sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Cartomante

O título deste texto é o mesmo de um conto de Machado de Assis. Faço isso pois a leitura trouxe à minha mente algumas reflexões importantes. Por isso mesmo já aviso ao leitor que, caso leia as linhas abaixo, saberá toda a história do conto e seu desfecho, inclusive. Não quero ser chato – afinal, contar o fim de um conto, filme ou seja lá o que for é muita chatice -, e estão todos avisados. Não há nenhuma pretensão de crítica literária ou algo parecido, pois não possuo capacidade para tanto. Apenas algumas impressões, muito pessoais, sobre o que li.

O conto é, por definição, uma narrativa breve, com poucas personagens e sem muitas tramas, como serio o caso de um romance. Neste, Machado cria três personagens: Camilo, Rita e Vilela. Os dois homens são grandes amigos, e o último é casado com Rita, que por sua vez mantém um romance oculto com Camilo. Este é apresentado, no início do conto, como um homem cético: “Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não sabia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo”. E mais adiante: “Diante do mistério contentou-se em levantar os ombros, e foi andando”. Nota-se aqui presente a genial ironia machadiana, sutil e com uma crítica ácida a certas posturas. Atualmente podemos encontrar muitos “camilos”. É a típica postura comodista, ou seja, não refletir sobre algumas realidades misteriosas que atingem o Homem, inexoravelmente, e muitas vezes são duras de enfrentar. É o caso da dor e da morte. Quem está livre delas? Por outro lado, quem reflete com seriedade sobre esses temas, buscando compreender a razão disso tudo? Poucas pessoas. A maioria prefere ser como Camilo: simplesmente dá de ombros e ignora todas essas questões, buscando viver na situação mais cômoda e prazerosa possível.

A trama vai se desenvolvendo, e a certa altura Camilo recebe um bilhete de Vilela, no qual este pede para ver o amigo com grande urgência. Camilo assusta-se, pois desconfia que Vilela descobrira o romance oculto de Rita. A descrição do caminho de Camilo até a casa do amigo é fantástica. O rapaz começa imaginar a situação dele chegando à casa do amigo, com a mulher humilhada e o marido indignado com o fato de ser traído pela esposa e pelo melhor amigo. Chega até a pensar em ir armado à casa de Vilela, mas desiste da idéia. A verdade é que o medo o dominava. Ele atravessa parte da cidade em um carro puxado por cavalo – espécie de táxi da época – quando se depara com uma casa onde atendia uma cartomante. Movido pelo pavor, as velhas crendices que há tempos ele renegara voltam com força. Afinal, “há mais coisas entre o céu e a terra que nossa vão filosofia possa compreender”... Ele, um homem cético, que riu de Rita quando ela foi consultar a mesma cartomante, agora está ali, frente a frente com a “vidente”. Ora, esse é um comportamento típico: o medo do que poderia acontecer no encontro com Vilela esmagou o indiferentismo de Camilo. Ele não poderia dar de ombros frente a um drama que atingisse à ele e à sua amada. E, como disse G. K. Chesterton em algum lugar, quando o homem deixa de crer em Deus, passa a acreditar em qualquer coisa. Penso que seja assim. Com Camilo, pelo menos, foi.

Interessante ainda o fato de que Camilo simplesmente nunca havia parado para pensar sobre a dor, sobre a dificuldade, sobre a morte. E, tendo medo do que poderia acontecer muito em breve, buscou refúgio no primeiro abrigo que apareceu em sua frente: a superstição. Tanto mais razão tem isso em nossos tempos globalizados, no qual as pessoas mal têm tempo de conversar umas com as outras, quanto mais pensar. Afinal, há outras pessoas que podem – e, na verdade, querem – pensar no lugar de todos, fornecendo idéias prontas para as pessoas aceitarem como verdadeiros dogmas. E um dos paradigmas dessa sociedade globalizada é o pavor do sofrimento, da morte. As pessoas querem ser imortais gozando de uma existência tranqüila. Mal sabem que Vilela está para mandar um bilhete para cada um de nós, e se não refletirmos sobre isso com antecedência, o pavor dominar-nos-á. Camilo jamais pensou que seu melhor amigo descobriria o romance com Rita. Quanta ingenuidade! E como são ingênuos os Camilos contemporâneos, que fogem de qualquer incomodidade, de qualquer sacrifício, apenas em busca da satisfação própria. Vilela os aguarda!


A cartomante acaba sendo um grande refúgio para Camilo. Ela diz que está tudo bem, que nada de ruim acontecerá. E ele acredita em tudo. Acredita porque deseja ardentemente que nada de ruim aconteça. Como se a traição a seu melhor amigo já não fosse um crime terrível! A bem da verdade é que o agora covarde e supersticioso – outrora cético – Camilo é um canalha. Trair uma amizade de infância dessa forma? Mas ele não está preocupado com isso. Está preocupado é com o que poderia ser dele se Vilela descobrisse. É o egoísmo. Camilo é tão egoísta, tão mesquinho, que sequer sente o peso da culpa da traição, apenas teme o que está na iminência de ocorrer. Não pensa nas desculpas que deveria pedir ao amigo, no reconhecimento do erro, no arrependimento, na vergonha, no quanto Vilela estaria sofrendo por ser traído pelo melhor amigo e pela esposa. Afinal, estava feliz, sentindo-se bem com o romance proibido, e era isso o que importava para ele. Nossos Camilos também possuem, como máxima, esse sentir-se bem, mesmo à custa de alguns princípios. Na verdade, para Camilo não há princípios, apenas vai-se andando. A satisfação própria está acima das virtudes da lealdade e da justiça. Pois o que é mais justo: ser leal com o melhor amigo ou satisfazer-se? Para Camilo, a satisfação é o guia, e pouco importa a amizade, desde que – é claro – o amigo não descobrisse a trama. Mas agora ele pode estar a par de tudo, e a segurança trazida pelas palavras da cartomante recobra a confiança do traidor. Não havia nada a temer, a cartomante garantiu a paz. Ele simplesmente escutou o que queria ouvir, e não o que precisava. Agora, sentia-se bem. Quanta ilusão! Traíra o melhor amigo de forma baixa e ainda conseguia sentir-se bem devido às palavras de uma cartomante. Esta, também digna de nota, ganhando dinheiro à custa de iludir às pessoas. Uns iludem, outros são iludidos e pagam bem para isso. Nossos Camilos contemporâneos não ficam muito atrás, e “afogam as mágoas”, quando deveriam enfrentá-las e superá-las. Muitas vezes as pessoas encontramos formas covardes de fugir das próprias culpas, movidas por puro orgulho e egoísmo.


O desfecho, porém, é fatal. Iludido e cheio de confiança, Camilo chega à casa de Vilela. Encontra Rita morta e mal tem tempo de assustar-se, é morto pelo amigo. É Vilela criminoso? Sim. Foi um crime passional, desses que os comunistas não conseguem explicar através da luta de classes – e que acontecem aos montes por aí. Mas isso não o exime de sua culpa: agiu livremente, pois o homem é livre, e escolheu pela vingança. Rita e Camilo eram pobres inocentes? Não, eram dois canalhas. Não defendo que deveriam morrer, mas o fato é que, até o último momento, Camilo não fez sequer menção de arrependimento, de repugnar a traição. Pelo contrário, queria safar-se, e agarrou-se no primeiro apoio que apareceu: a cartomante. Uma ilusão, como muitas outras que existem por aí e nas quais as pessoas agarram com grande força: o comodismo, a satisfação própria à custa dos outros, tirar vantagem das situações, o hedonismo. A simples iminência do sofrimento destrói essas ilusões. E isso é inevitável de ocorrer, faz parte da existência humana, por mais que as pessoas queiram fugir, como Camilo quis. E a falta de reflexão deste causou, indiretamente, sua morte. O comodismo e a busca desenfreada e sem limites por satisfação talvez tenha sido o motivador de seu fim. Vilela, afetado, errou em encontrar nessa motivação uma justificativa para a vingança, afinal foi gravemente traído. Ambos errados. O fato é que o crime de Vilela choca imediatamente, pela sua brutalidade, enquanto a canalhice de Camilo o acompanha ao longo de toda a trama de modo que podemos até achar natural e aceitável o romance que mantinha com Rita e a farsa que havia se tornado sua amizade. A bem da verdade é que podemos nos identificar com Camilo, com sua indiferença frente ao desconhecido, com seu comodismo e busca de satisfação à todo custo, mas jamais com a brutalidade de um Vilela. O que deveríamos saber é que ambas as atitudes estão muito próximas, e são condenáveis.


Machado terminou muitas de suas principais obras em tom pessimista. Este conto em tons trágicos. Penso que, mesmo sem Camilos, haveria muitos Vilelas por aí. Mas, tenho a impressão de que seriam menos. Se Camilo refletisse sobre seus próprios atos, se passasse a pensar um pouco mais na felicidade de seu grande amigo, teria sido assassinado dessa forma? Termino assim em tom otimista: penso que o desfecho poderia ser diferente, menos trágico, mas ainda assim com dor: o sofrimento de Vilela, pela traição, e de Camilo e Rita, pela culpa da traição. Ou acaso não teria a virtude de vencer a si mesmo e arrepender-se a capacidade de evitar a morte de Camilo?

5 comentários:

Alexandre M. F. Silva disse...

Começou bem, Rodolfo! Conheço este conto, mas ainda não havia percebido sua atualidade. A obra machadiana está cheia desta crítica irônica ao indiferentismo e a superficialidade. Brás Cubas é um outro grande exemplo. Sugiro que você leia e comente a "Teoria do Medalhão".

david disse...

sempre gostei de Machado de Assis, suas obras literárias são intrigantes no sentido de sempre haver um questionamento do texto mesmo com o aparentemente desfecho do próprio autor.

Professora Maluquinha disse...

Que graça, analisar Machado dessa forma. Muito boa estréia, Rodolfo!
Aguardamos as próximas reflexões. :)

anajapaulinha disse...

Me lembro de ter lido esse conto sim Rodolfo. Interessante a forma que vc analisou o texto, quando li não tinha visto dessa forma.

Marcela disse...

O qu efazes na Engenharia, meu caro?
Brincadeira, mas que você escreve bem, isso é inegável. E tem sensibilidade de poeta.