer circunstâncias de nossas vidas, mas queria salientar que amar não apenas vendar os olhos e pular no abismo achando que com isso irá cair em cima de um monte de travesseiros macios, ou seja, amar não engloba apenas em manisfestar os sentimentos afetivos, mas sim de ser coerente e justo nas situações onde é preciso, vemos por exemplo uma mãe que sendo preciso dar uma surra para disciplinar seu filho não significa que a mesma não a ame, fiz essa comparação em paralelo com a frase em início do texto onde foi citado que a visão sobre pode ser variada conforme os olhos do observador.

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Uau!

Excelente texto!

Realmente a distância entre "fazer com amor" e "fazer por fazer" é curta, porém o resultado da escoha é gigantesca.

Este texto foi um bom puxão de orelha pra mim =)

Bjocas!
Pax

R. B. Canônico disse...

Grande David, realmente, a pessoa que ama deve estar preparada para saber, sim, aceitar o sofrimento. Quantos sacrifícios um pai não faz por seu filho? Alguém que diz amar, mas não sabe renunciar a si mesmo em favor do outro é um mentiroso e hipócrita.

Evelyn: muitíssimo grato pelos elogios, e que bom que a tenha ajudado de alguma forma :-)

Andrea disse...

Gostei daqui! :)

Olha, sério mesmo, eu quero tentar agir com mais amor nesse ano de 2008!

Obrigada pela mensagem!

Fique com Deus e até!

Andrea disse...

Olá, R. B. Canônico! Sinta-se a vontade para linkar meu blog! Também gostei daquie, posso linkar lá?

Esse livro é o melhor do Dostoievski! Estou adorando!

Até!

Ecclesiae Dei disse...

Muito bom seu texto, achei excelentes os textos de seu blog. Parabéns! Devo te visitar mais vezes!
Abraços