domingo, 6 de janeiro de 2008

Dorian e eu

Um dos personagens mais geniais que encontrei até hoje, no mundo da literatura, é Dorian Gray. Ele é a representação ideal do hedonista, do burguês boa-vida, do aproveitador. A todo instante, Dorian busca o prazer incessante e incansavelmente, a todo custo. Porém, as conseqüências negativas de seus atos jamais recaem sobre ele, pois a partir de determinado momento de sua vida um quadro com sua imagem passou a envelhecer e a sofrer com a maldade de seus atos. Esse quadro é a própria alma de Dorian.

Na história, a cada ato vicioso de Dorian, era seu quadro que sofria. Assim, quando o jovem praticava uma maldade com outra pessoa, as feições do quadro alteravam-se. Além disso, a passagem do tempo não o atinge: ele não envelhece. O retrato sofre todas essas conseqüências em seu lugar. Para o hedonista, isso é fundamental: manter a beleza (as aparências, no sentido vulgar do termo) e não possuir consciência para incomodá-lo... sim, pois a consciência de Dorian calou-se após determinado tempo. A busca desenfreada por prazer, passando por cima de tudo e todos, é seu fim, e ele não tem escrúpulo algum em usar o meio que achar conveniente para alcançá-lo. O retrato, contudo, fica cada vez mais feio, o próprio Dorian não consegue admirar sua “obra”. Sim, pois a imagem ali retratada era a própria alma dele, manchada pelo tempo e por seus atos ignominiosos.

A verdade é que nós também não temos coragem de olhar para nosso próprio retrato, aquele que nos mostra interiormente. Preferimos buscar as aparências, ou os sentimentos, e muitas vezes não queremos admitir a pouca importância e a pequeneza que nos são próprias. Afinal, materialmente falando, não somos muito mais que um amontoado de poeira, que mais cedo ou mais tarde voltará a ser apenas poeira. Nem todos têm coragem suficiente de admitir nosso fim certo e iminente, agora ou daqui a 80 anos. Mas é inevitável. Eis, aqui, o terror do hedonista. A busca pelo prazer possui seu fim certo. A morte e o sofrimento, inerentes à condição humana, decretam o fracasso do hedonista. Dorian Gray, graças a seu retrato, conseguiu rechaçar a morte e a dor... leiam o livro, porém, e vejam seu fim. Os seus companheiros de ideais fracassam agora ou ali na esquina. Doença, morte de amigos, fracassos, frustrações, o próprio fim... como alcançar a felicidade – e a felicidade está no prazer, para o hedonista – em meio a dor?

Dorian Gray é um personagem realmente genial, mas eu tenho como objetivos não ser nem um pouco parecido com ele. Muito pelo contrário, talvez meu ideal seja justamente ser a antítese de Dorian... Dorian não trabalhou, não tinha família, não tinha princípios (ele era seu próprio deus). Principalmente, tentar não esconder o meu retrato das outras pessoas e – especialmente – de mim mesmo. É que não quero ter nenhuma surpresa ao encará-lo ou quando alguém vier a descobri-lo, pois Dorian teve, e isso pôs fim a ele.

Um comentário:

Ren disse...

Faço minhas as suas palavras. Gostei do blog. Parabéns pelos comentários inteligentes. Deus o abençoe...