quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O Estado Educador revisited

Escrevi, há algum tempo, um artigo criticando a postura interventora do Estado brasileiro na formação das crianças, constituindo clara agressão ao direito que as famílias possuem em educar seus próprios membros. Porém, alguns pontos ficaram confusos. Houve até um artigo criticando alguns aspectos do que falei. Mas, vamos lá.

A questão fundamental é sobre o papel do Estado. Realmente, não é obrigação estatal garantir a educação, e nem sempre houve educação pública. Por exemplo, na Idade Média a educação esteve a cargo da Igreja, e o resultado foi ótimo: o surgimento das universidades e um amplo florescimento cultural, começando no chamado “Renascimento Carolíngio”, sob Carlos Magno. Poderiam também as famílias muito bem assumirem essa responsabilidade, como muitas fazem. O exemplo brasileiro contemporâneo mais significativo é o do poeta Bruno Tolentino. Um verdadeiro intelectual educado por preceptoras em casa. Na verdade, uma pessoa genial. Duvido que o ensino público tenha competência em formar alguém assim.

O princípio em questão é a subsidiariedade, cuja principal formulação está na encíclica “Quadragesimo Anno”, de Pio XI. Em linhas gerais, a subsidiariedade implica que, como a educação pode ser dada pela família, o Estado não pode assumi-la. O dever da educação é em primeira instância das famílias, dos pais, e quanto a isso não há o que questionar.

Ocorre que o Estado pode sim auxiliar em certas funções que o mesmo não deve assumir integralmente. Diz o compêndio da Doutrina Social da Igreja:

Diversas circunstâncias podem aconselhar a que o Estado exerça uma função de suplência. Pense-se, por exemplo, nas situações em que é necessário que o próprio Estado promova a economia, por causa da impossibilidade de a sociedade civil assumir autonomamente a iniciativa; pense-se também nas realidades de grave desequilíbrio e injustiça social, em que só a intervenção pública pode criar condições de maior igualdade, de justiça e de paz.

A educação está ligada com situações de grave injustiça social. É evidente que uma boa educação é um passo muito importante para eliminar situações de miséria extrema. Uma formação já possibilita as pessoas a conseguirem empregos melhores, e com isso viverem em situação mais digna.

E eu vejo essa situação corriqueiramente, por participar de programas de alfabetização de adultos. Essas pessoas acabam tendo pouquíssimas oportunidades na vida em decorrência da falta de estudo. Eles não possuem a mínima condição de educar seus filhos. Muito menos de pagar por essa educação. Há uma clara insuficiência dessas famílias em sua missão educadora. E quem pode suprir essa deficiência? Hoje não há nenhuma instituição que eu conheça, civil ou religiosa, que possa formar integralmente aquelas crianças. Não fosse a educação pública, estaria estabelecido um ciclo vicioso: os filhos das pessoas que ajudo a alfabetizar possivelmente seriam no máximo alfabetizados, e teriam que continuar a trabalhar na roça ganhando muito pouco. O estudo, que para eles apenas o Estado oferece, é fundamental para que as crianças possam sonhar em viver pelo menos um pouco melhor do que em sua condição atual.

Nesse caso, eu não vejo outra saída que não seja a intervenção estatal. Contudo, diz também o mesmo Compêndio:

À luz do princípio da subsidiariedade, porém, esta suplência institucional não se deve prolongar e estender além do estritamente necessário, já que encontra justificação somente no carácter excepcional da situação. Em todo caso, o bem comum correctamente entendido, cujas exigências não deverão de modo algum estar em contraste com a tutela e a promoção do primado da pessoa e das suas principais expressões sociais, deverá continuar a ser o critério de discernimento no que diz respeito à aplicação do princípio da subsidiariedade.

E o problema da educação pública, hoje, é justamente esse. Ela vai sim muito além do ‘estritamente necessário’: ela é a única legalmente instituída no país. Os currículos são definidos pelo Estado, e quem não concordar não tem saída. A educação deve ser feita de acordo com os moldes definidos pelo Estado, e ir contra isso pode ser interpretado como abandono intelectual. Enfim, o Estado assume um papel praticamente totalitário, obrigando a todos a educarem de acordo com diretrizes inquestionáveis. E o mais bizarro não é isso existir, é praticamente ninguém questionar essa loucura!

Em suma, o papel do Estado na educação é de suplência, existindo apenas quando os indivíduos não tiverem condições de exercer essa função. E esse fato ocorre corriqueiramente. O problema é que, na prática, o Estado extrapolou suas atribuições e hoje atrapalha muitas pessoas que queiram seguir um caminho um pouco diferente na educação. Quem não quiser que seu filho de 10 anos não aprenda a usar camisinha deve... bem, não tem muita saída.

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Só volto a escrever ano que vem.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

The Soviet History (em português)

Alguma alma bondosa traduziu o fantástico documentário "The Soviet History" ao português e colocou no Youtube. Recomendo a todos que assistam, apesar das imagens tenebrosas. O que houve na URSS, especialmente sob Stálin, foi muito pior do que o Holocausto nazista. Assistam ao documentário:



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Um dos fatos mais chocantes é a história do Holodomor. Por incrível que pareça, a Wikipedia em inglês fornece um grande material para análise. O mais interessante são as várias referências que há lá!

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Por que um fato que causou mais mortes do que o Holocausto não aparece nos livros de história brasileiros? E por que os campos de concentração nazistas são famosos, e os soviéticos não?

Esse assunto merece nossa reflexão.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Prefeitura paulistana decreta: homossexualidade não é pecado

Há no site da prefeitura um texto bizarro, de autoria do ativista gay Luiz Mott, ‘líder’ do Grupo Gay da Bahia. Já comentei que esse grupo é, possivelmente, a maior reunião de chatos do país, querendo dar palpite sobre tudo. Daqui a pouco vai acabar sobrando até para a seleção brasileira: “Seleção sem homofobia”, ou alguma coisa do tipo. O pior é um site de uma prefeitura publicar algo desse naipe. Luiz Mott não me surpreende mais; já o poder público brasileiro a cada dia mostra sua capacidade de querer interferir em tudo nas nossas vidas, agora até na religião. Será que eles vão querer dar um golpe de Estado no Vaticano e assumirem o lugar do Papa? Só o tempo dirá...

Mas, vamos ao decálogo de Mott.

1] Ser homossexual não é crime. Nenhuma lei no Brasil condena a prática da homossexualidade. Crime é discriminar os gays, lésbicas e travestis. É legal ser homossexual!

Não há o que contestar aí.

2] Homossexualidade não é doença. Todas as Ciências garantem: é normal ser homossexual. Querer "curar" o homossexual é ignorância.

Bem, se homossexualidade é doença ou não eu não sei. Agora, que papo é esse de ‘todas as ciências garantem’? A Física garante? A Química? A Filosofia? Fracamente! E a conduta homossexual não é ‘normal’, por ir contra a natureza humana. E quanto a ‘curar’ o homossexual, bem, há uma razoável quantidade de ex-homossexuais por aí, mesmo que a homossexualidade não seja doença.

3] Homossexualidade não é pecado. Os gays e lésbicas também se amam e foram criados por Deus. Jesus nunca condenou os homossexuais.

Homossexualidade não é pecado mesmo, mas sua prática é. É um tema tratado com clareza cristalina nas Sagradas Escrituras, e não há a menor margem de dúvida da ofensa a Deus que é o ato homossexual. E Jesus não tratou diretamente do tema, é verdade, mas vários dos que o precederam e seus discípulos (São Paulo) disseram o mesmo: o ato homossexual é pecaminoso.

O que mais me impressionou, porém, foi a cara de pau do Sr. Mott. Ele é um ateu militante confesso e não está nem aí para o que é pecado ou não, muito menos se importa com Jesus Cristo. Dá para levar a sério um cara desses?

4] A homossexualidade sempre existiu. O amor homossexual é tão antigo quanto a própria humanidade - e nunca vai acabar.

Realmente, a homossexualidade é antiga. Quanto à ‘profecia’ de Mott, bom, deixa para lá... O cara é militante ateu, ativista gay, acadêmico e agora também profeta.

5] Todos os povos praticam o homo erotismo. Em muitas tribos indígenas e africanas os sacerdotes e as próprias divindades são homossexuais.

E isso não influi em nada na (i)moralidade do ato homossexual.

6] A homossexualidade é natural. Inúmeras espécies animais praticam a homossexualidade. Os gays não ameaçam a extinção da espécie humana.

Homossexualidade não é natural, pelo contrário, vai contra a natureza humana (na acepção antropológica do termo ‘natureza’). Se animais praticam a homossexualidade, o que devo concluir? Que é algo bom? Algumas espécies matam seus filhotes... e aí?

Quanto a não-extinção da humanidade, agradeço o aviso de Mott. Dormirei mais tranqüilo esta noite.

7] A causa da homossexualidade é um mistério. Nada distingue o físico e a mente do gay dos demais cidadãos. Todos somos seres humanos.

Correto.

8] A Constituição Federal proíbe qualquer forma de discriminação. O preconceito contra lésbicas, gays e travestis é um tipo de racismo. Denuncie a discriminação homofóbica.

Exatamente: a Constituição já proíbe esse tipo de discriminação, o que demonstra o absurdo daquela tal Lei da ‘Homofobia’ (que neologismo horroroso!). Os homossexuais possuem os mesmos direitos de qualquer cidadão, por isso esse projeto de lei adquire o aspecto da busca de privilégios por parte de certos grupos.

Agora, racismo? Homossexual é uma ‘raça’? Essa afirmação contraria a anaterior (7).

9] A Aids não é doença de gay. A Aids se transmite através do sangue, esperma e secreção vaginal. Só pratique sexo sem risco: camisinha sempre !

De fato, Aids não é doença de gay. Mas que possui incidência proporcionalmente muito maior entre os homossexuais, isso é fato. “No continente americano, cerca de 70% das mortes por aids ocorreram entre gays. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, os homossexuais masculinos têm até 30 vezes mais riscos de contrair o HIV.” O que vão querer fazer agora, contestar a própria realidade?

E dizer que camisinha elimina riscos na relação homossexual é apenas mais uma prova de má fé.

10] Conheça algumas celebridades que praticaram o homoerotismo ou foram travestis: Platão, Safo, Santo Agostinho, Leonardo da Vinci, Santa Joana Darc, Shakespeare, Miguel Ângelo, Mazaropi, Mário de Andrade, Santos Dumont, Imperatriz Leopoldina, Maria Quitéria, Gilberto Freyre, Martina Navratilova, Marina Lima, Elton John, Renato Russo, Angela Rorô, etc, etc.

Citar aí Santo Agostinho e Santa Joana D’Arc é simplesmente o fim da picada. Eu já li as “Confissões” de Santo Agostinho, sua autobiografia, e curiosamente ele não cita o assunto por lá. Vai ver Mott sabe mais da vida de Santo Agostinho do que o próprio.

Enfim, aí está a militância gay no Brasil.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Circo do Sauípe

Ocorreu, por esses dias, uma certa Cúpula da América Latina e Caribe. Fossem os discursos proferidos em um congresso circense ou em um concurso de piadas, aí fariam algum sentido. Sendo um encontro de chefes de Estado e de Governo, bem, dá para ficar preocupado. Ainda mais que eu ainda não tenha minha cidadania italiana – uma espécie de plano B. Mas isso é outra história.

O camarada Raul Castro foi presença marcante. Os governos da América Latina, incluindo o governo Lula, deram o atestado definitivo de apoio ao mais cruel regime da história das Américas. Os milhares de mortos pelo regime, os presos políticos, a falta de liberdade (tanto de consciência, quanto religiosa), a Igreja praticamente nas catacumbas, a miséria do povo cubano, enfim, todas as mazelas causadas pelos Castro foram esquecidas. De canalhas assassinos e tirânicos eles se tornam nossos ‘irmãos’, parceiros. Sem restrições. Afinal, são ‘heróis’ na resistência ao imperialismo. Em suma: o governo brasileiro está sendo cúmplice da perseguição política que ainda ocorre em Cuba.

Não poderia faltar a piada, digo, discurso, do ditador venezuelano Hugo Chavez. Ele decretou o fim do capitalismo e apresentou a alternativa ao mundo: o socialismo democrático. Alto lá: socialismo e democracia? Que raio de democracia pode haver no socialismo? Seria a ‘democracia’ cubana, com um partido apenas? Lá é uma beleza: o número de candidatos é exatamente o número de cadeiras do Parlamento. E a pessoa pode escolher o seu preferido, com a certeza de que não vai ‘perder o voto’, pois todos os candidatos já estão eleitos. Que maravilha! O modelo venezuelano também é fantástico, perseguindo e atacando a oposição. Não posso deixar de mencionar a experiência boliviana, exemplo de paz e concórdia nacionais. Que exemplo fantástico que nós, latino-americanos, estamos dando ao mundo! Misturando água e óleo! Unindo democracia e socialismo!

Mas Chavez está enganado. O capitalismo não morreu. Já o socialismo morreu, não sem antes ter ceifado 100 milhões de vidas. Como explicar tamanha sedução por uma doutrina morta que já deveria estar enterrada há décadas? A única explicação que encontro é que a paixão pelo socialismo seja uma espécie de necrofilia política. Uma obssessão louca por um sonho delirante: o Paraíso sem Deus.

Não deixem de ler “Os Demônios”, de Dostoievski.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Guerra na Espanha e democracia

Hoje passei em uma livraria e algo chamou minha atenção. Era um livro (o autor é Francisco Romero Salvado) que sobre a Guerra Civil Espanhola e, como é um tema que me atrai, resolvi dar uma folheada no livro. Um erro crasso, já que eu não havia tomado nenhum remédio contra enjôo. Apesar de não ter lido, correrei o risco e farei alguns comentários. Uma resenha do livro chega a dizer que “a história como ela realmente aconteceu” é contada ali. Vamos ver.
Logo de início há uma bizarra propaganda republicana, afirmando que a Guerra era, também, uma luta pela democracia. E os republicanos eram, é claro, os democratas na história. Será que esse cara é financiado por ex-agentes da KGB? Vai saber. O fato é que o autor esqueceu-se de alguns ‘detalhes’ que considero importante destacar. Evidente que não será uma análise ampla, mas apenas de um aspecto, a meu ver, essencial.

Não havia uma democracia legítima na Espanha pré-guerra. A Igreja Católica estava sendo duramente perseguida. Além desse claro desrespeito à liberdade de professar a fé, não havia o mínimo respeito à liberdade das consciências das pessoas. Os sacerdotes eram gravemente hostilizados, os bens da Igreja iam sendo confiscados, enfim, um caos.

Eclodiu a guerra, e então houve uma verdadeira barbárie. Igrejas foram queimadas, destruídas. Sacerdotes foram fuzilados aos montes e os que sobreviveram precisaram esconder-se. Enfim, a Igreja viveu novamente nas catacumbas. Evidente que os responsáveis por esse massacre foram os republicanos, chamados de ‘democratas’ pelo autor; especialmente comunistas e anarquistas. Só de sacerdotes, houve 7000 assassinatos. Para se ter uma idéia da proporção desse massacre, há atualmente 18000 sacerdotes no Brasil inteiro.

E o livro em questão não menciona nada disso.

Abaixo, um vídeo: imagens dizem mais do que palavras. Só peço que pessoas mais sensíveis não assistam, pois as imagens são fortíssimas.

Holocausto anti-católico na Espanha.

(Coloco apenas o link porque a imagem do vídeo que ficaria "povoando" meu blog é simplesmente pavorosa).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Ecochatismo

Desde os primórdios da ação humana a natureza vem sofrendo danos irreparáveis. Engana-se quem pensa que a ação destruidora do homem surgiu apenas com o advento da Revolução Industrial. Um exemplo, apenas: o leão da Mesopotâmia foi extinto ainda na época do Império Romano, e nunca mais houve notícias dessa espécie.

Vejo com bons olhos a crescente preocupação com o Meio Ambiente que surgiu ao longo das últimas quatro décadas. Notem que fenômeno semelhante, ao que me consta, só ocorreu na Idade Média, quando monges alteravam paisagens pantanosas e preocupavam-se em manter equilíbrio natural. Há ainda o salutar exemplo deixado por São Francisco, ainda famoso em nossos tempos.

O problema é que o 'ecologismo' de nossos dias difere radicalmente daquele praticado pelos monges e por São Francisco. Esses estavam radicados em uma visão do Cosmos baseada no cristianismo. O atual, na maior parte das vezes, não. Muitas vezes há a presença mascarada de uma visão panteísta do Universo. Aliás, o panteísmo não está fora de moda não, até Einstein era panteísta!

A maneira como certos grupos querem tratar os animais e a natureza, em detrimento do ser humano, denota uma distorção bizarra. Veja por exemplo o caso da expansão de áreas agrícolas e desenvolvimento tecnológico por meio de manipulações genéticas, notadamente os transgênicos. Muitos grupos são contrários a tais avanços e, por outro lado, preocupam-se com uma tal 'superpopulação' humana - que não passa de uma fraude. Nesse sentido, há uma ligação entre a 'defesa' da natureza e a promoção de meios anticoncepcionais, inclusive tratando o aborto como tal. Quer dizer, para valorizar a natureza, há um rebaixamento do ser humano como uma 'praga' para o planeta. Isso entra no contexto daquela Teoria de Gaia, desenvolvida há uns trinta anos.

Outro aspecto é o vegetarianismo radical. Proibir a morte de animais para o consumo humano é, a meu ver, um excesso terrível. Que seja uma opção pessoal, tudo bem. Que seja uma militância, aí há um exagero bizarro. O homem comer carne é tão antigo quanto andar pra frente. Aliás, o início das inovações tecnológicas, com o desenvolvimento de ferramentas, teve por finalidade inicial a caça para posterior consumo de carne. Evidente que hoje há meios para evitar um sofrimento desnecessário aos animais. E aqui está o grande ponto da questão: o erro não é matar os animais, mas fazê-los sofrer desnecessariamente. Essa é a posição assumida inclusive pelo atual Catecismo da Igreja Católica.

A distorção do ambientalismo fica ainda mais evidente na questão 'Tamar x Matar'. No Brasil, os embriões de tartaruga possuem mais amparo do que os embriões humanos. Afinal, o ser humano está 'acabando' com o planeta e as tartarugas estão quase extintas, qual o problema em matar uns embriões humanos em pesquisas né? Agora, embriões de tartarugas é crime! Este é nosso mundo...

Além disso, a degradação em larga escala é, a meu ver, fruto da dobradinha Revolução Industrial + Liberalismo. Esse último, ao dissociar as leis de mercado da lei moral (e foi o que aconteceu, pelo menos de fato) foi o fator determinante para uma exploração em larga escala não só da natureza, como do trabalho humano.

Com relação a questão da caça esportiva, a mesma não possui impacto ambiental significativo. Ao contrário da caça com finalidades comerciais. A morte em si de um animal não á algo que atente contra a moral natural, a não ser que haja crueldade. Os animais não possuem alma imortal, a característica distintiva do homem que o torna imagem e semelhança de Deus. E por isso a morte de um ser humano é sempre má, e a de um animal não.

Enfim, uma sadia visão de proteção à natureza está ligada, necessariamente, a uma visão cristã da Criação. É, sim, um dever prezar pelos recursos naturais, que são limitados, para assegurar a vida humana na Terra. Tanto que o Papa Bento XVI vem insistindo nesse tema com grande freqüência.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Prêmio Dardos


Este blog recebeu o Prêmio Dardos, por indicação do blog Miles Ecclesiae, e agradece a indicação.

O que é o Prêmio Dardos?

“Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.”

Há, todavia, algumas regras a serem seguidas:

1 - exibir a imagem do selo
2 - linkar o blog do qual você recebeu a indicação
3 - escolher outros 15 blogs aos quais se deve entregar o prêmio

Portanto, aí vão as indicações aos amigos:

1 - A Espectadora: Blog sobre cultura, arters, literatura, filosofia, religião. Um dos melhores que conheço.

2 - Deus lo vult! Blog de meu amigo Jorge Ferraz, sobre a Igreja Católica. Excelente e polêmico.

3 - Blog do Emanuel Jr.: Blog de um amigo advogado, que trata de temas como direito, filosofia e fé.

4 - Acarajé Conservador: Uns baianos apimentados que mandam muito bem no que escrevem.

5 - Per fas et per nefas: Blog de um amigo historiador que trata de temas variados, especialmente história eclesiástica.

6 - Borboletas ao luar: Blog com assuntos filosóficos e teológicos.

7 - Horas Extremas: Excelentes textos reflexivos.

8 - Lilases com Giz: Toda a sensibilidade e inteligência características das mulheres.

9 - Contra o Aborto: Luta das mais importantes em nossos tempos.

10 - Blog do Fernando: O mundo na visão do Fernando.

11 - Ecclesia Sancta: Blog sobre assuntos religiosos.

12 - Miscelâneas Multiformes: Assuntos - e agora fotos! - variadas. Muito agradável de se ler. Eu gosto bastante!

13 - Fazei o que Ele vos disser: A fé católica.

14 - Eles não sabem: Um jornalista desmascarando as barbaridades ditas sobre a Igreja.

15 - Ordinária mas bonitinha: Assuntos variados: virtudes, fé...





segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Salvem as alfaces!

A crise pela qual passa o mundo moderno possui alguns sintomas muito visíveis. As pessoas, especialmente os jovens, não têm mais causas para lutar. Se anos atrás a pessoa dava a vida pela fé, pela família, pela pátria, pelos amigos, hoje é difícil o jovem levantar-se do sofá para pagar as contas da família. Há uma desoladora falta de perspectiva, e o resultando são as causas mais malucas que vemos por aí.

Um exemplo clássico é o ativismo vegetariano - não o vegetarianismo em si. Se ele já foi uma opção no passado, e para alguns necessidade, hoje tornou-se uma ideologia. Matar um animal para comer é, para alguns, um crime gigantesco. E testes em animais então? Inconcebível. O que eu nunca vi foi uma alternativa razoável para substituir essa fase no desenvolvimento de medicamentos. Mas em nome da causa, tudo vale.

E por que raios gastar tanta energia para defender vacas, baleias e afins? Não que isso seja reprovável, pelo contrário. Convivo com animais há vários anos. Mas, há tantas causas urgentes que eu não compreendo esse ativismo todo. Educação, tolerância, vida humana, dar dignidade aos doentes, aos presidiários... é tanta coisa que eu fico admirado com a atenção dada às vacas e porcos. Bom, da minha picanha não abro mão.

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O Exército brasileiro mais uma vez mostra seu valor, em Santa Catarina. Sempre admirei os militares, e todas as virtudes que lá se aprendem. E é importante mostrar a verdadeira face do Exército Brasileiro, em tempo em que algumas pessoas querem humilhar os militares por erros de alguns no passado...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Brasileirices

Os brasileiros possuem algumas peculiaridades com relação aos demais povos, que não são comentadas nem em “Casa Grande e Senzala”, nem em “Raízes do Brasil”, nem em nenhuma outra obra do estilo. Isso ocorre pois a “Lei de Gerson” e outras características importantes de nosso povo passaram despercebidas por antropólogos, historiadores e ‘intelequituais’ (no melhor estilo Leonardo Boff). Vamos aos fatos.

A Super(des)interessante fez uma matéria, uns anos atrás, para malhar a Igreja... digo, para ‘investigar’ aspectos da história eclesiástica. Pois bem, o tema da vez era a história do papado. E foram consultados teólogos de ‘renome’. Em primeiro lugar, o brasileiro Boff, mas houve até convidado internacional: Hans Küng. Fala sério: poucos lugares no mundo devem ter o ‘privilégio’ de ter acesso aos palpit... digo, opiniões de tão renomados teólogos!

No final da década de 70 houve um simpósio na USP para comemorar os 100 anos do nascimento de Einstein. E a principal palestra era, obviamente, do maior físico brasileiro: César Lattes (inegavelmente um homem brilhante, merecia ter ganho o Nobel). E ele declarou: “Einstein cagou e sentou em cima” (sic!!!!!!!!!!!). Talvez tenha sido a mais original e inusitada homenagem a Einstein naquele ano.

Não poderia deixar de citar nosso presidente. Se Obama é formado em Harvard, Lula é formado pela vida. Que outro país tem a honra de ter seu governo capitaneado por uma pessoa cuja mãe nasceu analfabeta? Ou que desembarca em uma bela capital africana e declara, admirado: “Nem parece a África!”. Vai ver ele esperava ser recebido por leões e girafas, e sair cavalgando em uma zebra.

E, é claro, nosso maior motivo de orgulho: a seleção brasileira de futebol! A influência do futebol no país é tão grande que, daqui a pouco, as pendências judiciais serão resolvidas em uma partidinha rápida: dois vira, quatro acaba. Afinal, estamos no país do futebol (do inglês “football”, “foot”+”ball”, que é jogar bola com os pés)! Olá!

Afinal, o que esperar de um país de filósofos como Marilena Chauí e teólogos como Leonardo Boff? Aqui é o país dos 'intelequituais'!

domingo, 9 de novembro de 2008

Denúncia. Desabafo

Fiz a prova do ENADE hoje (afinal, se não fizesse não poderia pegar meu diploma). Vejam a questão 4 da referida prova:

As melhores leis a favor das mulheres de cada país-membro da União Européia estão sendo reunidas por especialistas. O objetivo é compor uma legislação continental capaz de contemplar temas que vão da contracepção à eqüidade salarial, da prostituição à aposentadoria. Contudo, uma legislação que assegure a inclusão das cidadãs deve contemplar outros temas, além dos citados.

São dois os temas mais específicos para essa legislação:
(A) aborto e violência doméstica
(B) cotas raciais e assédio moral
(C) educação moral e trabalho
(D) estupro e imigração clandestina
(E) liberdade de expressão e divórcio

A resposta é, claro, a letra "A". É um absurdo a afirmação de que o aborto é um tema que "assegure a inclusão das cidadãs". É um disparate contra o bom senso. É ideologia. O aborto não inclui ninguém: exlcui. Exclui aquele ser em formação que teria uma vida pela frente. Aquele ser é único, inclusive do ponto de vista genético; irrepetível. Enfim, porque eles não colocaram nessa questão a maravilha do aborto na Rússia, por exemplo? Lá, 64% das gestações terminam em uma clínica de aborto, e a população vem decrescendo à uma taxa assustadora: 1 milhão ao ano.

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Os americamos elegeram Obama para presidente. Mas o restante do mundo foi além: colocou Obama como o salvador da pátria, o homem, a lenda, o mito. Por que raios os brasileiros ficaram tão contentes com a eleição dele? Afinal, em projetos que seriam de interesse brasileiro, ele votou justamente contra esses interesses. Aliás, esperem e verão: as negociações na OMC tendem a ficar muito mais duras para o Brasil.

Ah, mas isso não importa! Obama é negro! Obama é jovem! Obama é o candidato da mudança! Da esperança!

Mudar o que, e como? Talvez nem o democrata tupiniquim mais roxo saiba. Esses progressistas adoram progredir sem saber exatamente para onde. Aliás, a cada eleição mudam de foco, e acabam por chegar a lugar nenhum.

Mas, para que refletir diante da obamia? Agora novos tempos virão! Todos irão depor armas, dar as mãos e cantar alegremente "Imagine"! Um novo mundo está nascendo!

Bom, acho que vou fazer algo mais importante do que pensar no novo mundo obamístico: alimentar o meu simpático dogue alemão.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Terror em Navarra

Sempre tive a impressão que o terrorismo fosse algo distante. Pensava que talvez pudesse preocupar-me com carros-bomba caso visitasse Jerusalém ou Bagdá. As imagens de 11 de setembro pareciam cenas de filme em minha mente, difíceis de serem uma realidade próxima. Mas isso mudou na semana passada, com o atentado à Universidade de Navarra.

Tenho um colega por lá, e sempre há vários brasileiros estudando nesta universidade (fundada há menos de cinqüenta anos por iniciativa de São Josemaria Escrivá). Assim que soube da notícia, enviei um email a ele, mas logo fui tranqüilizado. Ele não estava na instituição, no dia do atentado, mas seus amigos contaram que a explosão foi muito potente, dando a impressão de que colocaria alguns prédios abaixo. Mais: o carro-bomba foi colocado estrategicamente em um local de grande movimentação e, pelo horário da explosão, poderia ter ocorrido uma tragédia imensa. Meu colega diz que Deus protegeu a todos especialmente naquele dia.

O fato é que o ETA, mais uma vez, protagonizou essas cenas de covardia. Acusam eles de ser aquela universidade o centro espiritual e intelectual do que chamam de “Espanha centralista”. Tudo isso fez com que eu sentisse realmente, pela primeira vez, aflição com o terrorismo. Não dá para descrever a angústia, mas é como saber-se atacado pelas costas. Não há como defender-se. Ainda mais por ser uma agressão da qual você não faz idéia das motivações, nem de quem veio. É difícil imaginar covardia maior. A causa basca perde completamente a razão com a ação destes canalhas.

Naquele estacionamento de Navarra foram pronunciadas algumas das mais belas palavras do século XX. Por isso tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não: onde de verdade se juntam é no coração, quando se vive santamente a vida diária...Que distância entre o que foi dito lá e o eco pavoroso da explosão causada pelo ETA! A humanidade não precisa mais ouvir barulhos de bombas como aquela, mas sim dar atenção a palavras como as aqui citadas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uma idéia sobre felicidade

A vida humana é uma contínua busca pela felicidade. Pelo menos é o que diziam os gregos, e acho que é difícil discordar de tal proposição. Há, porém, algumas dificuldades nessa busca: muitas vezes as pessoas confundem felicidade com comodidade, ou então com frivolidades. Há também aqueles que erram grosseiramente, e assim que atingem a meta traçada descobrem a profunda infelicidade em que passaram a viver. O homem sabe de uma coisa: nesta terra não alcançará a felicidade em absoluto, por mais que a busque.

É interessante notar que sempre que traçamos uma meta, algo que desejamos muito, procuramos nisso alguma felicidade. Assim, um diploma universitário, uma viagem de férias ou um carro novo convertem-se em objetos desejados pela pessoa que, assim que os obtém, alcança um certo grau de felicidade. Mas nessa vida tudo se corrompe: o carro, que hoje é novo, amanhã estará velho e desprezível; a viagem terminará e isso traz um sentimento de melancolia; a carreira profissional pode tornar-se motivo de frustração. Um cara que quer se alegrar em uma bebedeira terá que suportar a ressaca do dia seguinte. Por que raios sempre que a pessoa busca a felicidade acaba encontrando traços de sofrimento?

A dor é, sem dúvida, a grande contradição da vida humana. É possível ser feliz sofrendo? Se por um lado a vida é a busca pela felicidade, e por outro não podemos escapar do sofrimento... então o homem será necessariamente frustrado? Acredito que a pessoa que foge à essas questões esteja sendo covarde. Há algumas respostas coerentes; dessas, há aquelas que são inaceitáveis.

A primeira tentação é cair em uma espécie de niilismo, uma indiferença perante a vida. E curtir as sensações do momento: a idéia é sentir-se bem, já que não é possível estar bem. Eu não posso concordar com tamanha leviandade: levar essa posição às últimas conseqüências seria ou cair em um hedonismo ridículo, ou suicidar-se. Ambas as posições são covardes, em minha opinião.

Mas então como conciliar a felicidade com o sofrimento? Não há aí uma contradição? Quase. O homem moderno tem um afã de querer dominar a vida, mas isso não é possível. Há algo de misterioso aqui. E é justamente essa a saída para o dilema aqui proposto: a vida é um grande mistério. Não adianta fazer birra, e querer uma explicação científica, precisa, para o que vivemos; simplesmente não há. Hoje está tudo uma maravilha, mas amanhã perde-se uma fortuna na bolsa de valores e a pessoa cai na miséria. O que ela fez para merecer isso? Nada. O que dizer então dos doentes, ou dos que são vítimas de crimes. Eles mereciam isso? Não! Como explicar isso? Não sei, é um mistério: esse é o grande ponto.

E aqui está um dos paradoxos de Chesterton. Enquanto o materialista, o niilista e sei-lá-mais-o-quê-ista se descabelam tentando explicar o insondável – ou simplesmente ignorando essas questões -, o místico sabe que pouco pode para explicar sua própria existência, e tampouco tem condições de ser o senhor da sua vida. Admitindo esse grande mistério, o que é contraditório torna-se simplesmente paradoxal. Mas um paradoxo verdadeiro. A única explicação convincente para o dilema estaria em uma realidade onde não houvesse mais esse sofrimento. Basta aceitá-la e é possível encontrar sentido em todas as realidades da vida, especialmente aquelas que parecem incompreensíveis. Se é verdade que o sofrimento é inevitável, também é verdade que buscamos a felicidade e teremos que encontrá-la. Mas também é preciso admitir a transcendência da vida. Mesmo que não seja uma resposta ‘científica’, talvez seja a única satisfatória.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Suicídio demográfico

Saíram alguns dados, recentemente, sobre a taxa de natalidade brasileira. A revista “Veja” só faltou contratar um trio elétrico e fazer uma festa para celebrar tal fato. Os números são, a meu ver, assustadores: a média já é menor do que dois filhos por casal. Ou seja, de modo geral os casais estão tendo um ou no máximo dois filhos. O resultado é que em trinta anos haverá mais idosos do que jovens. Uma bomba previdenciária, além do que faltará mão-de-obra, e a economia irá sentir o impacto. Enfim, nesse aspecto os efeitos serão catastróficos.

Mas o pior não é isso. Vários países da Europa já estão com taxas de natalidade iguais ou menores do que a brasileira, e inúmeros governos precisaram criar políticas de incentivo à natalidade. Afinal, é muito bom que haja dinheiro, indústrias, belas cidades em um país, mas também é importante que haja gente por lá. O mais triste, porém, é verificar o que está ocorrendo com as famílias européias, e esse é um dado pouco comentado. Isso em qualquer país com taxas de natalidade baixíssimas, mas cito o caso da Suécia.

Por lá, a maioria das famílias possui um filho, apenas. Os casais optam por não terem mais filhos por inúmeros motivos: levar adiante a carreira profissional, possibilitar melhores condições de vida ao herdeiro, ter estabilidade familiar, dentre outros. São preocupações aparentemente justas, se não estivessem inseridas em um certo contexto, que é bastante assustador. O Papa Bento XVI disse, sobre o assunto, que a Europa parece estar fechada à vida, à juventude, e, portanto, ao futuro. Seria isso medo? Egoísmo, simplesmente? Indiferença?

O fato é que em muitas famílias européias não há mais a figura de tios. Nem de primos. Como muitos casais optam por não ter mais de um filho, as festas familiares tendem a ser assim: uma criança, seus pais e seus quatro avós. Afinal,cada casal de avós também já havia optado por ter um filho, apenas. Eis o quadro das famílias: vários velhos, alguns adultos e uma criança. É ou não é se fechar ao futuro? Que perspectiva esperar de uma sociedade que, voluntariamente, parece querer rumar para seu próprio fim?

Não troco minhas festas familiares por nada. Quando se reúne minha mãe, com alguns de seus nove irmãos, mal cabe o pessoal na casa. É aquele aperto, um monte de crianças correndo para lá e para cá... e uma grande alegria. É o futuro da família ali, aos nossos olhos. Trocar essa alegria toda por uma carreira profissional, ou por um carro 0 km no fim do ano, ou por seja lá o que for vale à pena? O pior é que a Europa, como um todo, já está pagando as conseqüências por suas escolhas erradas: há lugares com forte tendência à islamização. Enfim, é tempo de as famílias refletirem com serenidade para avaliar onde realmente querem chegar. E que se perceba, finalmente, que é hora de se incentivar à vida, e não fechar de vez as portas à ela e ao futuro.

domingo, 12 de outubro de 2008

Cadê a verdade?

Esses dias coloquei um excelente blog entre meus links, mas a autora mostrou que já havia criticado um texto meu e que entenderia se eu o retirasse da lista. Não só mantive, como recomendo vivamente sua leitura. A discordância no texto era mais com relação a aspectos acidentais. Mas a questão que acabou chamando minha atenção é um pouco mais simples: o fato de eu poder errar em meus posicionamentos, e ter que retificar posteriormente. Contudo, nem todos aceitam isso com tanta naturalidade.

Quem participa de listas de discussão na internet, ou já foi a algum debate universitário, sabe bem do que estou falando. Quem está errado, por mais evidente que seja o erro, não o abandona de jeito nenhum; quem está com a razão faz questão, muitas vezes, de humilhar o seu interlocutor. Essa postura arrogante induz a pessoa errada a não retificar, pois acaba gerando um grande ressentimento com o outro. A relação do ser humano com a Verdade e as verdades é mais complicada do que deveria devido à desordem nas paixões. É como se, ao invés de enxergarmos com nitidez, víssemos apenas vultos. Dois elementos são essenciais para superar essa dificuldade: fé, seja ela humana ou sobrenatural, e humildade em reconhecer essa limitação.

Aliada a essa desordem da natureza humana está a péssima educação de nossos dias. Como há uma excessiva liberalidade com relação aos nossos impulsos – o famoso ‘faça o que der na sua telha’ –, as pessoas possuem uma vontade muito fraca e ficam abandonadas a seu temperamento e amor próprio. É como um barco à deriva, sem remos nem velas: sabe-se lá onde vai parar. O mais comum acaba sendo a pessoa fechar-se em si mesma, em seu mundinho e com suas idéias. É evidente que qualquer posicionamento distinto é tido como terrível agressão a seus ‘princípios’, os quais, aliás, mudam de direção como o vento.

Acredito que seja verdadeiro e correto o que escrevo aqui; mas também é certo que posso estar equivocado em determinados aspectos. Esse conhecimento de nossas limitações faz com que assumamos uma postura adequada com relação às idéias. Traz a certeza de que a Verdade existe, mas que é possível que tenhamos dificuldades em alcançá-la. Essa dificuldade deve levar-nos a compreender o outro, que está no erro, e ajudá-lo a se corrigir. Sempre compreendendo a dificuldade inerente a esse processo, afinal todos sabemos o quanto é duro abrir mão de certas posturas. Ainda mais se elas estiverem arraigadas após anos de reflexão equivocada. O outro deve ser tratado como um amigo, e não como um inimigo a ser esmagado como uma barata. Além disso, ajuda se reconhecermos que, muitas vezes, precisamos confiar no juízo de outras pessoas ou na autoridade de alguma instituição, e aí a fé é imprescindível. Essa idéia de um homem infalível, que não pode ser corrigido jamais, é uma loucura de arrogantes que só pode levar à ruína pessoal. E a uma chatice terrível.

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Pedro Cardoso escreveu um maravilhoso manifesto contra a nudez de atores. Eu já havia publicado um texto sobre o tema, e se alguém não gostou do que escrevi, que reflita então as corajosas palavras desse ótimo humorista: http://todomundotemproblemassexuais.zip.net/

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Espero que o novo layout do blog tenha tornado sua visualização mais agradável.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O "Boy Love Day"

Não quero emitir muitos juízos ao longo desse texto. Procurarei apenas expor alguns fatos e tentar provocar uma reflexão sobre um processo que vêm alterando profundamente alguns costumes, e até que ponto desejamos que esse processo chegue. Ano passado tomei conhecimento da existência desse movimento por meio de um amigo que, da Itália, indagou se eu sabia algo de uma tal de Parada do “Orgoglio pedofilo”. A princípio não conseguia acreditar na existência de um movimento organizado nesse sentido, mas a surpresa foi tremenda ao encontrar as referências na internet.

O “International Boy Love Day” é “celebrado” no solstício de verão, em cada hemisfério. Não tem, nem de longe, o frenesi de uma Parada Gay, mas é um movimento que incomoda. O objetivo do mesmo é gerar uma reflexão “séria” sobre o envolvimento amoroso de homens mais velhos com garotos. Segundo o site oficial, a visão da sociedade sobre o assunto é muito enviesada, maliciosa mesmo. E enaltece a coragem dos garotos e dos homens que se envolvem nesse tipo de relacionamento. Além disso, eles invocam o direito à Liberdade de Expressão para assegurar uma discussão séria e sem preconceitos.

Não é muito difícil discordar de tudo isso. Se já há pais que consideram problemático o fato de um marmanjo de 30 anos namorar com uma garota de 14 anos, quem dirá o fato de o mesmo marmanjo querer namorar um garoto, também com 14 anos. Hoje a sociedade não aceita, de modo algum, esse tipo de envolvimento. Mas é aqui que o argumento desse grupo ganha terreno, infelizmente. Atualmente há uma concepção amplamente difundida de que a moral é fruto de convenções sociais. Portanto, seria possível que a mentalidade da sociedade sobre o assunto mudasse e, em um futuro próximo, esse tipo de relacionamento passasse a ser encarado com naturalidade.

Na prática, esse processo ocorreu com a visão da sociedade sobre a homossexualidade. Claro que houve muitos exageros sobre o assunto ao longo da história, mas o fato é que atualmente as relações homossexuais são encaradas com naturalidade, ao ponto de alguns quererem equiparar as uniões matrimoniais com as homossexuais. Não entrarei aqui na questão, quero apenas destacar o processo: um comportamento que antes era encarado como contrário à natureza humana é hoje amplamente aceito, e muitas vezes incentivado. E é um processo análogo que propõe o “Internartional Boy Love Day”: que a sociedade deixe de lado seus preconceitos e aceite o amor entre rapazes e homens mais velhos.

E, reforçando essa tendência, já há na Holanda um partido político que defende essa cartilha do amor entre homens e meninos – e outras coisas mais como sexo em público e liberação de drogas pesadas -, e eles possuem até site: http://www.pnvd.nl/. Penso ser o momento adequado para refletir: até que ponto a moral é definida pela cultura? Será que, por convenção popular, poderíamos simplesmente mudar uma tradição de milênios, taxando-a, além de tudo, de retrógada, reacionária, preconceituosa? Tenho a séria preocupação de que esse tipo de argumento, devido à sua inconsistência, abra graves precedentes e permita, muito em breve, a defesa das maiores maluquices. Afinal, já há algumas evidências de que a tendência é essa: permitiram o aborto, agora há quem proponha infanticídio de crianças de até 1 ano de idade. E por aí vai. A impressão que tenho é que ou assumimos princípios – esses que não mudam com o tempo – ou qualquer coisa poderá ser defendida como legítima, a fim de livrar-se do jugo opressor de uma certa moral reacionária. Como concluiu Aliocha após escutar o conto “O Grande Inquisidor”, de seu irmão Ivan Karamazov: então tudo é permitido.

domingo, 28 de setembro de 2008

Sobre cães e mendigos

No campus da universidade na qual estudo há vários cachorros abandonados. São vira-latas legítimos, sujos e pulguentos, mas muito obesos. É que as cozinheiras do restaurante universitário dão boa quantidade de sobras aos cães, e eles acabam tendo uma vida de rei por lá. É muito comum também encontrar mulheres dando carinho aos cães (imundos e alguns sarnentos), com muita valentia para dar carinho aos animaizinhos. Também diria que é comum encontrar pessoas que, ao toparem com um filhote de cachorro abandonado, levam-no para casa, dão comida e até mesmo adotam a ferinha. A mentalidade politicamente correta exige que tornemos a vida dos animais mais humana (sic).

O mesmo carinho não existe quando um mendigo é avistado. Ao contrário dos cães abandonados, que viram centro de atenção e carinho, o mendigo é uma figura que incomoda. As pessoas fingem que ele não está ali, e são pouquíssimos os que têm coragem de encarar um morador de rua nos olhos. As desculpas são várias: medo de assalto, pressa... a mesma coragem para acariciar um cachorro sarnento não existe no momento de dar atenção ao mendigo. Eu posso citar vários conhecidos que acolheram cães abandonados em suas casas; quantos conhecidos que levaram um mendigo em casa, que não seja para acolhê-lo, mas para permitir um banho, ou uma refeição?

Essa realidade é arrasadora, é um claríssimo sintoma de algum problema muito grave em nossa sociedade. Os cães que moram na rua são tratados muito melhor do que os homens moradores de rua – o que já é, “de per si”, uma clara violação da dignidade dessas pessoas. A mentalidade politicamente correta domina a sociedade, e torna os homens menos humanos. As preocupações estão perdendo completamente o sentido: enquanto há homens dormindo no chão frio e duro das ruas, muitas pessoas gastam muito dinheiro e energia em campanhas para achar lar para cães. Os embriões de tartaruga marinha são mais protegidos do que os embriões humanos. As árvores da Amazônia são mais lembradas, na mídia, do que as crianças órfãs. A morte de ursos polares causa mais comoção do que os centenas de milhares de mortos no genocídio sudanês – fato sistematicamente ignorado pela mídia e vergonhosamente encoberto pela diplomacia brasileira.

O politicamente correto é fruto da incompreensão de vários princípios que regeram as relações humanas por séculos, causando freqüentemente uma bizarra inversão de valores. O valor da dignidade humana depende, necessariamente, da aceitação e conhecimento da natureza humana. O problema é que a modernidade quer negar que haja tal natureza, e aí o ser humano fica a mercê do que for mais popular no momento. E com certeza é mais agradável dar atenção a um cachorro do que a um mendigo. Sem dúvida, nossa consciência não sente culpa alguma com um cachorro ali, mas um outro ser humano estar em condições sub-humanas é fato terrivelmente perturbador. E por isso eles costumam ser ignorados. E a sociedade do politicamente correto, ao invés de encarar essa triste realidade de frente, prefere gastar suas forças em conseguir lares para cachorros e árvores para a Amazônia. Os mendigos? Enquanto eles não incomodarem pedindo dinheiro para comer, ou seja lá o que for, as pessoas vão continuar iludindo suas consciências tratando cãezinhos e lutando pelas baleias do Pacífico Sul. E com ar triunfalista por estarem contribuindo de modo significativo para o progresso humano rumo ao novo Éden na Terra – pelo menos para os cães.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A sociedade da ciência

Enquanto alguns aguardam o fim do mundo devido ao acelerador de partículas LHC, a única preocupação que me passa com relação a esse assunto é sobre o modo adequado de se acender charuto: com fósforos ou com um bom zipo? O detalhe é que nem fumante eu sou, mas creio que essa questão do charuto seja mais importante para mim do que a possibilidade de o fim do mundo começar na Suíça. Está certo que Hans Kung é de lá, mas ele pode a qualquer momento abdicar de suas heresias...

Antes que algum apressadinho venha me acusar de, sei lá, ‘obscurantista religioso’, ‘inguinorante’ (sic), desejar a minha morte (como alguns fazem nos comentários) ou considerar-me um anti-anti-tabagista delinqüente, explico-me. Há toda uma celeuma criada em torno desse LHC que imagino que ele, sozinho, possa ganhar o Oscar, o Prêmio Nobel e ser capa da próxima revista ‘Caras’ como personalidade do ano. Os meios de comunicação já estão falando mais nesta máquina do que no último jogo da seleção brasileira. E olha que estamos no país do futebol! Olé!

Há ainda um fenômeno curioso, que poder-se-ia chamar ‘efeito LHC’: agora todos querem dar palpites sobre Física Quântica. O novo teor das conversas de bar, dessas de happy-hour, é o seguinte: primeiro fala-se do trabalho, depois de mulheres, depois de futebol, e depois, é claro, sobre o LHC e a Teoria de Hawking sobre os buracos negros. Tudo na maior naturalidade possível. Não importa se o cara não saiba absolutamente nada sequer sobre Max Planck. O fato é que o sujeito sente-se na autoridade de decretar o apocalipse para breve. E há quem diga que isso tudo é resultado dos ‘divulgadores da ciência’ que apareceram por aí nos últimos anos, encarando esse fenômeno de modo positivo.

A ciência tem sim um papel fundamental em nosso mundo moderno, mas parece que a sociedade está colocando ciência e cientistas como uma espécie de messias redentor. Não dá, isso é ir além do próprio fim da ciência. Esse experimento realizado no LHC visa comprovar algumas teorias que, de fato, poderão ajudar a dar explicações para determinados fenômenos. Essa história dos buracos negros, por exemplo: se Hawking estiver correto, há a possibilidade de surgirem pequenos buracos negros que desapareceriam rapidamente. Ou seja, nada de Apocalipse. Também estão procurando uma partícula elementar, que é chamada de Bóson de Higgs. Dois comentários: jamais chamaria um filho meu de Bóson e; o próprio Stephen Hawking apostou cem libras, dizendo que não encontrarão a partícula. Claro que ele pode perder a aposta.

Se provarem que essas teorias estão corretas, ótimo! Que influência isso terá em minha vida prática em médio prazo? Nenhuma. Também é importante que as pessoas lembrem que são isso: teorias. São explicações de fenômenos naturais que, futuramente, podem ser suplantadas por explicações mais adequadas. Por exemplo, não é que a mecânica newtoniana esteja ultrapassada; pelo contrário, ela descreve de modo preciso fenômenos em nosso mundo macroscópico. Mas não funciona bem no mundo microscópico, e aí entra em cena a Física Quântica. Por isso que devemos ter em mente que a ciência não vem aí para buscar a Verdade (papel da filosofia), mas pode fornecer ferramentas muito úteis nessa busca. Espero que a sociedade saiba, enfim, dar a ciência seu verdadeiro valor, e que a mídia pare de noticiar o assunto da forma como vem sendo feita. Isso é péssimo para a própria ciência, pois ela frustrará os que esperam mais dela do que deveriam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cemitérios já!

Um dos grandes desejos do homem moderno é abolir completamente a morte da sociedade. O exemplo máximo do absurdo a que isso pode chegar foi a proibição dos sepultamentos públicos na Holanda. Merece também menção honrosa a eliminação dos cemitérios humanos em San Francisco. Lá só existem cemitérios de animais de estimação e talvez de veteranos de guerra. Há um verdadeiro horror em lembrar, de alguma forma, a morte das pessoas com as quais convivemos. Talvez seja por isso que a nova moda seja a cremação, mas explico isso adiante.

Desde pequeno meu pai levava eu e meus irmãos ao cemitério para visitar os túmulos de alguns parentes, especialmente meu querido avô paterno. O fato de sair de casa e ir até o cemitério é uma demonstração inequívoca de amor. Ir lá, acender uma vela e rezar pelos meus antepassados, além de garantir uma sepultura digna a eles, bem cuidada, e com flores, mostra que veneramos a sua memória. E, acreditem ou não, a sociedade humana está baseada, em boa parte, na memória.

Uma diferença significativa entre o ser humano e os demais animais é que fazemos história e os bichos não. E a História é, basicamente, memória. Esta traz consigo a morte, inexoravelmente. Só existem heróis porque eles morrem, e assim não estão mais passíveis de erros. A morte é o único marco definitivo da vida humana, aquele que crava os atos da pessoa na história, sem retorno. Querer esquecer a morte daqueles que amamos é profunda falta de amor. Já esquecer a morte daqueles que admiramos é esquecer a própria humanidade.

E os cemitérios são o símbolo humano mais significativo para a morte. Ali o presente se encontra com o passado, por meio de nossas memórias: seja para venerar nossos heróis ou nossos amores que não voltam mais. Querem abolir os cemitérios por questões de saúde pública, dizem. Afinal, pode poluir os lençóis freáticos. Concordo. E por acaso, em nome da natureza, vamos abolir uma parcela significativa da memória da humanidade? A memória familiar depende, e muito, dos cemitérios. A memória nacional, por assim dizer, também. Funerais são marcos da civilização humana. Não podemos deixar um marco fundamental da sociedade humana e de várias religiões ser renegado dessa forma: cemitérios já!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os novos sacerdotes

Um amigo meu, astrônomo, estava comentando recentemente sobre um documentário chamado “O Universo de Stephen Hawking”. Não há dúvidas de que o conteúdo do mesmo, do ponto de vista científico, é impressionante. O que dá pena é a pretensão de alguns cientistas chegaram à alçada de verdadeiros deuses, quando muito poderão ser sacerdotes de uma velha nova religião, que coloca o homem e seu conhecimento no centro do universo.

Na mentalidade contemporânea, um ‘fato cientificamente comprovado’ é incontestável. Se for anunciado na televisão algo do tipo “cientistas descobrem que cafeína faz mal por isso, aquilo e assado”, no dia seguinte uma verdadeira multidão deixa de lado o seu cafezinho. Caso um outro grupo de pesquisadores descubra, no mês seguinte, que a cafeína é responsável por vários benefícios à saúde, nova legião de viciados em café surge. E vai alguém dizer que cafeína faz mal: “não faz não, é cientificamente comprovado”. Nem o fato de que na semana passada fosse cientificamente comprovado o contrário, a fé do homem moderno na redenção pela ciência é irredutível!

É claro que todos esses avanços científicos trazem enormes benefícios à humanidade. Mas a mentalidade cientificista, supervalorizando a ciência ao ponto de uma crença religiosa, extrapola o limiar do bom senso. Que bem moral, imediato, por assim dizer, a Teoria das Cordas traz para a vida de um homem? E a Relatividade Geral? Por acaso alguém torna-se melhor por saber Cálculo Diferencial e Integral?

A ciência não pode ser comparada a qualquer tradição religiosa. Essas sim incitam o homem a praticar virtudes, a viver retamente e a buscar o bem comum. O papel da ciência está em outro âmbito, e sua função é, a grosso modo, trazer explicações para fenômenos observados no Universo, e não decretar dogmas como querem alguns. Assim, não é que a mecânica newtoniana esteja errada. Ela apenas funciona bem para alguns fenômenos. No mundo microscópico suas equações perdem validade e a Mecânica Quântica traz uma outra explicação, adequada a essa realidade. E assim é com toda teoria científica: não busca verdades, mas explicações que sejam verdadeiras e adequadas dentro de um contexto.

A busca da Verdade é papel da Filosofia. Uma das catástrofes do pensamento moderno é o fato de muitos cientistas assumirem o papel de filósofos, deixando de lado a busca da Verdade e dizendo bobagens inconcebíveis. Pascal e Leibniz devem pular em seus túmulos a cada sentença dogmática de um Dawkins. Se ele não acredita na liberdade humana e em outras verdades elementares, isso é um dogma para ele e seus fiéis, não para mim. Eu é que não vou fazer sacrifícios para a Deusa Razão, como queriam os iluministas, pois o grande problema disso é que a vítima a ser imolada é o bom senso.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Syrinx

... the massive grey walls of the temples rise from the
Heart of every federation city. I have always been awed
By them, to think that every single facet of every life is
Regulated and directed from within! our books, our music,
Our work and play are all looked after by the benevolent
Wisdom of the priests...

We’ve taken care of everything
The words you hear the songs you sing
The pictures that give pleasure to your eyes
Its one for all and all for one
We work together common sons
Never need to wonder how or why

Alguns amigos meus relataram uma palestra assistida por eles e que usarei como base para fazer alguns comentários. A palestra foi proferida por um doutor em educação física, que trabalhou em um grande time de futebol; o doutoramento dele foi obtido em Moscou, em plena era soviética. É fato que os russos ainda são uma grande potência no esporte, e isso justifica a ida desse profissional à URSS. Alguns incidentes contados por ele, sobre lá, são impressionantes.

Não quero saturar o amigo leitor com fatos de amplo conhecimento, como por exemplo a distribuição de comida e a impressionante falta de variedade de produtos, sendo que todos consumiam as mesmas coisas, sem muita chance de escolha – repare que os russos circulavam de Lada por aí, e quem em sã consciência escolheria um Lada para dirigir? As escolhas, obviamente, eram feitas pelo Partido – afinal, em um mundo onde as liberdades dos cidadãos são restringidas em nome da Revolução, e no qual não há competição, que diferença faz você ter um ou dois pãezinhos, ora bolas... O mais interessante dessa palestra, pelo que me foi relatado, foi a experiência de dois acadêmicos soviéticos que tiveram a oportunidade de conhecer o Brasil devido à participação em um congresso.

O brasileiro quis então, após anos morando na URSS, mostrar aos colegas russos algumas coisas que não havia por lá. Estando em pleno Rio de Janeiro, levou-os a um supermercado; assim que chegaram lá, os soviéticos entraram em verdadeiro estado de choque, ou algo muito próximo disso. Ao ver as pessoas entrando e saindo, as cores, os produtos, eles não acreditavam nos próprios olhos: era um mundo diferente daquele em que viviam, na URSS. Logo o amigo brasileiro entrou, pegou um cesto para as compras e explicou-lhes que ali eles poderiam escolher os produtos que quisessem, sendo que o pagamento seria efetuado na saída. Imagino o choque dos russos, acostumados a simplesmente receberem do Estado sua ‘ração’: os brasileiros escolhiam o que queriam comer, eram livres para isso!

Tanto que, a certa altura, pegando os produtos na mão para escolher, ou talvez apenas para vê-los, um dos russos não pôde conter as lágrimas. Lágrimas de alguém que foi enganado pela máquina de propaganda soviética: afinal, como o ‘mundo capitalista’ poderia ser tão ruim, se as pessoas podiam escolher o que comer? Ele percebeu que em Moscou não era livre, pois a liberdade – em algo que muitas vezes consideramos banal, – causou-lhe esse choque.

O brasileiro, porém, quis mostrar que nem tudo era tão belo assim, e levou os colegas a uma favela. Eles, contudo, não ficaram tão chocados com o que viram; logo repararam em algumas antenas parabólicas e afirmaram que não estava tão mal assim, não. Curioso. Talvez tivessem descoberto o valor da liberdade e, mesmo na pobreza, reconheceram que possuir esse bem é muito precioso. Sei lá, ou talvez já tivessem visto mais miséria na URSS, não tanto material, mas espiritual, uma miséria interior. Quem sabe?

Look around this world we made
Equality our stock in trade
Come and join the brotherhood of man
Oh what a nice contented world
Let the banners be unfurled
Hold the red star proudly high in hand

Por acaso é bom que eu abra mão de minha liberdade de escolher, seja lá o que for, em nome de um suposto bem comum? Pois se eu quero jantar pizza ou arroz e feijão, a decisão é minha, dentro de minhas possibilidades. Do mesmo modo eu escolho onde vou morar, que roupa vestir, o que escutar, o que escrever aqui, ou o que ler; o que vou estudar... enfim, a partir do momento em que abrimos mão de uma dessas liberdades, e depois de outra, e depois de outra... para que alguém – o Estado – decida o que devemos fazer, ou então o que podemos fazer, em nome do suposto ‘bem comum’, entramos em um caminho que conduz, certamente, ao totalitarismo. Hayek comenta isso muito melhor do que eu, não tenham dúvida.

No mais, eu pego essa estrela vermelha que alguns erguem orgulhosamente e jogo no lixo. Aqui, pelo menos, eu posso fazer isso sem o risco de ir para algum campo de reeducação...

Let them all make their own music
(…)
Listen to my music
And hear what it can do
There’s something here as strong as life
I know that it will reach you

*****

Os versos que acompanham meu texto são de autoria de Neil Peart, líder da banda Rush e maior letrista da história do Rock. São pedaços da música '2112', que poderia muito bem ser chamada de '1984'.




quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vivendo a vida seriamente

Recentemente adquiri a primeira edição da revista “Dicta & Contradicta”, que é excelente. Um dos ensaios mais marcantes para mim é a transcrição da última aula de Bruno Tolentino. Não pretendo comentá-la, mas há uma passagem em que Tolentino cita uma idéia sensacional de D. Giussani: as pessoas levam muitas coisas de suas vidas a sério, tais como trabalho, família, estudos... mas é hora de começarem a levar a vida a sério. Confesso que essa passagem causou uma perturbação em mim, e passei um tempo refletindo sobre o assunto.

O mundo moderno oferece muitas facilidades para a vida das pessoas, que acabam criando um ambiente de comodismo impressionante. O sofrimento chegou a ser abolido da mentalidade moderna – muito embora na prática esteja tão presente como nunca, e sempre estará. O homem contemporâneo possui umas poucas preocupações, muitas vezes relacionadas à dinheiro e satisfação pessoal. Assim, surge uma preocupação desordenada, em muitos casos, com o trabalho. Recente pesquisa mostrou que mais da metade dos executivos brasileiros bem-sucedidos são frustrados em suas famílias. E por quê? Ora, por dar mais atenção ao trabalho do que à esposa(o) e aos filhos. Então aparece aquele empresário muito bem-sucedido, no seu terceiro casamento, e que não vê metade dos filhos crescerem. É feliz? Não sei, tenho lá minhas dúvidas... Mas penso que ninguém duvida que essa situação está longe do que muitos almejam por felicidade.

Assim é também com aquele estudante que tem muito tempo para estudar. E ele está certo em parte, afinal poucas coisas são tão importantes quanto o estudo na vida da pessoa. Mas, calma lá!, não é devido aos estudos que a pessoa vai excluir de sua vida outros aspectos importantes. Logo, é complicado acreditar que um estudante não tenha tempo para visitar um hospital, ou para ser voluntário em algum trabalho social, até mesmo para visitar sua avó doente. A verdade é que é muito mais cômodo ficar fazendo um relatório em casa, e além disso sobra muito tempo para coisas que ele talvez julgue mais importante do que ajudar os outros, como ficar no MSN, dormir ou até mesmo tomar uma cerveja.

Qual o problema com os dois exemplos acima: por acaso é ruim ser um profissional sucedido ou um bom estudante – com boas notas? Não, muito pelo contrário: devemos almejar por levar nossas potencialidades ao máximo, todo aquele papo de ser o melhor que pudermos. Mas nossas vidas não se resumem – não devem resumir-se! – em estudar muito para conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro para depois poder ligar para a mãe e dizer: “olha, mamãe, comprei um carro 0 km!”. A vida não é apenas isso: precisamos de tempo para os amigos, para a família, para quem precisa, para refletir, para rezar... E aí entra a idéia de D. Giussani: não é questão de “ah, agora é a hora do bom profissional entrar em ação”. Então, chega o bem-sucedido empresário em casa, fica na chapelaria, e dá lugar ao “paizão de família, amado e que dá muito amor”. Depois, entra em cena o “amigão do Chopp”, presença certa nos happy-hours. Não dá! Viver assim seria abdicar de nossa própria identidade, e ser como atores: ora interpretamos um papel, ora outro. Por melhor que seja a “interpretação”, não haverá a coesão necessária, a unidade de vida. É como em um teatro mesmo: o ator, por melhor que interprete determinado papel, jamais será o próprio personagem.

Levar a sério a vida talvez seja deixar de lado esse teatro, essa artificialidade, esse egoísmo. Já não é mais tempo de ser bom profissional, bom pai, bom aluno, bom amigo. Essa ladainha cansou. Seremos bons em cada aspecto da vida se buscarmos o bem, ou mais ainda, o Bem. Aí sim a pessoa pode melhorar, crescer em virtude, ser melhor, com um crescimento integral, homogêneo. No fundo, é preciso assumir um grande risco: sair dessa bolha de comodidade e fazer um acordo com a vida. Ela nos garante a felicidade, desde que saibamos assumir os riscos – contrariedades e sofrimentos – que ela nos oferecer. Ou isso, ou ficar nessa mesmice entediante do bom isso, bom aquilo... e nunca chegar a ser bom de verdade, no máximo bom nissou ou naquilo, mas medíocre de um modo geral...

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Liberdade e liberdades

Não são todos os atos humanos que precisam de justificativas; na maior parte das vezes basta invocar o senso comum e a tarefa está resolvida. Assim é com questões como a monogamia, a família, a religião e a propriedade privada. É natural que toda pessoa tenha suas convicções e faça escolhas na vida. Ainda mais em tempos onde as pessoas sentem-se mais livres do que nunca, menos para viver de acordo com princípios religiosos, sejam eles cristãos, judeus, muçulmanos. Aí não é o caso de usufruir da liberdade, mas sim de perdê-la – é o que dizem. Quanto a mim, a idéia geral é que sigo a uma série de imposições absurdas vindas de Roma, e que no fundo abri mão de minha liberdade.

A palavra “liberdade” é tão mal utilizada que hoje parece ter perdido completamente o seu sentido. Por exemplo, um dos argumentos mais utilizados pelos abortistas faz referência à liberdade da mulher em decidir sobre seu próprio corpo. De fato, as pessoas são livres para fazer muitas coisas no seu corpo, desde uma tatuagem até um corte de cabelo ridículo. O detalhe é que o feto não é parte do corpo da mulher, mas em nome da “liberdade” isso é omitido e segue-se adiante... e a lista desses supostos direitos é imensa: desde fumar maconha a plantar bananeira no Everest. Mas a minha questão é: a que leva isso tudo?

A impressão que tenho é que a sociedade, especialmente a juventude, está tomada por um grande vazio e tenta preenchê-lo com qualquer coisa, seja alguma droga, balada, libertinagem, enfim, algum excesso. Proclamando-se livres para seguirem qualquer rumo, as pessoas optam por não a ir a lugar algum e acomodam-se em um grande indiferentismo com relação a tudo o que passa à sua volta, desde que não interfira diretamente em suas vidas. Uma forma de niilismo, talvez. Prova disso é o amplo desinteresse pela política, por exemplo, ou então por temas perenes relacionados à filosofia. Discutir o programa do sábado à noite é muito mais importante, para muitos, do que simplesmente dar um sentido à própria existência.

Uma vez aprendi que a verdade liberta, e até hoje creio firmemente nisso. O que a sociedade precisa compreender é que fazer certas renúncias não é um aprisionamento, mas sim verdadeira libertação, pois se faço uma escolha, automaticamente renunciei às demais possibilidades. A estranheza moderna à abnegação é um claro sinal de que as pessoas querem sim ter liberdades, mas esqueceram completamente o significado disso. E, na ânsia em desejar escolher tudo, acabam optando por dar um grande salto rumo ao nada.


domingo, 22 de junho de 2008

Alguma Estética

Não tenho pretensão de tratar de Estética, mesmo porque não tenho conhecimento para tanto. Ocorre que recentemente tive algumas conversas interessantes com amigos, e refleti um pouco sobre uma questão em específico: o nu nas obras de arte. Tal assunto surgiu em decorrência de um festival de teatro que está sendo realizado em minha região, e comentaram que havia peças nas quais havia cenas de nudez e até mesmo sexo explícito. E alguns – não sem certa malícia – perguntaram a mim o que eu pensava sobre isso. Segue abaixo o desenvolvimento da resposta dada a eles.

O corpo humano é capaz de expressar os sentimentos de forma interessante. É comum encontrarmos um amigo e já perguntarmos: “o que houve com você?”. Isso porque conhecemos as feições daquela pessoa, e por meio desse expressar-se é possível captar o “estado de espírito” dela. Mas há uma parte do corpo que desempenha o papel essencial em nossa expressividade: o rosto. Em nossa memória podemos encontrar feições de alegria, tristeza, sofrimento, angústia... nossas experiências permitem o acúmulo também desse tipo de conhecimento – que é essencial nos relacionamentos. É inconcebível chegar a uma pessoa que visivelmente passa por um momento de dor – dessa dor que fica estampada no rosto da pessoa – e contar uma piada sobre, sei lá, o português da padaria. A necessidade de comunicar nossos sentimentos faz com que assumamos, involuntariamente, essas feições específicas para cada situação, sejam elas de dor ou de alegria.

Creio que seja senso comum a importância central do rosto na comunicação dos sentimentos. Imagine, por exemplo, alguém tentando expressar-se através de seu joelho, exclusivamente. Não existe um joelho característico para o sofrimento, outro para a alegria e outro para não sei mais o quê. Se fotografarmos o joelho de uma pessoa em um momento de alegria e, depois, em um dia triste, não será possível fazer uma distinção entre os sentimentos. Porém, com uma imagem do rosto da pessoa é muito fácil distinguir esses estados da alma.

Não que o rosto assuma um papel exclusivo em nossa capacidade de expressão; na verdade, ocupa um lugar de destaque. É inegável a importância das mãos, por exemplo, na comunicação. Qualquer pessoa que tenha a mínima noção sobre o modo adequado de falar em público sabe que a postura, inclusive das mãos, assume papel importantíssimo. Basta recordar as imagens de Hitler discursando: tanto seu tom de voz quanto seus movimentos de braços enérgicos foram fundamentais para causar a catarse que seus discursos tinham o poder de criar nas platéias. Assim, é possível dizer que o corpo é capaz de comunicar nossos sentimentos tanto quanto ou em complemento às palavras.

Na Arte também aparece toda essa expressividade do corpo humano. Quem nunca ouviu falar do sorriso da Mona Lisa? É no teatro, porém, que essa capacidade humana é explorada ao máximo. E um bom ator sabe usar cada movimento para transmitir emoções ao público. E aqui volto à questão do joelho: certas partes do corpo, em si, possuem um papel irrelevante na missão de expressar-se. Outras podem, por vezes, desvirtuar completamente o sentimento a ser demonstrado; este é o caso do nu mal colocado. A tendência de uma cena de nudez, seja em filmes, seja em teatro, é causar uma excitação em seus espectadores. Momentos como esse costumam ou ser irrelevantes na obra, ou então atrapalhar o andamento da mesma. Uma cena de amor pode perder sua transcendência caso avance para uma cena de sexo; aí acaba por haver excitação sexual, pura e simplesmente. E toda a riqueza da obra pode ser trocada por algo que se apresenta como apelativo, muitas vezes. Há realmente necessidade de falar em sexo explícito para descrever o amor humano? Buscando nos clássicos da literatura e do teatro a resposta parece ser um “não” contundente. A própria sexualidade humana vai muito além dessa genitalidade com a qual somos massacrados – inclusive nas escolas -; o nu acaba sendo uma forma de artistas medíocres expressarem (ou tentarem, pelo menos) aquilo que outros fizeram de modo mais profundo e menos apelativo.

Não prego aqui um puritanismo barato. É possível sim que um artista use de nudez de forma a não causar em seu público uma excitação sexual, apenas. O sublime teto da Capela Sistina, por exemplo, contém várias imagens com nudez, e é sem dúvida um dos locais onde a arte auxilia de modo espetacular a transcendência. O problema está no momento em que o artista não consegue expressar-se com palavras ou com imagens mais sutis, e aí precisa usar do recurso da nudez e conseqüente excitação sexual para “expressar-se”. O que para muitos é algo arrojado, fruto da liberdade de nossos tempos, para mim não passa, na maioria das vezes, de um recurso medíocre e apelativo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Luzes obscuras

Cegos enxergando, paraplégicos andando, surdos ouvindo. Uma cena dessas poderia fazer parte de alguma imagem surreal ou então miraculosa, como é o caso dos Evangelhos. Mas não, segundo alguns faz parte da ciência e tornar-se-á ordinária em breve. Como? Com as células-tronco embrionárias – que agora podem ser destruídas “à la carte”, graças ao STF. Prodígio da ciência, não a atual, mas daquela que há de vir (como que se algo que não existisse pudesse ser considerado ciência). Uma espécie de Parusia, tão verdadeira quanto uma nota de três reais.

Impressionante que na véspera do julgamento houve quem ainda defendesse, em rede nacional, que embriões congelados há mais de três anos são inviáveis. Inviáveis para quê? Para implantar no útero é que não, pois há inúmeros casos nos quais o período de congelamento foi muito maior do que isso e houve o normal desenvolvimento da pessoa humana. Inclusive um caso recente, aqui no Brasil, de um garoto que, quando era embrião, ficou oito anos congelado. Mas está aí, vivo. E há quem acredite que isso seja impossível; há quem negue os fatos para defender pontos-de-vista absurdos. E isso é desonesto.

Mais tragicômico foi o urro de vitória dos laicistas. “Acusando” o ministro Direito de ser católico fervoroso (como se fosse um crime, ou algo medonho, ser católico), não cessaram de reafirmar a laicidade do Estado brasileiro, alegando que princípios religiosos são questões de foro íntimo. Ao contrário do fervorosíssimo (sic) ministro Direito e do Sub-Procurador Geral da República, Cláudio Fontelles, os Mellos (Celso e Marco Aurélio) fizeram uma vasta explanação, beirando à teologia, sobre o tema. Uma completa contradição: os acusados de serem religiosos (uso a palavra acusados para realçar o clima de perseguição que há contra os fiéis) pautaram seus argumentos em uma lógica essencialmente filosófica e antropológica, assentado no Direito Natural; os laicistas atacaram argumentos religiosos que sequer foram levantados na discussão. Em resumo: “discordamos de vocês, não vamos contra-argumentar, afinal há várias verdades. Mas, só para constar, detestamos a religião”. E isso foi noticiado como a vitória da esperança, da liberdade.

Esperança como a do garoto de oito ou nove anos, que após o julgamento perguntou ao pai: “Quando sai o remédio?”. Ele é portador de uma distrofia musuclar, doença incurável. O que dizer a esse garoto? Não saberia lidar com um engano de tal magnitude. Mas aos cientistas que estão propagando essas lendas, fica aqui a recordação. Há mais de setenta tratamentos viáveis com células-tronco no mundo, todos eles desenvolvido a partir de células adultas. Todos. Aí eu tenho motivos de esperança. Ao contrário, células embrionárias geraram, até o momento, zero tratamentos. Zero pode ser popularmente entendido como nada. E por que não citam os casos dos japoneses, pioneiros em pesquisa com uso de embriões, que simplesmente abandonaram as pesquisas com células-tronco embrionárias justamente pelo fato de as adultas serem verdadeiramente promissoras para desenvolver tratamentos? Essas omissões causam muita desconfiança em mim; pelo menos porque o debate foi propositadamente deixado de lado por muitas pessoas, em prol de um sentimentalismo e de uma fé cega em algo que não existe.

Enfim, o Brasil anda mesmo na contramão do mundo. Se as pesquisas de ponta com células-tronco embrionárias são abandonadas, aqui querem começá-las julgando que entramos para a vanguarda científica, quando estamos novamente décadas atrasados. E, justamente no ano em que comemoramos os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que é, sim, legado das grandes tradições religiosas por conterem valores perenes e universais), abrimos em nosso país um precedente contra a vida humana. A bem da verdade é que essa discussão toda apenas mostra que muita gente esqueceu o que é o ser humano, e o pior é que não se importam muito em saber exatamente do que se trata.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Três Gê

É comum nos últimos anos encontrarmos termos como “era da informação”, “revolução da informação” e “acesso à informação”. O incrível avanço das comunicações desde o século XIX, com o telégrafo, é um fenômeno tecnológico que atinge proporções sociais gigantescas. Houve uma mudança radical no padrão de vida do homem médio de dois séculos para cá, e isso graças à tecnologia. Esse processo foi acelerado nas últimas décadas com o advento das comunicações móveis e a popularização da internet. Mas, como tudo isso se relaciona comigo? Agora tenho um blog, um celular... e é só isso?

Uma conseqüência muito importante do uso de todas essas tecnologias está na maneira com a qual nos comunicamos. Em primeiro lugar, muda-se a velocidade com a qual uma informação de alastra: desde a invenção do telégrafo, isso é feito de modo praticamente instantâneo, mesmo entre continentes distintos. Atualmente é possível comunicar-se com astronautas na Lua, se for necessário. O outro aspecto importante refere-se à facilidade em acessar essas informações todas: o Brasil possui dezenas de milhões de celulares e de computadores com acesso à internet. É muita gente acessando muita informação. Antes, uma notícia como um terremoto na China poderia demorar meses para chegar ao Brasil; agora, em segundos os brasileiros conhecem de perto o drama chinês. Há toda uma alteração na maneira com a qual nos comunicamos e buscamos conhecimento.

Mas toda essa informação tem seu aspecto negativo. As pessoas sabem que um panda cruzou com uma fêmea em um zoológico na Conchinchina, mas não sabem se a Arca era de Noé ou de Moisés (já esclareci essa dúvida a alguém). Sabemos o placar de todos os jogos da liga javanesa de handebol, mas deixamos Gustavo Corção cair no esquecimento. É como se conhecêssemos muito sobre nada. Um conhecimento amplo, quase “enciclopédico”, mas sobre coisas inúteis. Não é por acaso que a Wikipedia tornou-se referência para muitas pessoas. Ela talvez seja o reflexo do que falo, desse saber superficial, como um verniz. Se alguém chega e diz que aprendeu sobre determinado tema nessa enciclopédia livre, logo concluo que a pessoa não sabe muito do assunto. No máximo, tem uma idéia do que se trata – e acho que essa é a função da Wikipedia.

Claro que é bom ter um celular e poder ser avisado sobre qualquer emergência rapidamente. Mas tem horas que a vontade mesmo é de mantê-lo desligado. Também não acho muito útil ler nas notícias de última hora que um cara ficou preso no bueiro (isso é real), ou que o pneu do carro do Lula estourou. Mas futilidades como essas são todos os dias lançadas goela abaixo, pela mídia. Fora a desinformação canalha em muitos casos, como as mentiras propagadas sobre as células-tronco embrionárias. Tem muita gente “perita” no assunto por aí, com informação consolidada, e que mal sabe dizer o que é um embrião. De que vale um conhecimento assim?

Pior é que as comunicações – ainda mais com a era 3G dos celulares – muitas vezes afastam mais do que aproximam as pessoas. Há a possibilidade de eu conversar todo dia com um esquimó do Alaska, mas não saber o nome do filho do meu vizinho. Há quem se maravilhe com isso; eu não considero um avanço da comunicação, mas um retrocesso bizarro. É muito mais importante saber do problema do meu vizinho do que das contrariedades dos esquimós. Não que eu seja indiferente aos problemas polares, mas é que concretamente há um dever em preocupar-se com as pessoas mais próximas de nós. Aliás, é aqui que surge o patriotismo. Convém que não criemos uma bolha de relacionamentos, pois precisamos estar sensíveis à realidade das pessoas próximas a nós.

Todas essas maravilhas tecnológicas já mudaram bastante o mundo, e tem potencial para mudar muito mais. Como estudante de engenharia afirmo, com segurança, que estamos ainda em uma era de transição, e que muitas aplicações fantásticas estão por surgir. É inevitável que a forma com a qual as pessoas se relacionam ainda modificar-se-á de modo intenso, mas que isso não seja pretexto para destruir relacionamentos tão preciosos como a amizade e a família. É importantíssimo que a próxima etapa de toda essa revolução seja que o mundo virtual torne-se cada vez mais real: que os amigos sejam amigos como sempre foram e os esposos casados como em qualquer casamento nos últimos milênios. Que sejam relacionamentos reais, e não meramente virtuais.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O segredo do Pe. Brown

A ocorrência de crimes bárbaros é razoavelmente freqüente. Dentre os casos recentes e chocantes há o assassinato da menina Isabela Nardoni e aquele austríaco, provavelmente maluco, Josef Frtizl. Nota-se que a população fica terrivelmente chocada diante de atos tão vis como esses, o que é indicativo de que ainda há uma sensibilidade quanto aos direitos humanos e, indo mais além, quanto ao que é certo e errado. Vemos os autores de crimes como esses sofrerem ameaças até de linchamento, mostrando uma recusa da sociedade em assimilar indivíduos com comportamento tão intolerável. Mas o que leva uma pessoa a cometer atrocidades como essa?

O Pe. Brown, uma das ilustres criações de Chesterton, comenta que o seu segredo para desvendar os crimes é saber-se capaz de cometê-los. A princípio tal afirmação pode parecer superficial, afinal esse personagem é protagonista de contos policiais, que não costumam fazer uma análise muito profunda de seus personagens. Porém está cheia da compreensão cristã sobre o mal. Pe. Brown sabe que possui uma inclinação para o mal e que é preciso um esforço para fazer o bem.

Essa concepção é radicalmente contrária ao bom selvagem de Rousseau. Aliás, a maneira como o filósofo educou seus filhos demonstra claramente que ele não compreendia muito bem a formação do caráter humano. O bom selvagem americano, por exemplo, jamais existiu: perdura até hoje o infanticídio entre algumas etnias indígenas no Brasil. Não que deva ser admitido o outro extremo, que o homem é intrinsecamente mau. O fato é que há uma desordem na natureza humana e isso leva a uma dificuldade do homem em escolher o fim para o qual orienta os seus atos. Essa é a concepção adotada pelo cristianismo e que, a meu ver, explica com mais propriedade o mal no mundo.

Não é difícil verificar que em momentos de descontrole agimos como não gostaríamos. É justamente aí que fica claro o quanto é fácil agir mal e que é preciso esforço para praticar atos bons. O perdão, que é algo profundamente humano, requer muitas vezes essa grande vitória sobre nossas piores inclinações. Vencer o orgulho, a cólera e os demais vícios não é tarefa simples. É necessário praticar as virtudes humanas, assunto em baixa em tempos de “liberar geral” para “curtir a vida”.

Reconhecer essa desordem em nossas inclinações não é assumir uma postura pessimista sobre o ser humano. Muito pelo contrário, é o caminho mais seguro para um conhecimento próprio e para um aperfeiçoamento da pessoa através do desenvolvimento das virtudes humanas. Pe. Brown não cometeu nenhum crime pelo fato de saber-se capaz de realizá-los e lutar contra suas más inclinações.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Estado educador

Uma das funções notórias do Estado é oferecer educação aos membros de determinada nação. Sendo as famílias a célula básica da sociedade, uma educação pública de qualidade oferece um auxílio precioso na formação dos cidadãos. Ainda mais no contexto moderno, no qual o trabalho profissional muitas vezes exige dos pais um razoável distanciamento do lar.

O problema é quando o Estado pretende ir além do auxílio devido às famílias e passa a querer agir como formador principal das pessoas. Esse procedimento foi muito comum nos Estados totalitários, no século XX. A formação dos jovens era dada pelo Estado com o intuito de assegurar sua doutrinação de modo totalmente alheio ao interesse familiar. Desse modo, uma família de crentes teria muita dificuldade de transmitir a fé a seus filhos, posto que os colégios do Estado ensinavam justamente o contrário. Isso explica, em parte, a enorme proporção de ateus nos países que foram comunistas. A liberdade dos pais na educação dos filhos foi completamente destruída.

Em nosso Brasil, apesar da solidez de muitas instituições democráticas, há alguns aspectos que merecem atenção. O primeiro é com relação à falta de liberdade que os pais possuem para educar seus filhos. Não é possível, por exemplo, que uma família eduque completamente seus próprios filhos – sistema chamado “homeschooling”, inexistente por aqui. Não venho aqui defender tal método, o qual não analisei com profundidade, mas questiono a sua inexistência por aqui.

Sendo mais específico, preocupa-me muitíssimo, por exemplo, a tal “educação sexual” oferecida nas escolas por aí. Recentemente o assunto foi tratado de forma terrivelmente banal com a idéia de máquinas de distribuição de camisinhas nas escolas, similares às de refrigerantes. Isso para crianças de 13 anos. Se há quem ache que pessoas de 13 anos podem sair por aí mantendo relações sexuais, possuindo maturidade suficiente para relação tão íntima, tudo bem. As pessoas possuem liberdade para acreditar no que quiserem, por mais imbecil que seja a idéia. Com 13 anos, eu jogava futebol todos os dias e brincava de polícia-e-ladrão, atividades nada condizentes com alguém que pode vir a ser um pai (fato incluso para alguém com vida sexual ativa). Mas aí çequissólogos brilhantes “matam a charada”: com a máquina de camisinha as crianças mantém a relação sexual, mas não haverá geração de filhos. E há quem considere essa solução brilhante. Repito: se essas crianças possuem maturidade para relações sexuais, por que então não possuem maturidade para maternidade/paternidade? Afinal, um fato é conseqüência do outro. Ah, se as pessoas fossem coerentes...

E os pais que não quiserem submeter seus filhos a esse tipo de “aprendizagem” e não possuem dinheiro para pagar um bom colégio particular, desses que ensinam valores, o que irão fazer? Na verdade, eles não possuem saída, e terão que ensinar o contrário do que o Estado quer ensinar. A questão é que mais de 90% dos brasileiros dizem-se cristãos, e a moral cristã é clara com relação à relação sexual: é digna e santa, e possui seu lugar próprio dentro do matrimônio. A partir do momento que o Estado interfere em questões morais de foro íntimo, fere ou pelo menos dificulta a liberdade das famílias em transmitir os valores que achar convenientes para seus filhos.

Essa educação sexual centrada em métodos contraceptivos, “planejamento” familiar e apologia ao “sexo livre” é perniciosa, e agride frontalmente valores que muitas famílias professam. Além do mais, há outros absurdos que já foram ou ainda são ensinados na rede pública. Por exemplo, aquele livro denunciado recentemente por Ali Kamel por fazer apologia ao comunismo. Havia até o descalabro de dizer que o “Grande Salto para a Frente” ter sido algo positivo para a China – omitindo as 40 milhões de mortes por fome neste incidente. Ou então o que poderíamos chamar de “educação física com Marx”, no Paraná. Isso até me faz lembrar o futebol filosófico, de Monty Python, no hilário momento “Karl Marx no aquecimento”. Só que isso perde a graça ao saber que crianças estão sendo doutrinadas em plena aula de educação física!

Enfim, o Estado não pode querer ocupar o lugar dos pais na educação dos filhos, antes deve ser um sadio colaborador. É, portanto, necessário que os pais estejam atentos ao que seus filhos aprendem nas escolas, de modo a corrigir os absurdos ensinados por lá. E muitas vezes uma pressão pode funcionar: o livro denunciado por Ali Kamel foi retirado das escolas. Ainda há tempo para agir aqui no Brasil.

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Consulta interessante sobre homeschooling:http://apache.camara.gov.br/portal/arquivos/Camara/internet/publicacoes/estnottec/pdf/100157.pdf

domingo, 20 de abril de 2008

Madre Teresa e a mídia

Há uma famosa entrevista concedida por Madre Teresa de Calcutá a um jornalista britânico que revela alguns fatos muito curiosos. Ela não assistia televisão, nem lia jornais, e por isso mesmo o repórter afirmou que ela conhecia o mundo melhor do que pessoas que acompanham o noticiário. Isso pode ser sustentado por dois pilares: primeiro pelo grande contato que ela tinha com realidades muito dolorosas, que muitas vezes estão fora dos jornais; segundo: que essa santa mulher escapava da alienação que a mídia é capaz de gerar.

É impressionante como maus formadores de opinião deformam os critérios morais de toda uma sociedade. Um caso evidente é o das células-tronco embrionárias, aqui no Brasil, atualmente. Algumas pesquisas – se são confiáveis, eu não sei - mostram que boa parte dos brasileiros é a favor da destruição de embriões humanos para pesquisas. E está claro que essa opinião é formada pelos meios de comunicação, que são – em sua ampla maioria – descaradamente favoráveis a essa pesquisa. Mas, eu proporia outra pesquisa. A pergunta seria a seguinte: “Você sabe o que é uma célula-tronco?”. Da resposta a essa questão compreenderíamos como há tantas pessoas favoráveis a destruir embriões...

Em nosso país, seja pelos modelos que são apresentados às pessoas – os tais “artistas” de televisão -, seja pelo nível geral das escolas brasileiras – que lamentavelmente figuram entre as piores do planeta em diversas avaliações -, o fato é que a população, na média, não possui um senso crítico muito aguçado. Isso fica evidente com a maneira pela qual a maioria dos brasileiros reagiu aos imensos escândalos envolvendo o atual governo: reelegendo-o. Então aparecem na televisão vários deficientes, que são usados como massa de manobra para fazer pressão nos juízes e na sociedade, e diz-se que, com as pesquisas, eles terão esperança de cura. Afirmo que não se pode usar o sofrimento alheio dessa forma. E a população acaba acreditando, mesmo sem ter a menor idéia dos resultados dessa pesquisa – ou seja, nenhum - e do tipo de doença que aquelas pessoas possuem.

É mais ou menos como aquelas antigas propagandas de cigarro. O apelo é tanto, que é capaz de um ferrenho anti-tabagista ficar com vontade de acender um cigarro depois de assistir a uma imagem paradisíaca acompanhada da frase “venha para o mundo de Marlboro”. E a pessoa, movida por esse apelo, vai querer fumar sem pensar muito nas conseqüências desse ato. O mesmo ocorre com muitos assuntos expostos na mídia, conforme citei um caso ali atrás. Critérios objetivos são deixados de lado para uma manipulação grosseira, que ao invés de levar à reflexão leva à uma submissão: muitas pessoas estão submissas às “verdades” que os meios de comunicação nos impõe. A solução não é, de forma alguma, afastar-se da mídia, como Madre Teresa. Ela era religiosa e, como tal, vivia um afastamento do mundo: a escolha de vida dela exigia essa radicalidade. Quem está no meio do mundo deve, sim, informar-se, mas com muito critério. Buscar, em primeiro lugar, fontes de informação seguras e com credibilidade. E há muitas na grande mídia: pessoas como Ali Kamel, Reinaldo Azevedo e Carlos Albrto Di Franco, por exemplo. Mas, o mais importante é a formação própria da pessoa, alcançada com estudo e honestidade intelectual. Isso não nos torna, de forma alguma, imunes à manipulações ou dados controversos, mas sem dúvida alguma é o único caminho seguro. Pensar por conta própria faz com que sejamos mais do que fantoches de interesses alheios, muito embora exija mais esforço do que deixar outros pensarem por nós – e vale a pena.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O paradoxo da globalização

O homem possui uma tendência interessante, intrínseca à própria natureza humana: a capacidade, ou melhor, a necessidade de viver em sociedade. Desde os primórdios da história humana o homem viveu em grupos, sempre organizados de uma forma ou outra. Com o tempo, essas organizações passaram a ser muito complexas, ocasionando o surgimento dos Estados. Historicamente, com o advento dos Estados Nacionais, os Estados passaram a ser instituições de países cuja população constituía nações, ou seja, grupo humano com as mesmas características étnicas e culturais. Falo de franceses, italianos, alemães e afins. E, efeito curioso, há uma tendência nas pessoas em valorizar o que é seu – ou consideram seu – em detrimento do que é alheio.

Assim, um brasileiro costuma ficar louco da vida quando uma empresa estrangeira vem e toma o lugar no mercado de alguma empresa nacional. Não importa que os estrangeiros sejam mais competitivos, muitos brasileiros, movidos por um tolo sentimento nacionalista, simplesmente tomam partido da empresa brasileira pelo fato de ser brasileira. Não discutirei aqui o erro do nacionalismo, mas este é originado por um sentimento “a priori” muito positivo: o amor pelo próximo. É verdade que o nacionalismo é um amor desordenado, mas o patriotismo é um sentimento bom e deve ser cultivado. É natural que eu veja mais traços em comum com um brasileiro do que com um moçambicano, por exemplo. Seja por fatores étnicos, seja por fatores culturais.

Atualmente, com a globalização, há os que querem acabar com as fronteiras para criar uma nova humanidade, mais fraterna, justa, e sei lá mais o quê. Não faço idéia se isso vai acontecer mesmo, ou se é apenas mais um delírio. O fato é que muitas fronteiras econômicas têm ruído, vejam o caso da União Européia. Mas, ao invés de haver um movimento também no sentido de acabar com as fronteiras dos Estados Nacionais, partindo para um governo único, há na Europa um movimento em sentido contrário: há, cada vez mais, uma forte tendência à fragmentação política! Os separatismos estão mais ativos do que nunca, talvez movidos por uma segurança assegurada pela integração econômica do continente europeu. Isso é um paradoxo.

Casos famosos são o separatismo dos bascos em relação à Espanha, por exemplo, e dos irlandeses do norte em relação ao Reino Unido (mesmo com a recente deposição de armas do IRA). Há o caso mais recente de separatismo na Bélgica: o pessoal da região de Flandres quer separar-se da região da Valônia. Até a língua falada em cada região é diferente (francês e holandês). Posso citar ainda a recente proclamação de independência de Kosovo. A velha tendência humana de agrupar-se com seus semelhantes mais próximos volta à tona, com toda a força. Em todos esses casos é muito comum o apoio massivo da população pelas causas nacionais.

Seria, portanto, essa tendência um movimento “reacionário” e nocivo à globalização? Seria essa última a grande saída para a humanidade, buscando uma integração cada vez maior buscando uma grande unidade entre as nações? Tenho a impressão de que esse dito movimento global, antes de ser uma natural comportamento humana, é uma imposição tremendamente artificial. A tendência humana de agregar-se a pessoas com características mais próximas parece ser muito forte e, até agora, a globalização não conseguiu vencer esse fenômeno. E isso não me parece de todo mal.

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Não faço aqui apologia a nenhum nacionalismo estúpido, tampouco farei desse "globalismo" maluco. Ambas os posicionamentos acabam causando derramamento de sangue em muito lugar por aí. Novamente, reforço: um sadio patriotismo - que o brasileiro, em geral, não possui - pode ser uma excelente saída a esse paradoxo.