sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Aquecendo o globo

Dia desses estava assistindo ao jornal, acompanhando o caso de praias da costa brasileira que estavam sofrendo invasão de águas-vivas e de caravelas portuguesas. Esses seres são celenterados cuja relação com o ser humano consiste em causar queimaduras na pele. Dessa forma, os banhistas de várias praias da costa brasileira sofreram ferimentos, alguns graves, e reclamavam bastante do estrago causado nas férias. O que achei mais curioso, porém, foi a explicação imediata apontada por especialistas: eles desconfiavam que a causa do excessivo número de águas-vivas era o aquecimento global. Isso sem fazer nenhum levantamento inicial, absolutamente nada. Claro, faz parte do método científico levantar hipóteses, e tudo mais. Mas a questão é que o aquecimento global está saindo do campo científico, e tornando-se um fenômeno social-político-cultural. Qualquer acontecimento acaba tendo como causa, direta ou indireta, o aquecimento global.

A personalidade do ano de 2007 foi, sem dúvida alguma, o próprio Aquecimento Global. Ele ganhou o Oscar e o Prêmio Nobel da Paz, mas foi representado por Al Gore (que poderia ser ‘Al Boring’, sem prejuízo algum para a compreensão de sua pessoa e idéias). Aliás, o premiado documentário “Uma Verdade Inconveniente” é inconveniente não por qualquer suposta verdade apresentada ali, mas pelas opiniões políticas de Gore, que não perde uma chance de ridicularizar Bush. Um porre. A maior parte do tempo é gasta com piadas sem graça, projeções questionáveis por pesquisadores [1] (e que são apresentadas como a grande verdade) e sobre a infância de Al no interior. O ex-candidato a morador da Casa Branca quer posar de cavaleiro do apocalipse, fazendo um fenômeno climático tornar-se uma agenda política. Caso o resultado das eleições americanas do ano dois mil fosse outro, hoje, ao invés de uma “Guerra contra o terror”, poderíamos estar vendo uma verdadeira “Guerra contra a fumaça”, ou coisa parecida.

Tal hipótese fez-me pensar nas vacas. Animais simpáticos, que servem para embelezar os pastos, potes de derivados de leite além, claro, de fornecerem o próprio leite. Todavia, os rebanhos são responsáveis por grande emissão de carbono, na forma de gás metano. Recuso-me a simplificar essa explicação. O fato é que a agenda política anti-aquecimento global pode, a qualquer momento, partir para o ataque contra as dóceis vaquinhas. Espero que o serviço de inteligência do Greenpeace esteja alerta, pronto para defender nossa carne e leite da ameaça iminente com tanta eficácia quanto o faz com as baleias.[2]

O problema é que o aquecimento global já invadiu o subconsciente coletivo. Esses dias têm sido excessivamente quentes por aqui. É com freqüência que ouço as pessoas culparem o aquecimento por esse fato. Eu, tolo, pensando que era simplesmente culpa da inclinação da Terra, fenômeno responsável pelas estações do ano (no momento o verão, que deve ser quente, não é mesmo?). Mas as pessoas vão mais além: já há quem associe a fome na África Subsaariana ao discutido fenômeno. Isso não tem nada de “inconveniente”, muito pelo contrário: é conveniente àqueles governos incrivelmente corruptos que a culpa seja do derretimento das calotas polares, e não deles. Até coisas mais simples, como a estiagem de inverno, agora tem por culpado o aquecimento. As impressionantes nevascas no hemisfério norte, esse ano, certamente são causadas pelo aquecimento global (sobrou até para o Irã, que está dois metros sob a neve já). Tudo é aquecimento global. Concedo que o fenômeno exista, afinal as pesquisas, o Oscar e o Prêmio Nobel da Paz indicam isso, os dois últimos quase irrefutavelmente. Agora, entrar na carruagem do apocalipse juntamente com Gore é que eu não vou.

Essa carruagem, aliás, passou outras vezes por aí desde que nasci. Lembro que marcaram já algumas datas para o fim do mundo. Nostradamus errou a sua, na virada do milênio. Este acabou, mas o mundão está aí, aquecendo. Outra profecia, tão certeira quanto à de ‘Nostra’, fazia referência ao buraco da camada de ozônio. Lembro-me perfeitamente das reportagens do Fantástico, afirmando que seria cada vez mais perigoso expor-se ao sol em regiões ao sul (ei, estamos no sul!). Eu entrei em pânico, tinha uns doze anos e pouco senso crítico. Passou o tempo, o buraco diminuiu e por conseguinte perdeu a fama. Não houve casos em massa de câncer de pele e o mundo está aí, firme e forte, com camada de ozônio e tudo. Havia necessidade para tanto alarmismo? Não era o caso de amadurecer as conclusões dos dados coletados em pesquisas?

Diminuir impactos ambientais, lutar por um uso racional do meio-ambiente e protegê-lo sempre que preciso são atos louváveis. Tornar isso por prioridade, indo à frente de questões éticas essenciais, por exemplo, é temerário. A loucura chega ao ponto de casais de ambientalistas evitarem ter filhos para defender o planeta do aquecimento e da superpopulação (outro mito). Essa agenda ecológica deve ser respeitada até o ponto em que ela respeita o ser humano. Quando o homem é rebaixado em detrimento de árvores, baleias e tartarugas então, infelizmente, é hora de pegar o ecologismo fanático e colocá-lo em seu devido lugar, que deve ser muito longe da opinião pública e agendas políticas sérias.

***

[1] – Para Gore, as geleiras da Groenlândia estão para derreter. Mas isso não é consenso, como ele afirma. http://www.ordemlivre.org/?q=pmichaels-a_fria_verdade_sobre_a_groenlandia
Se esses dados estiverem errados, eu sinceramente gostaria que fosse demonstrado isso, seria de grande valia para mim e demais leitores.

***

[2] – Já vi, em palestra, um representante de uma grande empresa contar um fato curioso. Foi oferecido ao Greenpeace recursos para criar um posto de trabalho na Amazônia. Oferta negada, pois eles estão interessados em mídia, e ficar ali no mato é estar longe da mídia...

***

O Aquecimento Global é um fato, negá-lo é simplesmente loucura. Há muita gente séria estudando o tema; no Brasil o destaque fica para o pessoal do INPE, em São José dos Campos. Todavia, não existe consenso exato sobre até que ponto a influência antrópica é determinante no fenômeno. E por isso podemos concluir que há um alarmismo exagerado sobre o fato. Medidas como os créditos de carbono, do Protocolo de Kyoto, são boas ao criarem investimentos em fontes alternativas de energia, afinal os combustíveis fósseis não são renováveis. Estando essas medidas dentro de um contexto razoável, de valorização do homem e um adequado respeito ao meio ambiente (sem esse panteísmo disfarçado que há por aí), creio que a resistência dos chamados ‘céticos’ tende a desaparecer.

4 comentários:

anajapaulinha disse...

Gostei do texto e concordo com seu ponto de vista. Não podemos nos deixar enganar por modismos, e é o que está acontecendo com essa questão do aquecimento global.

david disse...

bem, o Aquecimento Global existe sim, assim como a Aids existe e como outras moléstias, como a poluição dos rios e oceanos, e penso que não só por que existe um exagero da parte de outrem que vamos deixar passar como se fosse uma simples moda,eu por exemplo não gosto nem pensar se aquelas geleiras dos pólos começarem a derreter...

Professora Maluquinha disse...

Concordo q há algo de alarmista nas propagandas sobre Aquecimento global e td mais, da mesma forma q há alarmismo na propaganda sobre violência na Cidade Maravilhosa. =D

Não esqueci dos seus poemas, estou reunindo textos e me animei com o trabalho. Por isso está demorando...

Samila disse...

Rodolfo, interessante o que você escreveu e, também, muito verdadeiro. Mas, deixe eu elogiar logo a tua escrita. Parabéns, você escreve muito bem!

Hoje mesmo um amigo disse p/ eu: "Esse aquecimento global vai me matar!". Mas ele se esqueceu que aqui onde moramos é terrivelmente quente o ano inteiro!!!