domingo, 20 de janeiro de 2008

Firth of Fifth

“The sands of time were eroded by
The river of constant change” [1]

Recentemente passei um dia em uma casa na beira do Rio Ivaí. Um lugar afastado e muito belo. Quando era mais novo ia para lá com certa freqüência. Ou seja, esse meu fim de semana foi um encontro com o passado. Não sei se vocês já repararam, mas a natureza muda muito pouco com o passar dos anos. Para uma paisagem natural ser transformada significativamente, pode passar séculos ou até milênios. No caso daquele barranco de rio, quase nada mudou, exceto algumas árvores que cresceram, um pouco de mato a mais ou a menos aqui e ali. O Rio, a paisagem, as pedras, a casa, os caminhos... tudo estava lá. O Rodolfo com (pouca) barba no rosto viu o mesmo que o Rodolfo de seis anos observou tempos atrás. Quer dizer, a paisagem é a mesma, mas o que vi (não o que há para ver) mudou muito. Volto a esse ponto logo.

Ao contrário da natureza, o homem tem pressa. A nossa tendência é deixar marcas profundas por onde passamos, e quando o homem atua em conjunto, por meio de sociedades, as marcas são maiores, impressionantes e profundas. Elas podem ser tanto materiais, como as grandiosas pirâmides de Gizé, ou culturais, como a Filosofia Grega e o Direito Romano. As primeiras podem ser destruídas com o tempo (afinal, as demais maravilhas do mundo antigo o foram), já as outras são profundas e inextinguíveis em nossa cultura. Mas o que impele o homem a essa ação transformadora, que se apresenta de modos tão diversos? Não sei a resposta ao certo, mas é algo inerente à Natureza Humana. Parece-me que a brevidade da vida humana é o que nos motiva a fazer tanto. A natureza tem um período de tempo indefinido para transformar-se, ao passo que nós temos uns setenta anos, em média. E isso é um motor propulsor para mudanças. O homem atua, e rapidamente. Seja em suas relações sociais, seja no ambiente natural que o rodeia. Que diferença não faz em seu meio uma pessoa bem-humorada? Os outros rapidamente simpatizam com ela, e sua motivação os contagia. O mesmo pode ser dito de um sábio, que influencia positivamente seus amigos, mudando profundamente a vida desses. Com relação ao meio físico, notamos o mesmo: uma paisagem que demorou séculos para desenvolver-se naturalmente, com a intervenção humana rapidamente sofre alterações drásticas. É só pensar no desmatamento.

A própria natureza obriga-nos a mudar: a idade traz consigo muitas responsabilidades, faz-nos perder a inocência e muda completamente nossos paradigmas. Pensando agora no Rodolfo de seis e de vinte e um anos, no barranco do Rio Ivaí. Antes, encarava o rio como uma grande piscina, onde poderia nadar bastante e brincar com meus primos. Hoje vejo uma maravilhosa paisagem moldada pela natureza, um momento de tranqüilidade ao contemplar tudo aquilo, posso sair para pescar, ler um livro e ter o prazer de simplesmente apreciar o belo rio. As águas que correm lá, agora, não são as mesmas de antes. As idéias que passam por minha cabeça também não. Mas eu continuo sendo Rodolfo, mesmo com essas mudanças todas, e o rio continua o mesmo, apesar de novas águas passarem por lá. Acredito que isso seja Metafísica: a água do rio é acidental; logo que ela passa, é rapidamente substituída por outro volume de água. Uma determinada porção de água não é essencial para a existência do rio; a natureza do mesmo exige que haja água lá, mas não uma porção específica. Melhor deixar isso para Aristóteles e São Tomás.

As águas que passam nesse rio não voltam mais. São renovadas continuamente. O tempo que vai também não volta mais, e para o homem uma vida pode ser muito pouco. Acho que devemos ter em mente essa realidade, para não deixar que aconteça conosco o que houve com Brás Cubas, de Machado de Assis. A vida dele passou, e ele nem viu. Não fez nada de relevante nem em sua vida pessoal, nem em sua vida pública. Um medíocre por excelência. Espero que, ao chegar à foz do rio da vida, para desembocar no oceano infinito, eu consiga olhar para os caminhos percorridos com um sereno sorriso no rosto.

***

[1] - Esses são os últimos versos da música “Firth of Fifth”, do grupo de rock progressivo britânico Genesis. Eu gosto bastante de algumas músicas deles, especialmente dessa. Além da brilhante introdução composta por Tony Banks, há um dos melhores solos de teclado da história do rock. A letra composta por Peter Gabriel é muito boa, e o final acima transcrito encerra com brilhantismo a emocionante canção.

6 comentários:

david disse...

é legal mesmo quando paramos num local onde refletíamos quando mais novo e fazemos uma comparação com o atual, interessante é não apenas nos aspécto físico do local, mas sim da vivência do lugar, meu ponto de reflexão é sempre quando passo em frente a escola onde estudei no antigo primário, lá sim, vivi grandes esperiências,por que foi meu primeiro contato social, onde pude aprender outras formas de viver a vida, outras formar de ver o diferente, e de saber conviver com as diferenças, como eu queria nunca ter deixado de ser criança! até "invejo" o Rodolfo ter lembrado desse Rio Avaí, se eu me atraver a ir na praia de Ramos (RJ)hoje lembrar da praia como fora outrora, só seria pura decepção, por que o era um ótimo refêrencial turístico hoje se tornou uma excenlente fonte de sujeira e acumulos de coliformes fecais :(

Anônimo disse...

Seu texto fez lembrar o pensamento de Heraclito, de que ninguem entra no mesmo rio duas vezes. Mencionou um rio, e as impressões do passado e que teve hoje. Me parece que voçe nao entrou no mesmo rio duas vezes. hehe
Até mais.

R. B. Canônico disse...

Caro Anônimo. Discordo de Heráclito. Estou com Aristóteles. O rio é o mesmo. A essência dele se mantém, mesmo com outras águas passando por lá. Determinada porção de água é acidental para o rio, pois é substituída e o rio mantém-se lá. Pense em nós. Nossas células continuamente morrem e são substituídas. Por caso eu não sou o mesmo? Óbvio que sim: essencialmente, sou Rodolfo. Alguns fatores acidentais mudam, mas a essência permanece.

Entrei no Rio Ivaí antes. As águas mudaram, mas o Rio Ivaí está lá, inabalável.

Cris disse...

Rodolfo, parabéns pelo texto.
Quero simplesmente dizer que fiquei emocionada, e que suas palavras me trazem muitas reflexões. Obrigada.

Rodrigo disse...

Essa música realmente é maravilhosa. Adoro o Gênesis! Claro, que antes de sua , vamos assim dizer, "popzação" com P.Collins...Aff!
Valeu pela visita e os elogios!
Estamos aí! Espero manter diálogo profícuo com você o outros da blogosfera...
Abraço

Aline disse...

Perdão por não ser uma amiga atenciosa e esse ser meu primeiro de muitos comentários :D
É ótimo ver como nada mudou quando você se depara com um local que a muito não visitava, passo algo parecido a cada ano. Voltar para cidade natal e ver q a paisagem continua praticamente a mesma (tirando as construções) mas as árvores continuam onde estavam, algumas cairam pela força do vento, outras derrubadas pra população obter mais espaço, mas nada de muito significativo. Pena que as pessoas de ontem não são mais iguais ao passar de apenas segundos. Mas isso não vem ao caso. Adorei o texto.. bjox